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id da página: 5163 Nascimento

Nascimento

APARECER — NASCIMENTO


VIDE: SEGUNDO NASCIMENTO; TERCEIRO NASCIMENTO

EVANGELHO DE JESUS: NATIVIDADE; NASCER DO ALTO; PÁSCOA

CRISTOLOGIA: NASCIMENTO AO ESPÍRITO; NASCIMENTO ETERNO; NASCIMENTO DE MACRINA


PERENIALISTAS: NATIVIDADE


MITOLOGIA: NASCIMENTO DO PANTEÃO GREGO; NASCIMENTO DE HÉRCULES


FILOSOFIA
Michel Henry: EU SOU A VERDADE
Que o processo de auto-revelação da Vida engendra nele o Primeiro Vivente enquanto o Arque-Filho, eis que nos põe em presença do conceito de Arque-nascimento. Trata-se de um nascimento que não se produz no interior de uma vida preexistente, mas que pertence a título de elemento co-constituinte ao surgimento desta vida ela mesma, ao processo, digamos, de sua auto-geração. A geração do Arque-Filho no processo de auto-geração da Vida absoluta, é aí o que se designa seu Arque-nascimento — um nascimento contemporâneo do surgimento da vida ela mesma, implicado nela, uno com ela. A este Arque-Filho, a seu Arque-nascimento e, da mesma forma, ao processo de auto-geração da Vida absoluta damos além disso o qualificativo de “transcendental”, e isso a fim de os dissociar definitivamente de todo processo natural ou mundano. A razão positiva desta qualificação no entanto aparecerá mais tarde. O conceito de Arque-nascimento transcendental não convém senão ao Arque-Filho e não se aplica rigorosamente senão a ele. Seu poder de inteligibilidade brota no entanto bem além de sua esfera inicial de pertinência. Do conceito de Arque-Filho e daquele de seu Arque-nascimento, o conceito de nascimento recebe uma significação imprevista e no entanto a única verídica — significação que vem subverter o conceito ordinário de nascimento a ponto de rejeitá-lo na insignificância.

Nascer, segundo a acepção ordinária do termo, quer dizer: vir a ser, entrar na existência. Assim como morrer quer dizer dela sair, entrar no nada. Mas como o ser remete sempre a um aparecer que o funda em realidade, posto que só o que se mostra a nós existe para nós — como, para o dizer filosoficamente, a ontologia remete sempre a uma fenomenologia prévia, consciente ou não — a proposição “vir a ser” deve ser transcrita fenomenologicamente. “Vir a ser” se escreve então: vir a aparecer, quer dizer, segundo o pensamento ocidental, se mostrar na verdade do mundo: “vir ao mundo”. Vir ao mundo, não é aí, para todos e para cada um, filósofo ou não, o que significa nascer?

E é aqui que o cristianismo entra em ruptura total com todas as representações e concepções ordinárias do nascimento: no mundo segundo ele nenhum nascimento é possível. Muitas coisas vêm ao mundo, quer dizer aparecem nele, neste horizonte de luz que é o mundo ele mesmo, na sua verdade. Elas aparecem e desaparecem sem que esta aparição constitua de nenhuma maneira um nascimento nem esta desaparição uma morte, senão de maneira metafórica. Pedras estavam aí sobre o caminho e depois se as retirou. Uma casa foi construída e agora nada mais é que ruínas. Uma estrela apareceu no firmamento que não se tinha visto anteriormente, outras desapareceram. De nenhuma destas coisas, mesmo quando fizeram sua aparição no mundo, dizemos que nasceu. A vinda ao mundo enquanto tal não pode portanto indicar um nascimento. Não precisa somente dizer que muitas coisas vêm ao mundo que não nascem no entanto mas, mais radicalmente, que a vinda ao mundo interdita de antemão todo nascimento concebível se é verdade que fora do “fora de si” do mundo o constringir da vida consigo mesmo será quebrado antes de se produzir — se a Verdade da Vida é irredutível àquela do mundo (verdade do mundo). Não é preciso dizer que tudo o que vem ao mundo aí morrerá, mas mais ainda que tudo o que se mostra de tal espécie é estranho ao viver da vida. Vir por bem no mundo para um vivente qualquer que seja e não ser nada mais que o que aí se exibe desta maneira, é aí se propôr como um cadáver. Pois um cadáver nada mais é que isso: um corpo reduzido a sua exterioridade pura. Quando não seremos mais que alguma coisa do mundo, alguma coisa no mundo, é isso com efeito que seremos, antes de aí ser enterrado ou incinerado.

Nascer, não é vir ao mundo. Nascer, é vir na vida. É esta proposição que se trata agora de entender em toda clareza pois ela comporta pelo menos duas acepções das quais a mais imediatamente apreensível não é a mais essencial. Vir na vida quer dizer, certamente, vir à vida, entrar nela, aceder a esta condição extraordinária e misteriosa de ser doravante um vivente. Este caráter misterioso se atém ao estatuto fenomenológico da vida que nós não fizemos ainda senão aflorar, de modo que uma elucidação mais radical deste estatuto será uma das tarefas de uma fenomenologia do nascimento, a qual não é possível senão no interior de uma fenomenologia da vida. Mas é a segunda acepção da proposição “vir à vida” que deve nos reter no momento. Vir na vida quer dizer aqui que é na vida e a partir dela somente que esta vinda é suscetível de se produzir. Vir na vida quer dizer vir da vida, a partir dela, de tal sorte que a vida não é, por assim exprimir, o ponto de chegada mas o ponto de partida do nascimento. Trata-se então, em se pondo de pronto na vida como na pressuposição original a partir da qual somente algo como um nascimento é possível, de compreender, a partir da vida portanto, como este nascimento se produz. Em outros termos, como a vida engendra nela e a partir dela o vivente. Ora é precisamente a esta questão decisiva que vem responder a teoria da geração do Primeiro Vivente na auto-geração da vida fenomenológica absoluta (PRIMEIRO VIVENTE). O que estabeleceu em toda clareza, é isso: a Vida absoluta se experiencia ela mesma em uma Ipseidade efetiva que é, como tal, um Si ele mesmo efetivo e, como tal, singular. É desta maneira que o auto-engendramento do Pai implica nela o engendramento do Filho e não faz senão um com ele. Ou ainda: o engendramento do Filho consiste no auto-engendramento do Pai e não faz senão um com ele. Nenhuma Vida sem um Vivente. Nenhum Vivente sem a Vida. Não é preciso dizer: em se engendrando ela mesma a Vida gera o Vivente. Pois, porque este vivente seria este e não aquele? E porque não haveria disto senão um, e não muitos ou uma multidão? Deve-se dizer: ''a Vida se engendra ela mesma como este Vivente que é ela é ela mesma em seu auto-engendramento. E eis porque este Vivente-aí é o Único e o Primeiro — “Aquele”, como diz João.