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id da página: 13338 Padoux – VAC – Significado e Poderes da Palavra André Padoux

Padoux VAC Significado Poder

André Padoux – VAC, Conceito de Palavra nos Tantras

PADOUX, André. Vāc: the concept of the word in selected Hindu Tantras. Jaques Gontier. Albany: State University of New York Press, 1990.

Especulações Antigas sobre o Significado e os Poderes da Palavra
  • A Primazia da Palavra na Tradição Indiana
    A Índia figura como o país que melhor exemplifica uma tradição atemporal e ininterrupta de especulações sobre a Palavra, onde mitos cosmogônicos e reflexões sobre a natureza da linguagem conferiram à gramática o estatuto de um dos darsanas ou visões de mundo que conduzem à salvação, preservando uma revelação primordial que encarna a Verdade sob a forma de mantras prenhes de enigmas e correlações.

  • Abordagem Estrutural e Teologia Linguística
    Ainda que um levantamento estritamente histórico seja dificultado pela inclinação dos autores indianos em expor seus sistemas sub specie aeternitatis, é possível distinguir uma vertente puramente bramânica, focada na exegese do Veda e na eternidade do sabda, de uma outra vertente onde a Palavra opera como uma energia criativa e eficiente, uma distinção heuristicamente útil para compreender o vasto corpo de especulações que evoluiu para uma verdadeira teologia linguística.

  • Conexões Filosóficas e Autores Fundamentais
    Dentro da corrente que desenvolveu uma epistemologia e metafísica da linguagem, destaca-se a figura de Bhartrhari, cuja obra sobre frases e palavras foi fundamental e amplamente citada por autores do sistema Trika, notadamente Abhinavagupta, o qual, embora mantendo elementos da Mimamsa em sua abordagem linguístico-filosófica, integrou tais conceitos à visão mítica e ritualística dos Tantras.

  • Raízes Védicas e a Identificação com o Brahman
    Desde o Rig Veda, a Palavra ou Vac é referida como um princípio primordial e uma força criativa, sendo que o termo brahman designava originalmente a fórmula ritual e a Palavra suprema antes de passar a referir-se à Realidade absoluta, estabelecendo-se desde cedo uma correlação onde o brahman é uma forma de pensamento críptico que institui identificações explicativas essenciais à metafísica indiana.

  • Vac como Potência Criadora e Deusa Suprema
    Nos hinos védicos, Vac é glorificada como uma potência suprema que sustenta divindades como Mitra, Varuna, Indra e Agni, permeando o céu e a terra e concedendo poder e sabedoria àqueles que ela ama, sendo descrita como uma rainha harmoniosa que, embora por vezes criada pelos deuses, é aquela através da qual a própria divindade criadora manifesta as formas do mundo.

  • A Metáfora da Vaca Cósmica e a Noção de Viraj
    Textos como o Atharva Veda e os Brahmanas identificam Vac com Viraj, a vaca cósmica que representa um princípio ativo, luminoso e nutritivo, prefigurando a noção de energia feminina ou sakti, embora este termo ainda não possuísse a carga técnica que viria a adquirir posteriormente, servindo também para associar a Palavra à deusa Sarasvati em sua função maternal e protetora dos rituais.

  • A Palavra como Consorte e Agente de Criação
    A Palavra é frequentemente concebida como a consorte de um deus, especificamente Prajapati, com o qual ela se une para dar origem às criaturas, ou atua como o instrumento através do qual o criador nomeia e traz à existência os mundos, sugerindo uma relação complexa onde a Palavra é simultaneamente distinta e não distinta da divindade suprema, operando como a sua grandeza ou mahima.

  • O Conceito de Aksara e a Sílaba Imperecível
    O termo aksara refere-se àquilo que não perece e à sílaba como elemento irredutível e medida da fala, sendo identificado desde o Rig Veda com a Palavra de mil sílabas no espaço supremo e com a vaca que nutre o universo, constituindo o fundamento imperecível da ordem cósmica e ritual ou rta a partir do qual as vozes e os metros védicos são construídos.

  • A Supremacia do OM e a Síntese do Universo
    A sílaba OM, ou pranava, ascendeu de uma interjeição ritual para ser considerada a sílaba por excelência e a expressão fônica do brahman, contendo em si a essência dos três Vedas e dos três mundos, funcionando como o elemento unificador que mantém a coesão do universo da mesma forma que um espigão une as folhas, transcendendo qualquer extensão espacial ou temporal.

  • Análise Fonética e Simbolismo do OM
    As especulações sobre o OM envolvem a sua decomposição em três moras ou fonemas (A, U, M) correlacionados com tríades cósmicas e estados de consciência, culminando na concepção de um quarto estado ou turiya que corresponde ao silêncio e à transcendência, antecipando as elaborações tântricas sobre os constituintes sonoros e a natureza ilimitada do ponto ou bindu.

  • A Quádrupla Divisão da Palavra
    O Rig Veda estabelece que a Palavra é medida em quatro quartos, dos quais apenas o quarto manifesto é falado pelos seres humanos, enquanto os três restantes permanecem ocultos e imóveis, uma estrutura que fundamenta as correspondências entre o macrocosmo e o microcosmo e valida as posteriores teorias sobre os estágios da emanação da Palavra desde o inefável até o expresso.

  • Identidade entre Prana, Sopro Vital e Palavra
    Existe uma indissociabilidade ancestral entre a Palavra e o prana, entendido não apenas como respiração mas como vento vital e energia cósmica, onde o ato de recitar mantras envolve a fusão da fala com o sopro, uma prática ritualística que interioriza o sacrifício e prefigura a união da energia sonora com a energia vital observada no Tantrismo.

  • Elementos Proto-Tântricos na Maitri Upanishad
    A Maitri Upanishad descreve um processo fisiológico e místico onde a energia ígnea corporal, agitada pelo pensamento e pelo vento, ascende do coração através da garganta até a língua para produzir o som, uma descrição que possui paralelos notáveis com a ascensão da kundalini e a manifestação das matrikas ou mães dos fonemas conforme detalhado em textos tântricos posteriores como o Tantrasadbhava citado por Ksemaraja.