R. ALLEAU. — Que sentido tem Manas: intelecto ou espírito?
PHILIPPE LAVASTINE. — Escrevo Bandha, que significa escravidão, à esquerda. Mais adiante, à direita, escrevo Moksha, que significa libertação. No meio, escrevo manas, que é o antigo termo para espírito. Encontra-se numa célebre Upanishad esta formulação: “O espírito, em verdade, é a causa do cativeiro e da libertação dos homens.” O espírito que prende o homem às coisas é um espírito impuro. Quando o espírito, que é também atman, esqueceu-se de si mesmo, é tomado pela multiplicidade das coisas, e âtman cai, corroído pelas coisas que não lhe perdoarão por ter caído.
Quando o espírito é puro, é o rei do mundo; quando o espírito é impuro, é o príncipe deste mundo. Deus é um espírito puro; Satã, um espírito impuro — eis a diferença entre Deus e Satã. Um espírito puro é aquele que não se identifica, mas que participa. E chegamos a uma questão vital: como pode haver ao mesmo tempo desapego e participação? Confundimos participação com identificação.
Diz-se com frequência: “O homem não é um espírito puro”; entende-se com isso que o homem também tem um peito que precisa respirar e um ventre que precisa de alimento. Sempre se tem a ideia de que um espírito puro deveria ter, conforme a imagem que vos tracei, a cabeça como um vaso cujo gargalo está profundamente enfiado entre os ombros. Na realidade, não carregamos nossa cabeça assim. Constantemente, há o espírito — que chamo de espírito “ciente”, segundo a etimologia de Alfred Jarry —, o qual “serra” a possibilidade de continuidade entre um pensamento, uma emoção e um ato.
Há um certo tipo de universitário “serrado” antes de ser “ciente”; e essa velha ciência universitária é o próprio cartesianismo. Em certos momentos, tenta-se virar o vaso — é a conversão — e reintroduzir o gargalo do vaso entre os ombros. Imediatamente chega um “ciente”, um sábio, um cientista. No instante em que o gargalo do vaso retoma o seu lugar normal, a ideia ressoou em ti; e era tão bela que o coração se comoveu. O coração, nas catedrais, é simbolizado pelo altar, e para significar que o altar é realmente o coração, colocavam-se ao redor da capela os arcobotantes que reproduziam as costelas do tórax. Ora, o ódio do serrador, do “ciente”, é a emoção. Supor que uma ideia possa ter um efeito — isso é intolerável!
R. ALLEAU. — Essa ciência à qual fazes alusão, dizes que ela “identifica”. Para mim, a essência da ciência atual é a lógica da identidade, e a essência da ciência tradicional é a analogia. E a ruptura de que falas ocorreu quando se passou da analogia para a identidade — mesmo no plano científico. As ciências tradicionais distinguem-se das ciências modernas precisamente porque têm, como relação fundamental, a analogia do ponto de vista lógico, enquanto as ciências modernas se baseiam na identidade. É uma tautologia.
O que dizes é perfeitamente justo; pode-se constatá-lo no plano do raciocínio. E reencontram-se os símbolos como reintrodução de uma plenitude. Isso é importante porque prova que se pode afirmar — o que é minha posição —: “Não nos privemos da identidade, contanto que integremos a analogia.” As duas lógicas são necessárias.