Skip to main content

Perenialistas

Ciências Tradicionais

PHILIPPE LAVASTINE. — Aprecio muito o vosso exposé, Sr. Hutin. Contudo, não falastes das ciências tradicionais, mas apenas de três ou quatro delas. Ora, existem trezentas! Na Índia, sua simples nomenclatura cobriria todo este quadro-negro. Mostrastes apenas a centésima parte da questão.

Sem entrar no detalhe de uma linguagem tradicional, pode-se dizer que a Índia distingue nitidamente entre o “conhecimento unitário” e aquilo que se poderia traduzir pela palavra “ciência”, e que descreve como o Uno se tornou múltiplo.

B. GUILLEMAIN. — Sim, a oposição entre saber e conhecimento.

P. LAVASTINE. — Ou entre gnose e ciência difusível. As ciências estão voltadas para a multiplicidade, enquanto a gnose reconduz à unidade. Quanto às ciências tradicionais que se referem à vida social, são fundamentalmente “humanas” e têm por fim tornar o homem feliz — algo de que pouco se preocupam os sábios de hoje.

B. GUILLEMAIN. — Eles não buscam dar um sentido à vida.

P. LAVASTINE. — Imaginemos o ovo do mundo. Eis como se o representa: mil mede sua natureza espiritual — é o espírito que está em toda parte. Nesse ovo, uma parte tem valor cem: já não é o espírito, é a vida. Enfim, há uma última parte do ovo, comparável ao negro da unha, que é sua parte material, e vale dez. Têm-se, portanto, as seguintes proporções: dez de matéria, cem de vida e mil de espírito. O espírito está em toda parte; não existe um só pedaço de madeira onde não esteja presente o espírito.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]