humilhados do sopro: Os "pobres de espírito" dão bastante trabalho aos exegetas. A descoberta dos manuscritos do Mar Morto abriu um novo período na exegese filológica do Novo Testamento, permitindo compreender melhor expressões gregas muitas vezes enigmáticas, como aqui.
Assim, os "pobres de espírito" são os 'anieh rouah, os "humilhados do sopro" dos Manuscritos do deserto da Judeia (Regra da Guerra, 1 QM XIV, 7). "Humilhados" traduz exatamente o termo hebraico 'ani', próximo de 'anav ("humilhação, humildade"), aqueles que na consciência pacificada de sua miséria e de seu nada herdam a mais eminente das graças divinas, o sopro sagrado (em termos tradicionais, o Espírito Santo), o sopro presente na pessoa, na casa ou no templo em que mora YHWH. Estes humildes e estes humilhados são as vítimas designadas dos impérios deste mundo — na época, o império romano. À margem da sociedade reinante, eles são vocacionados para herdar o sopro sagrado, o que faz deles membros da comunhão escatológica anunciadora e obreira, do 'olâm ha-ba, do "mundo vindouro". Esta comunidade avança pela estrada da felicidade ou da infelicidade, a ideia essencial é de uma marcha avante, e não de uma felicidade adquirida antecipadamente.
Iéshoua não tem a crueldade de declarar "felizes" a multidão de deserdados, de opositores condenados pelas legiões romanas, por qualquer coisa que digam, ao suplício da cruz ou, na melhor das hipóteses, à escravidão nas galés ou nos bordéis do império. Não se chamam de "felizes" os homens enviados às torturas, aos massacres ou aos genocídios deste mundo. Iéshoua, a exemplo do salmista, convida esses homens a se porem "em marcha" na direção do reino de YHWH, do qual ele lhes traz a esperança e lhes abre a porta, introduzindo em seus corações a exigência e a dinâmica da salvação universal. Sim, porque falar de "bem-aventurança" ou de "felicidade" na hora da partida equivale a se condenar à inação, a nunca se pôr a caminho do objetivo desejado — o reino de YHWH — o único lugar de toda a felicidade e de todas as bem-aventuranças do homem vivo e de pé, marchando na retidão do coração dedicado a YHWH, à espera do reino de YHWH. (Lc 6,20).
Ao dar seu pleno sentido espiritual, político e social à expressão "humilhados do sopro", a única via de salvação, nós reencontramos aqui os termos clássicos do segundo Isaías (61,1-20 e 66,2). Iéshoua identifica os humilhados que herdarão a terra (Sl 37,11) com a comunhão escatológica unida na esperança do reino. Por essas simples palavras, Iéshoua se designa como o enviado anunciado por Isaías, aquele que incita os discípulos à marcha em direção ao reino de YHWH (Is 52,7; 61,1-2).