A dança, que conclui o êxtase em Santa Teresa como em São João da Cruz, é a linguagem que ainda hoje conserva vestígios de sua origem mistérica, embora pareça emudecida pela inconsciência de sua função primordial. Na anêmica dança ocidental ainda se podem seguir as marcas dessa origem, quando os homens aspiravam a tornar-se semelhantes aos “homens redondos” do Banquete platônico e imitavam, em suas danças dedálicas e zodiacais, as rotações dos astros. Assim, Gerhard Zacharias estabeleceu o sentido dos principais movimentos: o exercício é o jejum e o tormento da inversão; en dehors, o movimento do sacrifício, a oferta do braço ou da perna que se estende ao máximo como se renunciasse à sua posse, em celebração da noção de que somente a libertação da possessividade liberta as energias reprimidas; aplomb é o equilíbrio que nos possui, que nos desposa; élévation ou relevé sobre a ponta dos pés é o voo xamânico ou levitação, a ascensão, o salto do Deus fora da pedra; plié é o movimento de humilhação que eleva, assim como écarté ou épaulé são sinais de mediação.
A dança primaveril chinesa do faisão, reconstruída por Granet, segue o esquema da iniciação passo a passo. Ela visava propiciar os acasalamentos e, por contiguidade temporal, a manifestação do trovão, oculto durante o inverno. Como o destino liga o amor entre os faisões, o trovão e os encontros humanos da primavera, aceitá-lo significa conectar esses momentos por meio da dança. Primeiro os faisões cantam e simulam o tamborilar das asas, agitam os ombros como que trovejando. Pisam em pedras de modo a fazê-las soar, rolar: assim como o trovão fende a pedra, eles despetrificam, degelam as faisãs.
As teorias da dança entre os dervixes foram reunidas por Marijan Molé em Les danses sacrées (Paris, 1963).