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Perenialistas

Notas em suas obras

Clemente e Misericordioso

Allah é Er-Rahman ("o Clemente") em Si mesmo e em relação à Criação total, e Er-Rahim ("O Misericordioso") em relação às criaturas; diz-se também que Allah era Er-Rahman "antes" da Criação (isto é, além desta, em Si mesmo, no sentido do termo sânscrito ananda), e que Ele é Er-Rahim "desde" a Criação (isto é: no interior desta e "fora de Si mesmo"); a primeira destas Qualidades é intrínseca e a segunda extrínseca. (FSOC)

Correspondências temporais

[...] um ano dos mortais corresponde a um dia de uma certa ordem de deuses, e um ano destes a um dia de uma hierarquia superior (cfr. Salmos, 89, 4: «Mil anos são como um dia aos olhos do Senhor») até se chegar aos dias e às noites de Brahman, que exprimem o curso cíclico da manifestação cósmica (cfr. Mânavadharmaçâstra, I, 64-74). Diz-se no mesmo texto (I, 80) que estes ciclos se repetem como um jogo — lílâ — o que é uma maneira de exprimir a irrelevância e a anti-historicidade da repetição com respeito ao elemento imutável e eterno que aí se manifesta e que permanece sempre igual a si próprio. Depois do que dissemos anteriormente, tem de se considerar como igualmente significativas as designações do ano como «corpo do sol» e do «cavalo sacrifical» (Bthâdaranyaka-upanishad, I, i, I, 8) ou como «testemunha fiel» do «Senhor Vivo, Rei da eternidade» (Sepher Yetsirah, VI). (Revolta contra o Mundo Moderno)

Prova de Fogo

Assim, a propósito da prova do fogo, refere-se por exemplo que pelo ano de 506, sob o imperador Atanásio, um bispo católico no Oriente propôs a um bispo ariano que por esse meio «se provasse qual das duas fés seria a verdadeira. Tendo-se o ariano recusado a fazê-lo, o ortodoxo, entrado no fogo, saiu dele ileso». Este poder, de resto — segundo o que refere PLÍNIO (VII, 2) — já era próprio dos sacerdotes de Apolo do Sorate: super ambustam ligni struem ambulantes, non aduri tradebantur. Encontra-se também a mesma ideia num plano superior: segundo a antiga ideia irânica, no «fim do mundo» libertar-se-á uma corrente de fogo que todos os homens terão de atravessar: os «justos» distinguir-se-ão pelo facto de não sofrerem qualquer lesão, enquanto os maus serão devorados por ela (Bundahesh, XXX, 18). (Revolta contra o Mundo Moderno)

Guerra

Entre os povos selvagens subsistem com frequência vestígios característicos destes pontos de vista que, considerados no seu justo lugar e no seu justo sentido, não se podem reduzir a «superstições». Para eles a guerra, em última análise, é uma guerra de magos contra magos: a vitória cabe ao que tiver a «medicina de guerra» mais poderosa, sendo todos os outros factores aparentes, incluindo a própria coragem dos guerreiros, que não passa de uma sua consequência (cfr. LÉVI-BRUHL, Ment. primit., cit., pp. 373-378). (Revolta contra o Mundo Moderno)

Mortos em combate

Um enigmático testemunho do Alcorão (II, 154, cfr. III, 157-158) afirma precisamente: «Não chameis mortos aos que foram assassinados na via de Deus; não, pelo contrário estão vivos, mesmo que vós não o saibais». De resto, corresponde-lhe o ensinamento de PLATÃO (Rep., 468 e), de que certos mortos em combate vão fazer corpo com a «raça de ouro» que, segundo HESÍODO, nunca morre, mas sim subsiste e vigia, invisível. (Revolta contra o Mundo Moderno)

Valquírias

A concepção nórdica de que são as valquírias que fazem vencer as batalhas — ratha sigri (cfr. GRIMM, Deutsche Myth., I, p. 349) — exprime a ideia de que são precisamente esses poderes que decidem a luta, e não as forças humanas no sentido restrito e individualista do termo. A ideia da manifestação de uma potência transcendente — como por vezes a voz do deus Faunus ouvida repentinamente no momento da batalha e capaz de encher o inimigo de um terror pânico — encontra-se com frequência na romanidade (cfr. PRELLER, Rôm. Myth., p. 337). E também se encontra a ideia de que por vezes será necessário o sacrifício de um chefe para realizar inteiramente essa potência, segundo o significado geral das mortes rituais (cfr. Introduz, alia magia, v. m, pp. 246 e segs.): é o rito da devotio, o holocausto de um chefe com vista a desencadear as forças inferiores e o génio do susto contra o inimigo: e também aqui, quando ele sucumbe (por exemplo no caso do cônsul Décio), se manifesta o horror pânico correspondente ao poder libertado para fora do corpo (cfr. PRELLER, op. cit., pp. 466-467), que se deve comparar ao herfjöturr, ao terror pânico infundido magicamente ao inimigo pelas valquírias desencadeadas (cfr. GOLTHER, op. cit., p. 111). Um último eco de significados do género tinha-se mantido entre os kamikaze japoneses, utilizados durante a última guerra mundial: sabe-se que o nome destes pilotos-suicidas lançados contra o inimigo significa «o vento dos deuses», remontando, em princípio, a uma ordem de ideias análoga. Nas carlingas dos seus aviões encontrava-se escrita a legenda: «Sois deuses, sem mais nenhuma cupidez terrena». (Revolta contra o Mundo Moderno)

Psicologia das profundezas

PHILIPPE LAVASTINE. — Sim, numa página magnífica, Guénon mostra como o positivismo, o materialismo do século XIX, tendo fechado toda saída para o alto, a psicanálise, a psicologia das profundezas, abriram as comportas do mundo inferior. Depois de terem fechado toda possibilidade de ascensão, abrem-se os abismos.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Tempo

PHILIPPE LAVASTINE. — Interrogou-se frequentemente pandits na Índia sobre a questão do tempo. Parecia tão complicada. Um dia, um pandit disse: «Yuga, Yoga. É a mesma coisa». É a mesma palavra que significa «unir». Mostrou-se textos antigos onde se observa que um homem ainda não entrado no yoga vive no Kali Yuga. Assim que se começa a entrar no yoga, começa-se a sair do Kali Yuga, e percorre-se as idades de bronze, de prata e até a idade de ouro, segundo o simbolismo alquímico. É evidente que um verdadeiro Brahmane se encontra sempre no Satya Yuga. Não se diz «idade de ouro», na Índia, mas «idade do que é», ou «idade da Verdade»: Satya.

No que concerne à duração dos ciclos, trata-se de grande complicação. Entrega-se às jogadas pitagóricas de números, mas sempre na categoria do «assim se ri», na esfera da anedota, da hipérbole mitológica. Os relatos dos Purânas falam de milhares de mundos. Isso visa desconcertar e, sutilmente, banalizar a polêmica. «O que está aqui está em outro lugar, mas o que não está aqui não está em nenhum lugar». Não existe o temporal; não existe o geográfico.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Manas

R. ALLEAU. — Que sentido tem Manas: intelecto ou espírito?

PHILIPPE LAVASTINE. — Escrevo Bandha, que significa escravidão, à esquerda. Mais adiante, à direita, escrevo Moksha, que significa libertação. No meio, escrevo manas, que é o antigo termo para espírito. Encontra-se numa célebre Upanishad esta formulação: “O espírito, em verdade, é a causa do cativeiro e da libertação dos homens.” O espírito que prende o homem às coisas é um espírito impuro. Quando o espírito, que é também atman, esqueceu-se de si mesmo, é tomado pela multiplicidade das coisas, e âtman cai, corroído pelas coisas que não lhe perdoarão por ter caído.

Quando o espírito é puro, é o rei do mundo; quando o espírito é impuro, é o príncipe deste mundo. Deus é um espírito puro; Satã, um espírito impuro — eis a diferença entre Deus e Satã. Um espírito puro é aquele que não se identifica, mas que participa. E chegamos a uma questão vital: como pode haver ao mesmo tempo desapego e participação? Confundimos participação com identificação.

Diz-se com frequência: “O homem não é um espírito puro”; entende-se com isso que o homem também tem um peito que precisa respirar e um ventre que precisa de alimento. Sempre se tem a ideia de que um espírito puro deveria ter, conforme a imagem que vos tracei, a cabeça como um vaso cujo gargalo está profundamente enfiado entre os ombros. Na realidade, não carregamos nossa cabeça assim. Constantemente, há o espírito — que chamo de espírito “ciente”, segundo a etimologia de Alfred Jarry —, o qual “serra” a possibilidade de continuidade entre um pensamento, uma emoção e um ato.

Há um certo tipo de universitário “serrado” antes de ser “ciente”; e essa velha ciência universitária é o próprio cartesianismo. Em certos momentos, tenta-se virar o vaso — é a conversão — e reintroduzir o gargalo do vaso entre os ombros. Imediatamente chega um “ciente”, um sábio, um cientista. No instante em que o gargalo do vaso retoma o seu lugar normal, a ideia ressoou em ti; e era tão bela que o coração se comoveu. O coração, nas catedrais, é simbolizado pelo altar, e para significar que o altar é realmente o coração, colocavam-se ao redor da capela os arcobotantes que reproduziam as costelas do tórax. Ora, o ódio do serrador, do “ciente”, é a emoção. Supor que uma ideia possa ter um efeito — isso é intolerável!

R. ALLEAU. — Essa ciência à qual fazes alusão, dizes que ela “identifica”. Para mim, a essência da ciência atual é a lógica da identidade, e a essência da ciência tradicional é a analogia. E a ruptura de que falas ocorreu quando se passou da analogia para a identidade — mesmo no plano científico. As ciências tradicionais distinguem-se das ciências modernas precisamente porque têm, como relação fundamental, a analogia do ponto de vista lógico, enquanto as ciências modernas se baseiam na identidade. É uma tautologia.

O que dizes é perfeitamente justo; pode-se constatá-lo no plano do raciocínio. E reencontram-se os símbolos como reintrodução de uma plenitude. Isso é importante porque prova que se pode afirmar — o que é minha posição —: “Não nos privemos da identidade, contanto que integremos a analogia.” As duas lógicas são necessárias.

Estória do Mahabharata

PHILIPPE LAVASTINE. — Sade foi bastante longe na contra-iniciação. Sabe-se que ele disse: “Há apenas uma coisa que não posso perdoar ao homem: ter tido a ideia de Deus.” Essa frase, aliás, foi retomada por Blanchot, para quem o aparecimento da ideia de Deus é o pecado original.

Permiti que, para concluir, fale do mito da iniciação real na Índia, que ilustra perfeitamente o tema “iniciação / contra-iniciação”. Todos conheceis a Bhagavad Gita e a razão pela qual se desencadeia a batalha: à morte do rei Pandu, os cinco Pandava têm direito igual ao império do mundo; mas, como estão ausentes no momento da partilha, o tio atribui a propriedade do mundo a seus próprios filhos, e os Pandava ficam sem nada. Então dizem: “O império do mundo não nos interessa, somos músicos, poetas. Dai-nos apenas uma pequena propriedade.” Recusam-lha. Krishna diz: “Nenhum lugar para os poetas! É preciso fazer a guerra.”

Arjuna tem apenas uma espada humana, e como são cinco contra todos, precisar-se-ia da espada de Shiva. O próprio Krishna lhe diz: “Deves subir até o Kailasa, a grande montanha do Himalaia, e pedir a Shiva a sua espada.” Não posso narrar todas as aventuras iniciáticas que acontecem ao jovem Arjuna durante sua viagem. Quando ele acredita ter enfim chegado perto do cume — em sânscrito, a mesma palavra significa cume e origem —, um gigantesco montanhês, armado de um enorme bastão, sai da floresta e lhe diz: “Não passarás.” Com sua espada humana, Arjuna trava combate, que permanece incerto. Mas as leis cavalheirescas proíbem lutar à noite; assim, os combatentes fazem uma pausa para o sono.

No dia seguinte, a batalha recomeça, ainda incerta. No terceiro dia, desesperando de poder vencer aquele gigante, Arjuna tem a ideia de tomar uma pedra, erguê-la como um linga, o Shiva-linga, símbolo de Shiva. Em seguida, vai colher flores — flores vermelhas, há muitos rododendros no Himalaia, em certa época — e tece uma grinalda que deposita sobre o Shiva-linga. Ora por força, voltando-se para longe do gigante, que espera, segundo as regras da cavalaria. Quando enfim Arjuna se sente pacificado, cheio da própria força de Shiva, volta-se para cortar a cabeça do inimigo e, nesse momento, vê sobre a cabeça do gigante a coroa de flores que havia colocado sobre o Shiva-linga. O gigante era Shiva.

Arjuna invoca Shiva no instante em que está prestes a matar Shiva, porque se tornou ele próprio Shiva. Eis a chave mesma da Índia: somente o deus pode prestar culto aos deuses. Goethe disse: “Compreendes apenas o espírito que igualas.” Isso mostra que é preciso, às vezes, encolerizar-se como Guénon. É apenas no momento em que se vai vencer o gigante que se percebe que ele é Shiva. Se se aceita a existência do obstáculo que impede de transpor a última porta, jamais se a transporá.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Deus do mal

PHILIPPE LAVASTINE. — [...] Gostaria ainda de fazer uma pergunta à Srta. Scriabine: fizestes uma distinção interessante entre Seth e Satã. O Egito não conheceu um deus do mal?

M. SCRIABINE. — Não, absolutamente. Seth tornou-se deus do mal na época decadente, quando invasores o adoraram como deus único ou principal, isto é, quando foi separado de Hórus. Mas, enquanto Seth esteve integrado ao conjunto da religião egípcia, era um grandíssimo deus, embora brutal, blasfemo, impudico, ladrão etc. Ele encarnava todas essas forças agressivas, destrutivas, contrárias — mas integradas no equilíbrio geral, ideia, aliás, muito guenoniana — e que eram necessárias em sua negatividade. O faraó, enquanto homem perfeito, devia reunir e reconciliar em si as duas polaridades: Hórus e Seth.

P. LAVASTINE. — Recordai-vos do barco de Deir el-Bahari, com Hórus à popa e Seth à proa, que fende a serpente Apófis. Szandi, um egiptólogo holandês, estudou os infernos egípcios e mostrou a diferença entre estes e os infernos cristãos: nos infernos egípcios há demônios que atacam o morto, mas toda vez que um demônio pode ser vencido, encontra-se uma porta. Ao passo que, no inferno cristão, já não há possibilidade de abater um demônio e atravessar uma porta.

M. SCRIABINE. — Para isso existe o Purgatório.

R. ALLEAU. — Em grego, o verbo diaballein significa dispersar, lançar de um lado e de outro. Reunir o que está disperso é exatamente o contrário desse verbo “diabólico”.

P. LAVASTINE. — E não é justamente a ação universitária que dispersa? A universidade é cartesiana — e o Sr. Gouhier o demonstrou bem —, o simbolismo não pode mais existir depois de Descartes.

R. ALLEAU. — O curioso é que Descartes tenha sido um dos precursores da psicanálise.

M. SCRIABINE. — Em minha tese sobre A representação do tempo e da intemporalidade na arte figurativa, estudei as representações da eternidade e da “indefinidade” — a duração sem fim —, notadamente nas ilustrações da Divina Comédia. No Inferno, encontra-se o círculo-redemoinho, o movimento giratório sem fim, onde às vezes também há choque — um movimento sem direção, desordenado, desorientado: uma “eternidade” incoerente que dura e gira incessantemente. No Purgatório, as ilustrações se ordenam segundo um movimento linear caracterizado por uma oblíqua orientada para o alto, geralmente da direita para a esquerda; há aí todo um simbolismo que não posso desenvolver por falta de tempo. Enfim, no Paraíso, a eternidade é o círculo radiante, as rosáceas formadas pelos anjos e bem-aventurados dispostos em torno de um centro. E reencontram-se sempre essas constantes figurativas em numerosas ilustrações de Dante, de autores diferentes.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Instrumento musical

PHILIPPE LAVASTINE. — O instrumento fundamental da música hindu é a vina. Ela é descrita em uma Upanishad como sendo o próprio homem. Consequentemente, quando o tocador de vina toma o seu instrumento, ele toma a si mesmo e vai tocar sobre si mesmo.

R. ALLEAU. — Isso é perfeitamente tradicional, pois o sacerdote desempenha o mesmo papel: é aquele que deve vibrar, por assim dizer, e fazer vibrar toda a assembleia. O sacerdote que é “justo de voz” é o primeiro instrumento do serviço divino. O abandono da liturgia põe em questão o sacerdócio. É uma decisão muito grave tocar no domínio da liturgia.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Som

PHILIPPE LAVASTINE. — O som é chamado de “criança” em sânscrito; ele é assimilado a Agni. A chama não é um som, mas a mesma palavra designa ambos. Quando se diz “a criança”, não se sabe se é a “chama” ou o “som”.

Se se faz vibrar uma corda, nenhum som é ouvido; para que se possa ouvi-lo, é necessário uma caixa de ressonância. Se um Stradivarius produz um som magnífico, é porque o carvalho foi trabalhado segundo os segredos de Stradivarius. Essa caixa de ressonância é o elemento feminino; a corda vibrante é o elemento masculino.

Temos a tendência de prestar atenção apenas ao elemento masculino e de negligenciar a caixa de ressonância — e isso, ao contrário dos antigos.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Universidades

PHILIPPE LAVASTINE. — Não se poderia falar também de uma contra-iniciação universitária? Poder-se-ia dizer — embora isso não se perceba à primeira vista — que a universidade é o primeiro grau da contra-iniciação, no sentido em que São Bernardo, em seu De gradibus humilitatis et superbiae, nos diz: “Há duas escadas: a do orgulho, que conduz à perdição, e a da humildade, que conduz à salvação.” E ele faz uma análise da palavra curiositas, que é, segundo ele, o primeiro degrau da escada da perdição.

A partir do instante em que deixo de ocupar-me daquilo que me concerne, torno-me um elemento perturbador; é a perdição que começa — unicamente pela curiosidade. E um homem como Gandhi estava consternado com os estragos causados pelas universidades britânicas na Índia. Ele dizia: “Universities, schools of the dissipation of the mind.”

A iniciação tem por fim reunir, e “aquele que não reúne comigo, dissipa”. Assim, a contra-iniciação começa por todo o nosso sistema de ensino, desde que a escola foi separada da “pagode”.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Ortopraxis

PHILIPPE LAVASTINE. — Queria justamente voltar ao catolicismo. Parece-me que, para Guénon, o elemento dominante de seu pensamento era a ortodoxia doutrinal. Por isso mesmo, ele se separa completamente do Hinduísmo. O que caracteriza o Ocidente? É, por exemplo, essa grande Santa Teresa de Ávila, dizendo, escrevendo, ensinando que Deus pode perdoar tudo, exceto a heresia. Se há desvio em um ponto de dogma, Deus não pode perdoar. O Hinduísmo, como muitas outras religiões orientais, coloca no lugar da ortodoxia a ortopraxia. Já se disse isso, mas é algo capital. Isso significa que não se julgará o homem pelo que ele pensa, mas pelo que ele faz; não se lhe pergunta se sua linha doutrinal é justa, mas se sua conduta é ritual. O ato ritual é aquele que se espera dele; caso contrário, a reciprocidade é rompida. Eis aí a falta. Pela ortopraxia, deve-se poder chegar a constituir uma comunidade de amigos, onde reine a paz, onde o espírito possa abrir-se, de modo que, finalmente, o objetivo do Oriente é alcançar a liberdade de pensamento. Para um hindu, não pode existir liberdade de pensamento se se tem uma má higiene, uma má saúde mental, uma má conduta. Para que haja saúde mental, deve haver saúde moral. O professor Baruck o disse muitas vezes: em todos os seus pacientes constatou ou que haviam sido vítimas de uma injustiça, ou que eles mesmos haviam cometido uma injustiça, e sua saúde mental fora afetada por isso.

A posição da Igreja pode justificar-se na medida em que deriva do antigo direito romano, que colocava a comunidade antes do indivíduo. Infelizmente, tudo foi comprometido pela noção de ortodoxia.

G. FERRAND. — A Igreja possui a confissão dos pecados, que permite que o ato não ritual não cause dano nem ao indivíduo nem à comunidade.

P. LAVASTINE. — Mas ela não absolve o pecado de heresia. É necessário obedecer a uma doutrina enunciada ex cathedra. O caporalismo da Igreja católica foi o que me afastou dela. A primeira vez que entrei numa mesquita — ah! que abertura! — em comparação com uma certa igreja gótica, que te toma pela nuca: “De joelhos, pecador!”

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Sangha

PHILIPPE LAVASTINE. — Já que és budista, Dr. Schnetzler, tens, portanto, o triplo refúgio no Buda, no Dharma e no Sangha. Mas como podes ter um Sangha em Grenoble?

Dr. SCHNETZLER. — Mas há um Sangha na França, e também fiéis leigos; atualmente, cinco pessoas em Grenoble, depois de ter começado reduzido à unidade.

P. LAVASTINE. — Essa questão do Sangha é capital.

Dr. SCHNETZLER. — É exato: se não há vida comunitária, é-se o exilado de que falava o Sr. Alleau.

P. LAVASTINE. — Tem-se, no Ocidente, a tendência de minimizar a importância do Sangha, cuja significação, contudo, é idêntica à dos dois outros refúgios. É somente no Sangha que o Buda pode reviver, pois ele é uma “pessoa corporativa”, assim como o primeiro Adão também é uma pessoa corporativa.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Graça

Mlle HURARD. — Gostaria de perguntar ao Sr. Lavastine se existe no Hinduísmo uma noção análoga à da Gratia no Catolicismo?

PHILIPPE LAVASTINE. — Sim, tal noção existe: “Se é o atman que te chama, conheces o âtman; mas tu mesmo não podes chamar o âtman.” Os católicos estão mal informados ao afirmar que o Hinduísmo não conhece a graça. No Budismo também, a graça é conhecida sob o nome de “força estrangeira”.

Retomando o documento que R. Alleau acaba de ler, acrescentarei o seguinte: a Igreja reprova, portanto, enquanto contrária ao espírito de Cristo, toda discriminação exercida contra homens em razão de sua raça, cor, classe ou religião. Imediatamente após a palavra “discriminação”, vem o termo “vexação”: “toda discriminação ou vexação”. A meu ver, há aí um grave erro intelectual. A Índia adotou uma certa noção de igualdade que se pode traduzir por “visão igual”, “visão equânime”, como um bom médico tem uma visão igual de todos os seus doentes, quaisquer que sejam sua condição, idade ou sexo. Mas há uma segunda fórmula, que por vezes foi esquecida: é a “ação diferenciada”, isto é, levar em conta com exatidão cada indivíduo.

Por exemplo, quando falo a uma pessoa, penso: é ela de origem grega? com mentalidade grega? é de origem judaica? com mentalidade judaica? é uma mulher, uma jovem? Todas essas discriminações eram discernidas, e jamais ocorreria a ideia de que fosse vexatório fazer uma distinção entre um homem e uma mulher, entre um grego e um judeu. É absolutamente necessário que as duas atitudes — “visão igual” e “ação diferenciada” — coexistam.

Em determinado momento, na Índia — refiro-me apenas à Índia, que conheço um pouco — esqueceu-se o segundo termo, e uma espécie de “missionários” partiu para ensinar a “visão igual” (sama darshana). Na prática, isso equivalia a dizer: tudo é igual, tudo é nada, tudo é maya. Por que se dar ao trabalho de distinguir entre um grego e um judeu, se a verdade suprema, segundo esses missionários, é que nada, desde o princípio, jamais existiu?

Para retomar o relato do Sr. Barbanegra, que ilustra perfeitamente a antiga Romênia e o mundo bíblico: quando Ion quer conservar na aldeia o seu traje citadino, é morto. Do mesmo modo, no Livro dos Macabeus, o chefe sai um dia de sua casa, vê um judeu oferecendo sacrifício a um ídolo estrangeiro e o mata. Nós o absolveríamos, mas nos tempos bíblicos julgava-se que seu pecado introduzia uma falsa nota na comunidade. Assim também, jamais se compreenderá a Índia se não se reconhecer a importância da estética, no sentido pleno do termo: há falsas notas que não são toleráveis.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Exotérico e Esotérico

PHILIPPE LAVASTINE. — Em sânscrito, naturalmente, não se fala em exotérico e esotérico, mas as noções existem: Paroksha é aquilo que está além da visão imediata, é o domínio dos vínculos secretos, das correspondências que unem as coisas. Pratyaksha (aksha significa “olho”) é o que se encontra diante do olho: o exotérico é o que cai sob os olhos, o fato separado. Diz-se e repete-se: os deuses detestam o que cai sob o sentido, o que é evidente, mas amam o que está oculto. É, portanto, necessário possuir os dois olhos, mas o olho esotérico deve ter a predominância.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Esoterismo Cristão

PHILIPPE LAVASTINE. — Um dia, consultei o suplemento do Dicionário de Teologia Católica, no artigo “esoterismo”. Encontrei ali a afirmação categórica de que o ensinamento do Evangelho nega o esoterismo, com citações em apoio: “O que vos é dito ao ouvido, proclamai-o sobre os telhados”, etc. Depois, encontrei o padre Jean Daniélou — mais tarde cardeal —, a quem conheço há muito tempo, e perguntei-lhe o que pensava a esse respeito. Por toda resposta, qualificou com uma palavra bastante dura os autores do artigo. “Por que então se lhes deixa a palavra?”, perguntei-lhe. Ele respondeu: “Que fazer? Que fazer?”

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Espiritualidade aberrante

PHILIPPE LAVASTINE. — As ciências tradicionais tinham unicamente por fim o bem do homem que vive neste mundo. Tudo isso foi perdido por uma espiritualidade aberrante.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Índia decadente

PHILIPPE LAVASTINE. — Quanto à Índia, ela degenerou completamente em razão do esquecimento total das ciências tradicionais, em proveito de uma espiritualidade shankariana que nem sequer admite a existência do mundo. A Índia traiu a si mesma, e é dessa traição que provém sua miséria. Que ela se reencontre, e poderá novamente reencontrar sua prosperidade — mas não serão as ciências modernas que a ajudarão a reencontrar-se.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Ciência Analítica

PHILIPPE LAVASTINE. — O que é evidente é que, se essa ciência analítica continuar a operar fora de um certo quadro de unidade, ela não poderá senão destruir o mundo. Vamos recuar novamente. A ciência atual não é senão uma colossal ignorância!

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Famintos

PHILIPPE LAVASTINE. — Os povos que têm fome são povos famintos de modo científico, técnico. É a falência dos grandes sistemas; eles não podem senão desmoronar, como Guénon o havia previsto.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Civilização Tradicional

PHILIPPE LAVASTINE. — O que, então, deve ser ressuscitado?...

R. ALLEAU. — O que deve ser ressuscitado é uma presença a si mesmo.

B. GUILLEMAIN. — Creio que estamos cometendo uma confusão entre tradicionalismo e tradicional. O homem tradicional de que fala Guénon não está voltado para o passado: é um profeta.

P. LAVASTINE. — A expressão “voltado para o passado” não tem qualquer sentido para o homem tradicional. Em um país tradicional, a primeira frase que se ouve é esta: “Como nossos ancestrais fizeram, assim fazemos.” Isso implica que seus ancestrais, antecessores, segundo a etimologia da palavra, são aqueles que estão diante deles.

B. GUILLEMAIN. — O que dizeis é verdadeiro em uma civilização tradicional, mas nós não estamos em uma civilização tradicional.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Ciências Tradicionais

PHILIPPE LAVASTINE. — Aprecio muito o vosso exposé, Sr. Hutin. Contudo, não falastes das ciências tradicionais, mas apenas de três ou quatro delas. Ora, existem trezentas! Na Índia, sua simples nomenclatura cobriria todo este quadro-negro. Mostrastes apenas a centésima parte da questão.

Sem entrar no detalhe de uma linguagem tradicional, pode-se dizer que a Índia distingue nitidamente entre o “conhecimento unitário” e aquilo que se poderia traduzir pela palavra “ciência”, e que descreve como o Uno se tornou múltiplo.

B. GUILLEMAIN. — Sim, a oposição entre saber e conhecimento.

P. LAVASTINE. — Ou entre gnose e ciência difusível. As ciências estão voltadas para a multiplicidade, enquanto a gnose reconduz à unidade. Quanto às ciências tradicionais que se referem à vida social, são fundamentalmente “humanas” e têm por fim tornar o homem feliz — algo de que pouco se preocupam os sábios de hoje.

B. GUILLEMAIN. — Eles não buscam dar um sentido à vida.

P. LAVASTINE. — Imaginemos o ovo do mundo. Eis como se o representa: mil mede sua natureza espiritual — é o espírito que está em toda parte. Nesse ovo, uma parte tem valor cem: já não é o espírito, é a vida. Enfim, há uma última parte do ovo, comparável ao negro da unha, que é sua parte material, e vale dez. Têm-se, portanto, as seguintes proporções: dez de matéria, cem de vida e mil de espírito. O espírito está em toda parte; não existe um só pedaço de madeira onde não esteja presente o espírito.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]