Carregando...
 
Skip to main content
id da página: 4021 Máximo o Confessor – Centúrias sobre a Caridade 3 Maximo

Maximo Caridade 3

Máximo o Confessor — Centúrias sobre a Caridade 3


Tradução em grande parte feita a partir da versão inglesa da Philokalia, mas eventualmente utilizando a versão francesa.

1. Um uso inteligente das imagens conceituais e de seus correspondentes objetos físicos produz a autorrestrição, o amor e o conhecimento espiritual; um uso não-inteligente produz a licenciosidade, o ódio e a ignorância.

2. Preparaste uma mesa diante de mim... (Sal. 23:5). Neste trecho, mesa significa a prática das virtudes, pois isto foi preparado para nós por Cristo para usar contra aqueles que nos afligem. O óleo ungindo o intelecto é a contemplação das coisas criadas. A taça de Deus é o conhecimento de Deus. Sua misericórdia é seu divino Logos. Porque por meio de sua encarnação o Logos nos persegue todos os dias até Ele ultrapassar todos aqueles que devem ser salvos, como Ele fez no caso de Paulo (cf. Fil. 3:12). A casa é o reino no qual todos os santos habitarão. O comprimento dos dias significa a vida eterna.

3. Quando nós usamos mal as potências da alma seus aspectos maus nos dominam. Por exemplo, o mau uso de nosso poder de inteligência resulta em ignorância e estupidez; o mau uso de nosso poder incisivo e de nosso desejo produz o ódio e a licenciosidade. O uso apropriado destas potências produz o conhecimento espiritual, o julgamento moral, o amor e a autorrestrição. Sendo assim, nada criado e dado à existência por Deus é mau.

4. Não é a comida que é má mas a gula, não a procriação de filhos mas a impudicícia, não as coisas materiais mas a avareza, não a estima mas a autoestima. Sendo assim, é apenas o mau uso das coisas que é mau, e tal mau uso acontece quando o intelecto falha em cultivar suas potências naturais.

5. Entre os demônios, diz o bem-aventurado Dionísio, o mal toma a forma de raiva sem mente, de desejo descontrolado pelo intelecto, e de imaginação impetuosa. Mas a falta de mente, a falta de controle intelectual e a impetuosidade em seres inteligentes são privações de inteligência, de intelecto e de circunspeção. Mas uma privação é posterior à posse de algo. Houve uma vez, então, em que os demônios possuíam inteligência, intelecto e circunspeção devota. Sendo este o caso, nem mesmo os demônios são maus por natureza, mas eles se tornaram maus por meio do mau uso de suas potências naturais.

6. Algumas das paixões produzem a licenciosidade, algumas o ódio, enquanto outras produzem tanto a dissipação quanto o ódio.

7. O excesso de comida e a gula causam a licenciosidade. A avareza e a autoestima causam que se odeie o vizinho. O amor-próprio, a mãe dos vícios, é a causa de todas estas coisas.

8. O amor-próprio é um amor apaixonado, sem mente para com o corpo. Seu oposto é o amor e o autocontrole. Um homem dominado pelo amor-próprio é dominado por todas as paixões.

9. Nenhum homem odiou jamais sua própria carne, diz o Apóstolo (Efes. 5:29), mas ele a disciplina e a torna sua serva (cf. I Cor. 9:27), permitindo-lhe nada mais que comida e roupa (cf. I Tim. 6:8), e apenas o que é necessário para a vida. Deste modo um homem ama sua carne sem paixão e a nutre e cuida dela como uma serva das coisas divinas, fornecendo-lhe apenas o que atende a suas necessidades básicas.

10. Se um homem ama alguém, ele naturalmente faz todo esforço para ser de serviço a esta pessoa. Se, então, um homem ama Deus, ele naturalmente se esforça para se conformar a Sua vontade. Mas se ele ama a carne, ele a serve.

11. O amor, o autocontrole, a contemplação e a oração estão de acordo com a vontade de Deus, enquanto que a gula, a licenciosidade e as coisas que as aumentam servem à carne. É por isso que aqueles que estão na carne não podem se conformar à vontade de Deus (Rom. 8:8). Mas aqueles que são do Cristo crucificaram a carne junto com as paixões e os desejos (Gál. 5:24).

12. Se o intelecto se inclina para Deus, ele trata o corpo como seu servo e lhe provê não mais do que ele precisa para sustentar a vida. Mas se ele se inclina para a carne, ele se torna o servo das paixões e está sempre pensando sobre como satisfazer seus desejos.

13. Se queres dominar teus pensamentos, concentra-te nas paixões e expulsarás facilmente os pensamentos que surgem delas de teu intelecto. Em relação à impudicícia, por exemplo, jejua e fica em vigília, trabalha e evita encontrar pessoas. Em relação à raiva e ao ressentimento, sê indiferente à fama, à desonra e às coisas materiais. Em relação ao rancor, ora por aquele que te ofendeu e tu serás libertado.

14. Não te compares a homens mais fracos mas antes aplica-te a cumprir o mandamento do amor. Porque ao te comparar com o fraco tu cairás no poço da presunção, mas ao te aplicar ao mandamento do amor tu alcançarás a altura da humildade.

15. Se tu cumpres totalmente o mandamento de amar o próximo, tu não sentirás nenhuma amargura ou ressentimento contra ele, seja o que for que ele faça. Se este não for o caso, então a razão pela qual tu combates contra teu irmão é claramente porque tu buscas coisas transitórias e as preferes ao mandamento do amor.

16. Não é tanto por causa da necessidade que o ouro se tornou um objeto de desejo entre os homens, mas por causa do poder que ele dá à maioria das pessoas para se entregar ao prazer sensual.

17. Há três coisas que produzem o amor pela riqueza material: a autoindulgência, a autoestima e a falta de . A falta de fé é mais perigosa que as outras duas.

18. A pessoa autoindulgente ama a riqueza porque ela lhe permite viver confortavelmente; a pessoa cheia de autoestima a ama porque por meio dela ele pode ganhar a estima de outros; a pessoa que tem falta de fé a ama porque, temeroso da inanição, da velhice, da doença, ou do exílio, ele pode a salvar e a entesourar. Ele põe sua confiança na riqueza ao invés de em Deus, o Criador que provê para toda a criação, até ao menor dos seres vivos.

19. Há quatro tipos de homens que entesouram riqueza: os três já mencionados e o tesoureiro ou ecônomo. Claramente, é apenas o último que a conserva para um bom propósito, a saber, para ter sempre os meios de suprir as necessidades básicas de cada pessoa.

20. Todos os pensamentos apaixonados ou estimulam a potência desejante da alma, ou perturbam sua potência incisiva, ou escurecem sua inteligência. É desta forma que a capacidade do intelecto para a contemplação espiritual e para o êxtase da oração é entorpecida. E por esta razão um monge, especialmente o hesicasta, deve prestar atenção próxima a tais pensamentos, buscando e eliminando suas causas. Por exemplo, a potência de desejo da alma é estimulada por pensamentos apaixonados de mulheres. Tais pensamentos são causados pela intemperança em comer e beber, e por conversa frequente e sem sentido com as mulheres em questão; e eles são cortados pela fome, sede, vigílias e retirada da sociedade humana. De novo, a potência incisiva é perturbada por pensamentos apaixonados sobre aqueles que nos ofenderam. Isto é causado pela autoindulgência, autoestima e amor por coisas materiais. Porque é por conta de tais vícios que o homem dominado pela paixão sente ressentimento, sendo frustrado ou falhando de outro modo em alcançar o que ele quer. Estes pensamentos são cortados quando os vícios que os provocam são rejeitados e anulados por meio do amor de Deus.

21. Deus Se conhece a Si mesmo e Ele conhece as coisas que Ele criou. As potências angélicas, também, conhecem Deus e conhecem as coisas que Ele criou. Mas elas não conhecem Deus e as coisas que Ele criou da mesma forma que Deus Se conhece a Si mesmo e as coisas que Ele criou.

22. Deus Se conhece a Si mesmo por meio de conhecer Sua essência bem-aventurada. E as coisas criadas por Ele, Ele as conhece por meio de conhecer Sua sabedoria, por meio da qual e na qual Ele fez todas as coisas. Mas as potências angélicas conhecem Deus por participação, embora o próprio Deus transcenda tal participação; e as coisas que Ele criou elas as conhecem por apreendendo aquilo que pode ser espiritualmente contemplado nelas.

23. Embora o intelecto apreenda sua Visio de coisas criadas no interior de eu mesmo, elas estão de fato fora dele. Este não é o caso a respeito do conhecimento de Deus de coisas criadas, porque Ele é eterno, infinito e indeterminado, e Ele concedeu a tudo o que existe seu ser, seu bem-estar e seu ser eterno.

24. Naturezas dotadas de inteligência e intelecto participam em Deus por meio de seu próprio ser, por meio de sua capacidade para o bem-estar, isto é para a bondade e a sabedoria, e por meio da Gratia que lhes dá o ser eterno. É assim, então, que elas conhecem Deus. Elas conhecem a criação de Deus, como nós dissemos, por apreendendo a sabedoria harmoniosa a ser contemplada nela. Esta sabedoria é apreendida pelo intelecto de uma forma não-material, e não tem existência independente própria.

25. Quando Deus trouxe à existência naturezas dotadas de inteligência e intelecto Ele lhes comunicou, em Sua bondade suprema, quatro dos atributos divinos pelos quais Ele sustenta, protege e preserva coisas criadas. Estes atributos são o ser, o ser eterno, a bondade e a sabedoria. Dos quatro Ele concedeu os dois primeiros, o ser e o ser eterno, à sua essência, e os dois segundos, a bondade e a sabedoria, à sua faculdade volitiva, para que o que Ele é em Sua essência a criatura possa se tornar por participação. É por isso que se diz que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (cf. Gên. 1:26). Ele é feito à imagem de Deus, já que seu ser é à imagem do ser de Deus, e seu ser eterno é à imagem do ser eterno de Deus (no sentido de que, embora não sem origem, ele é no entanto sem fim). Ele é também feito à semelhança de Deus, já que ele é bom à semelhança da bondade de Deus, e sábio à semelhança da sabedoria de Deus, Deus sendo bom e sábio por natureza, e o homem por graça. Toda natureza inteligente é à imagem de Deus, mas apenas o bom e o sábio alcançam Sua semelhança.

26. Todos os seres dotados de inteligência e intelecto são ou angélicos ou humanos. Todos os seres angélicos podem ser subdivididos ainda em duas categorias morais gerais ou classes, o santo e o amaldiçoado, isto é, as potências santas e os demônios impuros. Todos os seres humanos podem também ser divididos em apenas duas categorias morais, o temente a Deus e o ímpio.

27. Já que Deus é a existência absoluta, a bondade absoluta e a sabedoria absoluta, ou antes, para o colocar mais exatamente, já que Deus está para lá de todas estas coisas, não há nada o que quer que seja que é oposto a Ele. Criaturas, por outro lado, todas existem por participação e graça, enquanto que aquelas dotadas de inteligência e intelecto têm também uma capacidade para a bondade e a sabedoria. Daí que elas têm opostos. Como oposto à existência elas têm o não-ser, e como oposto à capacidade para a bondade e a sabedoria elas têm o mal e a ignorância. Existir ou não eternamente reside no poder de seu Criador. Mas participar ou não de Sua bondade e sabedoria depende da vontade das criaturas inteligentes.

28. Os antigos filósofos gregos dizem que o ser de coisas criadas coexistiu com Deus desde toda a eternidade e que Deus apenas lhe deu suas qualidades. Eles dizem que este ser mesmo não tem oposto, e que a oposição reside apenas nas qualidades. Mas nós mantemos que apenas a essência divina não tem oposto, já que ela é eterna e infinita e concede a eternidade a outras coisas. O ser de coisas criadas, por outro lado, tem o não-ser como seu oposto. Existir ou não eternamente depende do poder Daquele que apenas existe em um sentido substantivo. Mas já que as dádivas de Deus são irrevogáveis (Rom. 11:29), o ser de coisas criadas sempre é e sempre será sustentado por seu poder onipotente, mesmo que ele tenha, como nós dissemos, um oposto; porque ele foi trazido à existência a partir do não-ser, e existir ou não depende da vontade de Deus.

29. Assim como o mal é uma privação do bem, e a ignorância uma privação do conhecimento, da mesma forma o não-ser é uma privação do ser, não do ser em um sentido substantivo, porque este não tem nenhum oposto, mas do ser que existe por participação no ser substantivo. As duas primeiras privações mencionadas dependem da vontade de criaturas; a terceira reside na vontade do Criador, que em Sua bondade quer que os seres existam sempre e que recebam sempre Suas bênçãos.

30. Todas as criaturas são ou dotadas de inteligência e intelecto, e assim possuem uma capacidade para opostos tais como virtude e vício, conhecimento e ignorância; ou então elas são corpos físicos de vários tipos formados de opostos, isto é, de terra, ar, fogo e água. Os primeiros são de todo incorpóreos e imateriais, embora alguns deles sejam unidos a corpos; os segundos são compostos de matéria e forma.

31. Por natureza todos os corpos têm falta de uma capacidade para o movimento; eles têm o movimento dado pela alma, ou por uma que é inteligente, ou por uma sem inteligência, ou por uma que é insensível, como for o caso.

32. A alma tem três potências: primeiro, a potência de nutrição e crescimento; segundo, a de imaginação e instinto; terceiro, a de inteligência e intelecto. Plantas compartilham apenas a primeira destas potências; animais compartilham a primeira e a segunda; homens compartilham as três. As duas primeiras potências são perecíveis; a terceira é claramente imperecível e imortal.

33. Em comunicando iluminação uns aos outros, as potências angélicas comunicam também ou sua virtude ou seu conhecimento à natureza humana. No que diz respeito à sua virtude, elas comunicam uma bondade que imita a bondade de Deus, e por meio desta bondade elas conferem bênçãos sobre si mesmas, sobre uns aos outros e sobre seus inferiores, assim os tornando parecidos a Deus. No que diz respeito a seu conhecimento, elas comunicam ou um conhecimento mais sublime sobre Deus, porque, como diz a Escritura, Tu, Senhor, és o mais alto para sempre (Sal. 92:8) ou um conhecimento mais profundo sobre seres incorporados, ou um que é mais exato sobre seres incorpóreos, ou mais distinto sobre a providência divina, ou mais preciso sobre o julgamento divino.

34. A impureza do intelecto consiste primeiro em ter falso conhecimento; em segundo lugar em ter ignorância de quaisquer dos universais (eu me refiro ao intelecto humano, porque é uma propriedade do intelecto angélico não ter ignorância nem mesmo de particulares); em terceiro lugar em ter pensamentos apaixonados; e em quarto lugar em assentir ao pecado.

35. A impureza da alma reside em seu não funcionar de acordo com a natureza. É por causa disto que pensamentos apaixonados são produzidos no intelecto. A alma funciona de acordo com a natureza quando seus aspectos passíveis, isto é, sua potência incisiva e seu desejo permanecem sem paixão em face de provocações tanto de coisas quanto das imagens conceituais destas coisas.

36. A impureza do corpo consiste na comissão real do pecado.

37. Aquele que não é atraído por coisas mundanas preza a quietude. Aquele que não ama nada apenas humano ama todos os homens. E aquele que não se ofende com ninguém ou por conta de suas falhas, ou por conta de seus próprios pensamentos suspeitosos, tem conhecimento de Deus e de coisas divinas.

38. É uma grande realização não ser atraído por coisas. Mas é uma realização muito maior permanecer sem paixão em face tanto de coisas quanto das imagens conceituais que nós derivamos delas.

39. O amor e o autocontrole mantêm o intelecto sem paixão em face tanto de coisas quanto das imagens conceituais que nós formamos delas.

40. O intelecto de um homem que desfruta do amor de Deus não combate contra coisas ou contra imagens conceituais delas. Ele batalha contra as paixões que são ligadas a estas imagens. Ele não, por exemplo, combate contra uma mulher, ou contra um homem que o ofendeu, ou mesmo contra as imagens que ele forma deles; mas ele combate contra as paixões que são ligadas às imagens.

41. O propósito inteiro da guerra do monge contra os demônios é o de separar as paixões de imagens conceituais. Do contrário ele não será capaz de olhar para coisas sem paixão.

42. Uma coisa, uma imagem conceitual e uma paixão são todas bem diferentes uma da outra. Por exemplo, um homem, uma mulher, ouro e assim por diante são coisas; uma imagem conceitual é um pensamento sem paixão de uma destas coisas; uma paixão é uma afeição sem mente ou ódio indiscriminado por uma destas mesmas coisas. A batalha do monge é, portanto, contra a paixão.

43. Uma imagem conceitual apaixonada é um pensamento composto de paixão e uma imagem conceitual. Se nós separamos a paixão da imagem conceitual, o que resta é o pensamento sem paixão. Nós podemos fazer esta separação por meio do amor espiritual e do autocontrole, se apenas nós temos a vontade.

44. As virtudes separam o intelecto das paixões; a contemplação espiritual o separa de suas imagens conceituais sem paixão de coisas; a oração pura o traz para a presença do próprio Deus.

45. As virtudes existem por causa do conhecimento de criaturas; o conhecimento por causa do conhecedor; o conhecedor, por causa Daquele que é conhecido por meio do não-conhecimento e que conhece para lá de todo conhecimento.

46. Deus, cheio para lá de toda plenitude, trouxe criaturas à existência não porque Ele tinha necessidade de algo, mas para que elas pudessem participar nEle em proporção à sua capacidade e para que Ele mesmo pudesse se regozijar em Suas obras (cf. Sal. 104:31), por meio de as ver jubilosas e sempre cheias até transbordar com Suas dádivas inesgotáveis.

47. Há muitas pessoas no mundo que são pobres em espírito, mas não da forma que elas deveriam ser; há muitas que choram, mas por alguma perda financeira ou a morte de seus filhos; muitas são gentis, mas para com paixões impuras; muitas têm fome e sede, mas apenas para se apoderar do que não lhes pertence e para lucrar com a injustiça; muitas são misericordiosas, mas para com seus corpos e as coisas que servem ao corpo; muitas são puras de coração, mas por causa da autoestima; muitas são pacificadores, mas em fazendo a alma se submeter à carne; muitas são perseguidas, mas como malfeitores; muitas são injuriadas, mas por pecados vergonhosos. Apenas aqueles são bem-aventurados que fazem ou sofrem estas coisas por causa do Cristo e após Seu exemplo. Por quê? Porque o deles é o reino do céu, e eles verão Deus (cf. Mat. 5:3-12). Não é porque eles fazem ou sofrem estas coisas que eles são bem-aventurados, pois aqueles dos quais nós falamos acima fazem o mesmo; é porque eles as fazem e as sofrem por causa do Cristo e após Seu exemplo.

48. Como foi dito muitas vezes, em tudo o que nós fazemos Deus examina nosso motivo, para ver se nós o estamos fazendo por Sua causa ou para algum outro propósito. Assim quando nós desejamos fazer algo de bom, nós não deveríamos o fazer por causa da popularidade; nós deveríamos ter Deus como nosso objetivo, para que, com nosso olhar sempre fixo nEle, nós possamos fazer tudo por Sua causa. Do contrário nós passaremos por todo o problema de executar o ato e no entanto perderemos a recompensa.

49. Em tempo de oração clareia teu intelecto tanto das imagens conceituais sem paixão de coisas humanas quanto da contemplação de criaturas. Do contrário em imaginando coisas menores tu podes te afastar Daquele que é incomparavelmente maior do que todos os seres criados.

50. Por meio de amor genuíno para com Deus nós podemos expulsar as paixões. O amor para com Deus é isto: escolher Ele ao invés do mundo, e a alma ao invés da carne, em desprezando as coisas deste mundo e em nos devotando constantemente a Ele por meio do autocontrole, do amor, da oração, da salmodia e assim por diante.

51. Se nós nos devotamos persistentemente a Deus e mantemos uma vigilância cuidadosa sobre o aspecto passível da alma, nós não somos mais levados de roldão pelas provocações de nossos pensamentos. Pelo contrário, à medida que nós adquirimos um entendimento mais exato de suas causas e as cortamos, nós nos tornamos mais discernentes. Desta forma as seguintes palavras vêm a se aplicar a nós: Meu olho também vê meus inimigos, e meu ouvido ouvirá os ímpios que se levantam contra mim (Sal. 92:11. LXX).

52. Quando tu vês que teu intelecto reflete sobre suas imagens conceituais do mundo com reverência e justiça, tu podes ter certeza que teu corpo, também, continua a ser puro e sem pecado. Mas quando tu vês que teu intelecto está ocupado com pensamentos de pecado, e tu não o refreias, tu podes ter certeza que antes de muito tempo teu corpo, também, cairá nestes pecados.

53. Assim como o mundo do corpo consiste de coisas, assim o mundo do intelecto consiste de imagens conceituais. E assim como o corpo fornica com o corpo de uma mulher, assim o intelecto, formando uma imagem de seu próprio corpo, fornica com a imagem conceitual de uma mulher. Porque na mente ele vê a forma de seu próprio corpo tendo relação com a forma de uma mulher. Similarmente, por meio da forma de seu próprio corpo, ele ataca mentalmente a forma de alguém que o tenha ofendido. O mesmo é verdadeiro a respeito de outros pecados. Porque o que o corpo representa no mundo de coisas, o intelecto também representa no mundo de imagens conceituais.

54. Não se deveria ficar chocado ou espantado porque Deus o Pai não julga ninguém mas deu todo o julgamento ao Filho (cf. João 5:22). O Filho nos ensina, Não julgueis, para que não sejais julgados (Mat. 7:1); Não condeneis, para que não sejais condenados (Lucas 6:37). São Paulo similarmente diz, Não julgueis nada antes do tempo, até que o Senhor venha (I Cor. 4:5); e Em julgando outro tu condenas a ti mesmo (Rom. 2:1). Mas os homens desistiram de chorar por seus próprios pecados e tiraram o julgamento do Filho. Eles mesmos julgam e condenam uns aos outros como se eles fossem sem pecado. O céu ficou espantado com isto (Jer. 2:12. LXX) e a terra estremeceu, mas os homens em sua obstinação não têm vergonha.

55. Aquele que se ocupa com os pecados de outros, ou julga seu irmão por suspeita, ainda não começou a se arrepender ou a se examinar para descobrir seus próprios pecados, que são de verdade mais pesados que um grande pedaço de chumbo; nem ele sabe por que um homem se torna pesado de coração quando ele ama a vaidade e persegue a falsidade (cf. Sal. 4:1). É por isso que, como um tolo que caminha nas trevas, ele não mais atende a seus próprios pecados mas deixa sua imaginação se deter sobre os pecados de outros, se estes pecados são reais ou apenas os produtos de sua própria mente suspeitosa.

56. O amor-próprio, como foi dito frequentemente, é a causa de todos os pensamentos apaixonados. Porque dele são produzidos os três pensamentos principais de desejo; aqueles de gula, avareza e autoestima. Da gula nasce o pensamento de impudicícia; da avareza, o pensamento de ganância; da autoestima, o pensamento de orgulho. Todos os demais os pensamentos de raiva, ressentimento, rancor, desinteresse, inveja, calúnia e assim por diante são consequentes de um ou outro destes três. Estas paixões, então, amarram o intelecto a coisas materiais e o arrastam para baixo para a terra, pressionando-o como uma pedra maciça, embora por natureza ele seja mais leve e mais rápido que o fogo.

57. A origem de todas as paixões é o amor-próprio; seu coroamento é o orgulho. O amor-próprio é um amor sem mente para com o corpo. Aquele que corta este corta ao mesmo tempo todas as paixões que vêm dele.

58. Assim como os pais têm uma afeição especial pelos filhos que são o fruto de seus próprios corpos, da mesma forma o intelecto naturalmente se apega a seus próprios pensamentos. E assim como para pais apaixonadamente afeiçoados seus próprios filhos parecem os mais capazes e mais belos de todos, embora eles possam ser de fato os mais ridículos de toda forma, da mesma forma para um intelecto tolo seus próprios pensamentos parecem os mais inteligentes de todos, embora eles possam ser inteiramente degradados. O homem sábio não encara seus próprios pensamentos desta forma. É precisamente quando ele se sente convencido que eles são verdadeiros e bons que ele mais desconfia de seu próprio julgamento. Ele faz outros homens sábios os juízes de seus pensamentos e argumentos para que ele não corra, ou possa ter corrido, em vão (cf. Gál. 2:2) e deles recebe segurança.

59. Quando tu superas uma das paixões mais grosseiras, tal como a gula, a impudicícia, a raiva ou a ganância, o pensamento de autoestima te assalta de uma vez. Se tu derrotas este pensamento, o pensamento de orgulho o sucede.

60. Todas as paixões grosseiras que dominam a alma a tiram dela o pensamento de autoestima. Mas quando todas estas paixões foram derrotadas, elas deixam a autoestima livre para tomar o controle.

61. A autoestima, se ela é erradicada ou se ela permanece, procria o orgulho. Quando ela é erradicada, ela gera a presunção; quando ela permanece, ela produz a ostentação.

62. A autoestima é erradicada pela prática escondida das virtudes, o orgulho, por atribuir nossas realizações a Deus.

63. Aquele a quem foi concedido conhecimento de Deus, e que desfruta plenamente do prazer que vem dele, despreza todos os prazeres produzidos pela potência desejante da alma.

64. Aquele que deseja coisas terrenas deseja ou comida, ou coisas que satisfazem seu apetite sexual, ou fama humana, ou riqueza, ou alguma outra coisa consequente a estas. A menos que o intelecto encontre algo mais nobre para o qual ele possa transferir seu desejo, ele não será persuadido a escarnecer destas coisas completamente. O conhecimento de Deus e de coisas divinas é incomparavelmente mais nobre do que estas coisas terrenas.

65. Aqueles que escarnecem de prazeres sensuais o fazem ou por medo, ou por esperança, ou por conhecimento e amor para com Deus.

66. O conhecimento sem paixão de coisas divinas não persuade o intelecto a escarnecer de coisas materiais completamente; ele é como o pensamento sem paixão de uma coisa sensível. É portanto possível de encontrar muitos homens que têm muito conhecimento e no entanto se chafurdam nas paixões da carne como porcos na lama. Por meio de sua diligência eles se limpam temporariamente e alcançam conhecimento, mas depois eles se tornam negligentes. Nisto eles se assemelham a Saul: pois a Saul foi concedido o reino, mas ele se conduziu indignamente e foi expulso com terrível ira (cf. I Sam. 10-15).

67. Assim como o pensamento sem paixão de coisas humanas não compele o intelecto a escarnecer de coisas divinas, da mesma forma o conhecimento sem paixão de coisas divinas não o persuade plenamente a escarnecer de coisas humanas. Porque neste mundo a verdade existe em sombras e conjecturas. É por isso que há necessidade para a paixão bem-aventurada do amor santo, que liga o intelecto à contemplação espiritual e o persuade a preferir o que é imaterial ao que é material, e o que é inteligível e divino ao que é apreendido pelos sentidos.

68. Se um homem cortou as paixões e assim libertou seus pensamentos de paixão, isso não significa necessariamente que seus pensamentos já estão orientados para o divino. Pode ser que ele não sinta nenhuma atração apaixonada tanto para coisas humanas quanto para divinas. Isto acontece no caso daqueles que vivem simplesmente a vida de prática ascética sem ainda ter sido concedido conhecimento espiritual. Tais homens mantêm as paixões à distância ou por medo do castigo ou por esperança do reino.

69. Nós caminhamos pela fé, não pela vista (II Cor. 5:7) e nós ganhamos conhecimento espiritual por meio de símbolos, indistintamente como em um espelho (cf. I Cor. 13:12). Assim nós devemos devotar muito tempo a este tipo de conhecimento, para que por longo estudo e aplicação constante nós possamos alcançar um estado persistente de contemplação.

70. Se nós cortamos as causas das paixões por apenas um curto tempo, e nos ocupamos com a contemplação espiritual sem a tornar nossa única e constante preocupação, nós facilmente revertemos para as paixões da carne, ganhando nada de nosso trabalho a não ser conhecimento teórico unido com presunção. O resultado é um escurecimento gradual deste conhecimento mesmo e um giro completo do intelecto para com coisas materiais.

71. A paixão do amor, quando repreensível, ocupa o intelecto com coisas materiais, mas quando direcionada corretamente o une com o divino. Porque o intelecto tende a desenvolver suas potências entre aquelas coisas para as quais ele devota sua atenção; e onde ele desenvolve suas potências, lá ele direcionará seu desejo e amor. Ele os direcionará, quer dizer, ou para o que é divino, inteligível e próprio à sua natureza, ou para as paixões e coisas da carne.

72. Deus criou tanto os mundos invisíveis quanto os visíveis, e assim Ele obviamente também fez tanto a alma quanto o corpo. Se o mundo visível é tão belo, como deve ser o mundo invisível? E se o mundo invisível é superior ao mundo visível, quão superior a ambos é Deus seu Criador? Se, então, o Criador de tudo o que é belo é superior a toda Sua criação, com base em que o intelecto abandona o que é superior a tudo e se absorve no que é o pior de tudo, eu me refiro às paixões da carne? Claramente isto acontece porque o intelecto viveu com estas paixões e se acostumou com elas desde o nascimento, enquanto que ele ainda não teve experiência perfeita Daquele que é superior a tudo e para lá de todas as coisas. Assim, se nós desmamamos gradualmente o intelecto desta relação por longa prática de controlar nossa indulgência no prazer e por meditação persistente sobre realidades divinas, o intelecto se devotará gradualmente mais e mais a estas realidades, reconhecerá sua própria dignidade, e finalmente transferirá todo seu desejo para o divino.

73. Aquele que fala sem paixão dos pecados de seu irmão o faz ou para o corrigir ou para beneficiar um outro. Se ele fala por qualquer outra razão, ou para o próprio irmão ou para uma outra pessoa, ele fala para o abusar ou ridicularizar. Neste caso ele não escapará de ser abandonado por Deus. Pelo contrário, ele cairá no mesmo pecado ou em outros pecados e, censurado e reprovado por outros homens, será posto à vergonha.

74. Não é sempre pela mesma razão que os pecadores cometem o mesmo pecado. As razões variam. Por exemplo, é uma coisa pecar por força do hábito e outra pecar por ser levado por um impulso súbito. No último caso o homem não escolheu deliberadamente o pecado nem antes de o cometer, nem depois; pelo contrário, ele está profundamente angustiado que o pecado tenha acontecido. É bem diferente com o homem que peca por força do hábito. Anteriormente ao ato mesmo ele já estava pecando em pensamento, e depois dele ele ainda está no mesmo estado de mente.

75. Aquele que cultiva as virtudes por causa da autoestima também busca conhecimento espiritual pela mesma razão. Tal homem claramente não faz nada nem discute nada para a edificação de outros. Pelo contrário, ele sempre busca o louvor daqueles que o veem ou o ouvem. Sua paixão é trazida à luz quando algumas destas pessoas censuram suas ações ou palavras. Isto o angustia grandemente, não porque ele falhou em os edificar, porque este não era seu propósito, mas porque ele foi humilhado.

76. A presença da paixão da avareza se revela quando uma pessoa desfruta de receber mas se ressente de ter que dar. Tal pessoa não é apta a cumprir o ofício de tesoureiro ou ecônomo.

77. Um homem suporta o sofrimento ou pelo amor de Deus, ou por esperança de recompensa, ou por medo do castigo, ou por medo de homens, ou por causa de sua natureza, ou por prazer, ou por ganho, ou por autoestima, ou por necessidade.

78. É uma coisa ser libertado de pensamentos pecaminosos e outra ser livre de paixões. Frequentemente um homem é libertado de tais pensamentos quando as coisas que incitam suas paixões não estão presentes. Mas as paixões ficam escondidas na alma e são trazidas à luz quando as próprias coisas estão presentes. Daí que se deve vigiar sobre o intelecto na presença de coisas e se deve discernir por qual delas ele manifesta uma paixão.

79. Um amigo verdadeiro é um que em tempos de provação calma e imperturbavelmente sofre com seu vizinho as aflições, privações e desastres que se seguem como se eles fossem seus próprios.

80. Não trates tua consciência com desprezo, porque ela sempre te aconselha a fazer o que é o melhor. Ela põe diante de ti a vontade de Deus e dos anjos; ela te liberta das contaminações secretas do coração; e quando tu partes desta vida ela te concede o dom da intimidade com Deus.

81. Se queres ser uma pessoa de entendimento e moderação, e não ser um escravo da paixão da presunção, continuamente busca entre coisas criadas o que está escondido de teu conhecimento. Quando tu encontras que há vastos números de coisas diferentes que escapam a tua percepção, tu te admirarás de tua ignorância e rebaixarás tua presunção. E quando tu vieste a te conhecer, tu entenderás muitas coisas grandes e maravilhosas; porque pensar que se conhece impede de avançar no conhecimento.

82. A pessoa que verdadeiramente quer ser curada é aquela que não recusa o tratamento. Este tratamento consiste da dor e da angústia trazidas por várias infortúnios. Aquele que as recusa não percebe o que elas realizam neste mundo ou o que ele ganhará delas quando ele partir desta vida.

83. A autoestima e a avareza se produzem uma à outra. Aqueles que estão cheios de autoestima adquirem riquezas e aqueles que são ricos se tornam cheios de autoestima. É o que acontece com pessoas que vivem no mundo. No caso de um monge, se ele renunciou a posses, ele se torna ainda mais cheio de autoestima; mas se ele tem dinheiro ele se envergonha e o esconde como algo indigno de um que veste o hábito.

84. A marca da autoestima monástica é a de estar inflado sobre a virtude de alguém e suas consequências. A marca do orgulho monástico é a de estar convencido sobre as próprias realizações, a de atribuir estas realizações a eu mesmo e não a Deus, e a de manter outros em desprezo. A marca da autoestima e orgulho mundanos é a de estar inflado e convencido sobre a beleza, riqueza, poder e julgamento moral de alguém.

85. As realizações do homem mundano constituem as falhas do monge, e as realizações do monge constituem as falhas do homem mundano. Por exemplo, as realizações do homem mundano são a riqueza, a fama, o poder, o luxo, o conforto, os filhos e o que é consequente a todas estas coisas. Mas o monge é destruído se ele obtém alguma delas. Suas realizações são a total libertação de posses, a rejeição da estima e do poder, o autocontrole, a dureza, e tudo o que é consequente a elas. Se um amante do mundo obtém estas contra sua vontade, ele o considera uma grande calamidade e está frequentemente em perigo até de se matar; algumas pessoas de fato fizeram isto.

86. A comida foi criada para nutrição e cura. Aqueles que comem comida para propósitos outros do que estes dois são, portanto, a serem condenados como autoindulgentes, porque eles usam mal as dádivas que Deus nos deu para nosso uso. Em todas as coisas o mau uso é um pecado.

87. A humildade consiste em oração constante combinada com lágrimas e sofrimento. Porque este chamado incessante sobre Deus para ajuda nos impede de tola e confiantemente crescer em nossa própria força e sabedoria, e de nos colocar acima de outros. Estas são doenças perigosas da paixão do orgulho.

88. É uma coisa combater contra um pensamento sem paixão para que ele não estimule uma paixão; é outra combater contra um pensamento apaixonado para que não haja assentimento a ele. Ambas estas duas formas de contra-ataque impedem os próprios pensamentos de persistir.

89. O ressentimento está ligado com o rancor. Quando o intelecto forma a imagem do rosto de um irmão com um sentimento de ressentimento, é claro que ele abriga rancor contra ele. O caminho do rancoroso leva à morte (Prov. 12:28. LXX), porque quem quer que abrigue rancor é um transgressor (Prov. 21:24. LXX).

90. Se tu abrigas rancor contra qualquer um, ora por ele e tu impedirás a paixão de ser incitada; porque por meio da oração tu separarás teu ressentimento do pensamento do erro que ele te fez. Quando tu te tornas amoroso e compassivo para com ele, tu apagarás a paixão completamente de tua alma. Se alguém te encara com rancor, sê agradável para com ele, sê humilde e agradável em sua companhia, e tu o libertarás de sua paixão.

91. Tu acharás difícil de refrear o ressentimento de uma pessoa invejosa, porque o que ele inveja em ti ele considera sua própria infortúnio. Tu não podes refrear sua inveja exceto por esconder dele a coisa que incita sua paixão. Se esta coisa beneficia muitos mas o enche de ressentimento, que lado tu tomarás? Tu tens que ajudar a maioria mas sem, tanto quanto possível, o desconsiderar, e sem ser seduzido pela astúcia da própria paixão, porque tu estás defendendo não a paixão mas o sofredor. Tu deves em humildade o considerar superior a eu mesmo, e sempre, em toda parte e em todo assunto colocar seu interesse acima de teus. Quanto à tua própria inveja, tu serás capaz de a refrear se tu te regozijas com o homem a quem tu invejas sempre que ele se regozija, e ficas de luto sempre que ele fica de luto, assim cumprindo as palavras de São Paulo, Regozijai-vos com aqueles que se regozijam, e chorai com aqueles que choram (Rom. 12:15).

92. Nosso intelecto reside entre anjo e demônio, cada um dos quais trabalha para seus próprios fins, um encorajando a virtude e o outro o vício. O intelecto tem tanto a autoridade quanto o poder de seguir ou resistir a qual um que ele desejar.

93. As potências angélicas nos incitam para o que é santo. Nossos instintos naturais e nossa probidade de intenção nos assistem. Mas as paixões e a pecaminosidade de intenção reforçam as provocações dos demônios.

94. Quando o intelecto é puro, às vezes Deus Ele mesmo se aproxima e o ensina; e às vezes as potências angélicas, ou a natureza das coisas criadas que ele contempla, lhe sugerem coisas santas.

95. Um intelecto a quem foi concedido conhecimento espiritual deve manter suas imagens conceituais livres de paixão, sua contemplação inabalável, e seu estado de oração sem problema. Mas ele não pode sempre guardar estes de intrusões da carne, porque ele é escurecido pelas táticas de demônios.

96. As coisas que nos angustiam não são sempre as mesmas que nos fazem zangar, as coisas que nos angustiam sendo muito mais numerosas do que aquelas que nos fazem zangar. Por exemplo, o fato que algo foi quebrado, ou perdido, ou que uma certa pessoa morreu, pode apenas nos angustiar. Mas outras coisas podem tanto nos angustiar quanto nos fazer zangar, se nós temos falta do espírito da filosofia divina.

97. Quando o intelecto dá atenção a imagens conceituais de objetos físicos, ele é assimilado à configuração de cada imagem. Se ele contempla estes objetos espiritualmente, ele é transformado de várias formas de acordo com qual deles ele contempla. Mas uma vez ele está estabelecido em Deus, ele perde forma e configuração de todo, porque por contemplar Aquele que é simples ele se torna simples ele mesmo e inteiramente cheio com brilho espiritual.

98. Uma alma é perfeita se seu aspecto passível está totalmente orientado para Deus.

99. Um intelecto perfeito é um que por fé verdadeira e de uma forma para lá de todo não-conhecimento suprema e conhece o supremamente Incognoscível; e que, em examinando a inteireza da criação de Deus, recebeu de Deus um conhecimento que tudo abrange da providência e do julgamento que a governa na medida, claro, em que tudo isto é possível ao homem.

100. O tempo tem três divisões. A fé é coextensiva com todas as três, a esperança com uma, e o amor com as duas remanescentes. Além disso, a fé e a esperança durarão até um certo ponto; mas o amor, unido para lá de união com Aquele que é mais que infinito, permanecerá para toda a eternidade, sempre aumentando para lá de toda medida. É por isso que o maior deles é o amor (I Cor. 13:13).