Carregando...
 
Skip to main content

Perenialistas

Notas em suas obras

Potlatch

PHILIPPE LAVASTINE. — O direito romano provém diretamente do direito hindu. Trata-se da identidade entre o filho e o pai: o filho torna-se pai. Não há movimento de bens, mas uma única figura que jamais se altera. Não há tempo: o tempo é uma ideia absurda dos modernos.

Aconteceu-me, na Índia, encontrar dois grupos de homens: eu estava com um comerciante europeu de madeira, e cruzamos com um camponês que carregava um machado. Eis a diferença: o camponês só ia à floresta depois de já ter feito interiormente a oferta de um tambor ao seu templo. Já havia decidido o destino da madeira que iria cortar; a doação fora feita em primeiro lugar — esse era o ato importante. Dirigia-se então à floresta para talhar a madeira do tambor.

Enquanto isso, podíamos ver o homem branco que, com seus criados, marcava as árvores que deviam ser abatidas em determinado prazo, para depois enviá-las a Bombaim sem sequer se colocar a questão de seu emprego. Tratava-se apenas de uma questão de lucro.

Pode-se, portanto, definir o progresso de nosso pensamento econômico moderno como um retrocesso, uma fuga diante da questão: para que isso servirá?

As relações humanas estão invertidas, no sentido de que, em uma civilização tradicional, é o ato de despender que tem importância. Busca-se ganhar apenas em vista dessa despesa. E ilustrarei isso com uma história de potlatch. Um grande comerciante chinês chegou a tornar-se Imperador da China porque, cada vez que acumulava uma fortuna, realizava um potlatch, isto é, distribuía tudo o que havia adquirido, até permanecer completamente nu, mas coberto de glória, deixando os outros repletos de seus bens. Estes eram obrigados a aceitar por cortesia e diziam: “Restituir-te-ei.” De fato, chegado o momento, cada um oferecia, por sua vez, uma grande festa. E o potlatch continuava... até o encontro do Campo do Pano de Ouro, entre Henrique VIII e Francisco I, em que um dos soberanos procurava deslumbrar o outro, pois a função real é, essencialmente, uma função de potlatch.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Lingam e Yoni

PHILIPPE LAVASTINE. — Permitam que assinale outro aspecto desse símbolo, que se esquece com demasiada frequência: nessa representação, o falo sai de um yoni, de um órgão feminino, em vez de nele entrar. Isso representa, ao mesmo tempo, o nascimento do Filho; é, num estilo muito mais alegórico, Ísis com Hórus, ou, entre nós, a Virgem com o Menino. Outro exemplo: que ledes em um desenho que figura o sol nascente? O homem ocidental moderno dirá: “Vitória do dia, vitória do sol nascente!” A Índia diz: “Vitória da noite. A noite deu à luz o sol.” É a vitória de uma mãe. Esse lingam que sai do yoni é a vitória da mãe, e, pela manhã, cada hindu, em sua liturgia, celebra a vitória da noite. Já vistes um recém-nascido: é lastimoso. É essa a sua vitória? Não, é a vitória da mãe. De modo que esse pensamento simbólico, tão profundo, repousa também sobre fatos observados. Encontram-se por toda parte esses lingam e esses yoni; é preciso compreender o que isso quer dizer. O comércio entre o homem e Deus é um comércio de potlatch, não é um comércio de interesse.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Símbolo em trama

M. KELKEL. — Gostaria de retomar a questão da tipologia do simbolismo. Perguntei-me se não haveria casos em que o símbolo se confundisse com o síntema, isto é, em que o símbolo pudesse ser ao mesmo tempo um símbolo natural e um símbolo tradicional. Tomo um exemplo: o falo na Polinésia. É, ao mesmo tempo, um símbolo tribal que exprime a fertilidade e também algo de natural. Pergunto-me se aí não estariam reunidas as duas noções — símbolo e síntema.

R. ALLEAU. — A ideia de um falo “natural”, e em geral a própria categoria do “natural”, tal como a entendemos, é absolutamente estranha ao espírito de uma comunidade arcaica. Não há, portanto, distinção que se estabeleça nesse nível. Ainda não existe parcelamento do conhecimento. É preciso insistir nisso. Não se vê o falo em si mesmo em uma obra de arte ou em um rito arcaico; ele está sempre associado a todo o resto, isto é, à plenitude dos sentidos e dos signos de uma cultura, como dizia certa vez Philippe Lavastine: “Se, em uma sociedade tradicional, tiras um objeto, tudo vem com esse objeto.” Não se pode extrair um símbolo isolado de todo o resto; todo o tecido da sociedade tradicional vem com aquilo que se retira. E isso não diz respeito apenas ao falo, mas ao menor dos objetos — uma colher, por exemplo. Se se compreendesse inteiramente um único objeto, compreender-se-ia toda a organização de uma sociedade tradicional.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Fazer-se mãe

PHILIPPE LAVASTINE. — Eis um versículo sânscrito do Hino do Homem: “Da palavra criadora nasceu o homem, e do homem nasceu a palavra criadora. Do homem nasce a mãe e da mãe nasce o homem. Era necessário que eu me fizesse uma mãe da qual pudesse renascer.”

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Iniciação

PHILIPPE LAVASTINE. — Dissestes que a iniciação é a vida total da comunidade em todo momento; contudo, pode-se nela ver o rito de entrada, depois um momento de intensidade excepcional e, por fim, o retorno ao mundo profano. Trata-se, portanto, de um ato e não de um estado permanente.

R. ALLEAU. — No que concerne ao impacto entre a comunidade e o iniciado, é certo que este intervém a todo momento, por exemplo, para arbitrar conflitos ou para reconhecer enfermidades. Há, portanto, uma ligação constante do iniciado com a comunidade.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Construção Oriental

B. GUILLEMAIN. — [...] Há entre nós alguém que poderia dizer algumas palavras sobre as confrarias de construtores na Índia?

PHILIPPE LAVASTINE. — Sim, certamente. Em 1932, o Dr. Heine Geldern publicou um estudo que deu origem a numerosos trabalhos: Concepção do mundo e arte de construir no sudoeste da Ásia. Ali se vê que os construtores possuíam sua própria cosmologia. Faziam descer a “Jerusalém celeste”, a cidade dos trinta e três deuses. É isso Angkor. Durante trinta anos, Paul Mus, no Collège de France, estudou essa maçonaria asiática.

R. ALLEAU. — Heine Geldern é partidário da origem mesopotâmica.

P. LAVASTINE. — Sim, tudo isso vem da Mesopotâmia: a torre de Babel, caluniada na Bíblia, onde se trata de demolir a civilização dos antepassados de Abraão. Este se insurgiu contra seu pai e contra toda a tradição mesopotâmica para fundar a nova tradição da qual surgiram Israel, o Islã e o Cristianismo — que são contestadores modernistas em relação à grande tradição mesopotâmica. É preciso reencontrar esta última, se se deseja aproximar-se da Tradição primordial.

M. de GANDILLAC. — O Templo de Jerusalém pertence a essa tradição antibabilônica? É uma questão que não é destituída de interesse em relação aos vínculos mais ou menos lendários da Maçonaria com a construção do Templo por Hiram.

B. GUILLEMAIN. — As lendas sobre o Templo de Salomão não são apresentadas como históricas. Aliás, isso nos levaria demasiado longe...

M. de GANDILLAC. — Temeis apenas que isso nos leve demasiado longe, ou trata-se de um segredo que não pode ser revelado ao profano?

R. ALLEAU. — Pode perfeitamente ser dito. Apenas, em certos casos, não se estudam suficientemente os textos, e especialmente os textos latinos. Por essa razão, não se consultam os comentários sobre Ezequiel a propósito do Templo de Jerusalém. Houve trabalhos notáveis sobre esse tema no século XVII. O jesuíta Villalpando, de Córdoba, escreveu dois volumes in-folio sobre a simbólica do Templo de Jerusalém (Comentários sobre Ezequiel e sobre o Templo de Salomão, 1620). Jamais foi traduzido.


P. LAVASTINE. — Na base da maçonaria asiática encontra-se a cosmologia, uma cosmologia que o nosso espírito científico é incapaz de compreender. Dever-se-ia antes dizer que o espírito científico destruiu completamente uma certa maneira de abordar o cosmos. Na antiga Índia, tudo se fundamentava em uma cosmologia tradicional, e eu gostaria de colocar a seguinte questão: “Vós, maçons, conseguis defender um certo espírito tradicional contra o pensamento científico, que considera ridículas as cosmologias pré-científicas? A ciência, afinal, não nos trouxe nenhuma cosmologia; trata-se apenas de uma batalha entre hipóteses cosmogônicas.”

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Dança

PHILIPPE LAVASTINE. — Marcel Mauss dizia: “A arquitetura, concha do rito.” Isto é, a arquitetura só aparece para ser o enquadramento de algo muito mais essencial: o rito dramático. Enquanto para o nosso Ocidente a arquitetura é a arte maior, para a Ásia, a arte que ocupa o primeiro lugar é a dança. Há dois tipos de artes, como se sabe: as artes que se desenrolam no tempo e aquelas que se desenvolvem no espaço. Entre ambas, Térpsicore, no centro das nove musas — a dança. “Se não dançardes”, disse o Cristo, segundo um Apócrifo, “nada compreendereis do que dança no mundo.” Que é da dança na Franco-maçonaria?

B. GUILLEMAIN. — Não conheço rito que comporte, propriamente falando, dança, mas há passos rituais. E devo dizer que, sem entrar na análise de graus particulares, existe ao menos um, segundo meu conhecimento, em que o passo é de grande complexidade: é um passo de dança muito mais difícil do que aquele que um dançarino de tango, por exemplo, pode executar. Dito isso, não se executa ao som de música.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Mozart, iniciado

PHILIPPE LAVASTINE. — Disseram-me que Guénon considerava Mozart um iniciado perfeito, por causa, penso eu, do enredo de A Flauta Mágica...

B. GUILLEMAIN. — Mozart não é considerado por Guénon como um iniciado perfeito, a meu ver, mas, ainda assim, como um iniciado.

P. LAVASTINE. — Por causa do enredo?

B. GUILLEMAIN. — Não, por causa da música.

P. LAVASTINE. — Mas Guénon não era músico.

B. GUILLEMAIN. — Era hostil à introdução da música na loja, à introdução das colunas de harmonia.


P. WARCOLLIER. — O libreto de A Flauta Mágica é de um maçom, não de Mozart.

M. KELKEL. — Sim, o libreto é de Schikaneder. No entanto, em sua obra A Flauta Mágica, ópera maçônica, o professor Chailley sustenta com firmeza a hipótese de uma intervenção pessoal de Mozart durante a redação do libreto por Schikaneder, o qual (não está comprovado) talvez tenha sido auxiliado por seu amigo Metzler, chamado Giesecke. J. Chailley ressalta que Mozart era um maçom assíduo, iniciado no terceiro grau, enquanto Schikaneder, que fora inicialmente franco-maçom, havia sido excluído de sua loja de Ratisbona em maio de 1789, talvez em razão de seus costumes bastante dissolutos.

B. GUILLEMAIN. — É certo. Mozart foi realmente um mestre em maçonaria.

M. SCRIABINE. — Conhece-se o seu grau?

B. GUILLEMAIN. — Não, mas certamente foi, ao menos, terceiro grau e muito bem instruído. Talvez tenha frequentado os altos graus; não se sabe ao certo.

P. WARCOLLIER. — Ousarei formular uma hipótese pessoal. Quando A Flauta Mágica foi apresentada em Paris pelos Marionetes de Salzburgo, a sala inteira estava repleta de todos os maçons de alto grau de Paris. Penso que, se se alegravam tanto em reencontrar uma mensagem maçônica nessa obra — além da música, naturalmente —, é porque reconheciam nela algo bem mais elevado do que aquilo que pode ser ensinado nos três primeiros graus.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Por que Moisés tomou sobre si todas as culpas

PHILIPPE LAVASTINE. — Por que Moisés tomou sobre si todas as culpas, todos os pecados? Outrora, não o compreendia. Mas é porque ele tem em si o seu povo — esse povo sedutor, errante, bebedor, mentiroso, luxurioso — e ele é verdadeiramente esse povo. Encontrei a confirmação disso no Camboja, em uma inscrição de Angkor: “Não é de seus assuntos pessoais que sofre um rei, mas dos sofrimentos públicos. Caso contrário, não é um rei.” É já a ideia do Cristo e do amor de Deus que toma sobre si os pecados do mundo.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Acaso

G. MICHELSON. - Você sabe como se chamava a deusa grega do acaso? Automatia.

M. de GANDILLAC. - Autômato é, em grego, o próprio nome do acaso; tyche, o da fortuna.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Califa

PHILIPPE LAVASTINE. — Gostaria de perguntar qual é o papel do sultão na oração.

N. BAMMATE. — É colocar o problema das relações entre a autoridade espiritual e o poder temporal.

A função de Muhammad, não como Profeta, mas como chefe da comunidade muçulmana, foi transmitida aos califas, isto é, aos sucessores, aos representantes. Mas a soberania pertence somente a Deus. O califa é apenas a sombra dessa soberania sobre a terra. Do mesmo modo, cada crente pode, de maneira perfeitamente legítima, dirigir uma oração comunitária na qualidade de Imame. Quanto ao sultanato, trata-se de uma autoridade governamental que veio enxertar-se tardiamente sobre a autoridade do califado, espiritual e temporal ao mesmo tempo. A característica fundamental do Islã, na ordem política, é a união do espiritual e do temporal, reflexo da unidade divina, que investe de uma exigência ética toda a vida pública e social da comunidade. O papel do califa é assegurar a conformidade da legislação humana com a ordem divina.

A primeira tarefa dos colonizadores em terras do Islã foi separar o espiritual do temporal. O “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” permitiu, segundo os muçulmanos, a entrada no mundo profano da quantidade. A distinção, no Islã, não é entre o mundo que pertence a César e o que pertence a Deus. O mesmo mundo pode ser visto de modo exotérico ou esotérico. Mas não deixa de ser verdade que toda autoridade temporal e toda legislação, no Islã, são reflexos da religião, da teologia, do espiritual. A unidade entre o espiritual e o temporal é o último ponto de resistência, a última linha de defesa à qual a comunidade muçulmana, mesmo em estado de decadência, se apega. E o dia em que houver separação entre o temporal e o espiritual no Islã será o fim do Islã. Poderá haver outra forma de civilização e de sociedade nas terras do Islã, mas já não será o Islã.

[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]

Corpo Místico

PHILIPPE LAVASTINE. — Como concebe a diversificação do Corpus mysticum, de que apenas mencionaste uma palavra?

JEAN TOURNIAC. — Remeter-te-ei aos trabalhos do Pe. Trithemius Inteligencias 2, o teólogo que tratou especialmente desse tema. Pessoalmente, penso que a doutrina do Corpo místico na Igreja é talvez um dos aspectos que têm sido particularmente postos em relevo há cerca de cinquenta anos, e que permite conceber uma identidade das formas tradicionais sem, contudo, renegar o cristianismo. O Corpo místico integra visões diferentes de Deus, as quais, por sua vez, se integram no próprio corpo de Cristo. O Cristo, em suma, as abrange em si, e, se se faz a transposição Cristo-Verbo, Verbo-Centro, obtém-se uma perspectiva metafísica (incluída na doutrina do Corpo místico) que permite essa transposição dentro do cristianismo. A Idade Média possuía essa noção do Corpo místico; talvez não lhe atribuísse as mesmas dimensões que hoje lhe são dadas. Mas o Corpo místico é o lugar dos possíveis, é a total possibilidade que compreende necessariamente expressões múltiplas. E uma outra tradição pode nele incluir-se. Aliás, a Igreja, quando fala da salvação concedida àqueles que não são cristãos, refere-se à doutrina do Corpo místico. É a salvaguarda doutrinal, mas é ao mesmo tempo uma altitude da concepção do Cristo que permite o “recolhimento de tudo o que está disperso”.

Guénon e Sideshwarananda

PHILIPPE LAVASTINE. — Compreende por que o swami Sideshwarananda passou a odiar tanto Guénon depois de tê-lo admirado? Em 1939, ouvi-o dizer a um de meus amigos: “Vós, na França, tendes sorte, podeis ser iniciados nas doutrinas hindus porque tendes Guénon.” Depois, os anos se passaram. E, após a guerra, em Royaumont, em um discurso público, ele falou de Guénon dizendo: “Esse homem de quem não temos lições a aprender.” E, à mesa, ainda a propósito de Guénon, disse: “Esse homem que introduziu o tom de Gringoire na metafísica.” Isso mostra que ele já não suportava mais, assim como Louis Renou, que se lhe falasse de Guénon.

N. BAMMATE. — No caso de Renou, isso tem um alcance completamente diferente. O fato de que ele se revolte em nome de Guénon é normal, pois, em última instância, se Guénon existe, Renou não existe. A fúria de Renou, portanto, compreende-se. Mas o swami Sideshwarananda, que era a bondade absoluta, ter chegado a esse ponto... Tenho a impressão de que o que pôde levá-lo a esse estado foi precisamente essa rigidez intelectual de Guénon, que lhe deve ter parecido uma espécie de mecânica implacável.

J.-P. LAURANT. — Guénon havia declarado que o swami não era ortodoxo. Les Études traditionnelles também se queixaram, após a guerra, de terem perdido parte de seus leitores para o grupo do swami.

Nome árabe de Guénon

PHILIPPE LAVASTINE. — E o nome árabe de Guénon, que significa?

N. BAMMATE. — O nome completo é Abd el Wahed Yahia. Abd el Wahed significa o adorador, o servidor do Único. Não é Abd el Ahad: Ahad é a unidade, ao passo que Wahed quer dizer o único. Trata-se, portanto, da unicidade da experiência metafísica. Quanto a Yahia, é simplesmente o nome de João. Assim, seu nome significa: “o servidor do Único, João”. E é o nome que todos os povos semíticos atribuem aos dois Joões: João Evangelista e João Batista — sobre os quais, aliás, Guénon escreveu considerações fascinantes, desde os estudos de folclore e aqueles relativos aos solstícios, até uma reflexão sobre o cristianismo, passando pelas mitologias antigas. O nome de João, utilizado por Guénon como nome iniciático, atravessa uma diversidade de formas tradicionais.

Xeque el-Alaoui

PHILIPPE LAVASTINE. — Foi por intermédio de Guénon que Schuon conheceu a confraria de Mostaganem?

N. BAMMATE. — Seria antes o inverso, se se entende por isso um conhecimento aprofundado. Contudo, Guénon já havia tido um primeiro contato com a ordem por intermédio de Abdul Hadi (Aguéli), que também era afiliado à Shadiliya, mas por uma ramificação egípcia. Todavia, o contato parece ter sido estabelecido de modo decisivo por Schuon, e foi ele, depois, quem transmitiu oralmente a Guénon — durante uma viagem que realizou logo após a guerra — o ensinamento do xeque el-Alaoui.

O Convertido

Philippe Lavastine. — É mais grave [a conversão de Guénon ao Islame]. Sabe-se o que é, para Israel, um homem que se tornou judeu: um Baal Cheba. Um justo, diz o Talmud, não se senta ao lado de um convertido. E por quê? — perguntaram-se os rabinos. A resposta de um mestre foi a seguinte: um convertido exala mau cheiro. O mesmo é dito na Índia. Assim, quando alguns amigos instigaram-me a entrar no quadro da religião hindu, pensei que isso seria um erro. Mas disseram-me que era perfeitamente possível, sem conversão. Não que eu fosse católico muito praticante, mas a ideia de renegar a religião de minha mãe teria sido penosa. Portanto, também os hindus não admitem conversões. É no interior de cada grupo, de cada doutrina, que se pode e se deve converter-se — no interior do cristianismo, no interior do judaísmo. E essa conversão horizontal, em lugar da metanoia vertical que nos é exigida, possui algo de tão antitradicional que me causa espanto: seria Guénon, o mestre do retorno ao espírito tradicional, quem pôde dar-nos tal exemplo?

Conversão

PHILIPPE LAVASTINE. — Eu desejaria saber um pouco mais sobre a passagem de Guénon ao Islam. Disseram-me que ele teria se tornado muçulmano porque, vivendo no Cairo, todos ali são muçulmanos. Ele não queria mais retornar à Europa, nem sequer ouvir falar dela. Contudo, não poderia, com sua doutrina, ser favorável à ideia de “conversões”. Sabe-se como Coomaraswamy falou do homem que se converte: chegou até mesmo a dizer que um missionário que converte alguém de um corpo de dogmas a outro realiza uma atividade satânica. Isso foi publicado por Guénon nas Études traditionnelles em 1938, se não me engano, em um artigo intitulado A tolerância em Ramakrishna. Assim, uma vez convertido ao Islam, diria ele que não se tratava de uma conversão, mas apenas de um movimento em direção ao esoterismo muçulmano?

Dualidade em nós

Em todas as filosofias tradicionais que assentam como axioma que há em nós uma dualidade, é de rigor distinguir o grande Eu, a Ipseidade, do “eu” ou Ego, o sábio, por assim dizer, do “entendido". Na nossa exposição, a Não Ipseidade coincide com a egoeidade (self-isness); dizer “não-eu” (unself-isness) teria sido exprimir exatamente o contrário. É da Ipseidade somente que uma não-egoeidade ontológica, e consequentemente, um não-eu ético, podem ser atributos. No momento apenas se discute o ego, o “eu”; a questão da Ipseidade no budismo será tratada mais longe. Coomaraswamy Buda

Miséria humana

Toda a raça humana é tão miserável e acima de tudo tão cega, que não tem consciência de suas próprias misérias. (Comenius, Labirinto do mundo e Paraíso do Coração, c. XXVIII). É precisamente devido a esta cegueira que Buda hesitou em pregar o Dhamma a homens cujos olhos estão cobertos de pó. Coomaraswamy Buda

Audição

A audição é o sentido mais elevado porque é o oitavo e último, divino. No sétimo estágio está a visão, que corresponde aos espíritos; no sexto, o tato, que corresponde aos homens; e a sapientia, que corresponde ao conhecimento. (Zolla Misticos Ocidente)

Sensório

Pois 'se um som é produzido, longe... ou perto, entre os cílios e as sobrancelhas, o sábio não pode ignorá-lo, mas ele não sabe se o capta pelos ouvidos ou pelos quatro membros ou pelo coração ou pela barriga ou pelas cinco entranhas: ele é informado e isso é tudo' (Lie tseu). A única válida é a percepção espontânea e global que vem da livre indiferença. O sábio se abstém de usar os olhos para ver, os ouvidos para ouvir, recusa-se a fazer uso separado de seus sentidos, temendo que os orifícios que são seus órgãos fiquem entupidos, não faz uso dos olhos, exceto da maneira como faz uso dos ouvidos, e usa o nariz como usaria a boca. Somente assim a comunicação entre o exterior e o interior é estabelecida de acordo com a inocência: toda sensação parcial é exaustiva e corruptora (Granet, La Pensée chinoise, Paris, 1950, p. 534). (Zolla Misticos Ocidente)

Oração

Não sabemos o que devemos pedir ao rezar, mas o próprio Espírito Santo reza por nós com gemidos inefáveis (Ep. aos Romanos, 8, 26). Cassiano, na Collatio (IX, 24), diz que a mente enraizada na verdade dirige a Deus orações flamejantes "quas ipse spiritus interpellans gemitibus inenarrabilibus, ignorantibus nobis, emittit ad Deum" [As quais o próprio Espírito, intercedendo por nós com gemidos inexprimíveis, emite a Deus, enquanto nós ignoramos.]. A oração é, nos mitos, uma pena, St. Nilus diz pena ou águia. A comunicação divina mais íntima ocorre, como a concepção de Jesus, per aurem. (Zolla Misticos Ocidente)