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PERENIALISTAS
René Guénon: SHIVAISMO E VISHNUISMO
VEDANTA
Henri le Saux
SHIVA: lit. o benevolente, o benéfico, o propício. É o nome dado por muitos hindus à Divindade suprema (Parama-Shiva) e que o Padre De Nobili gostaria de conservar no Cristianismo, se não fossem as confusões mitológicas do termo. Num plano inferior, o terceiro membro da Trimurti (Brahma, Vishnu, Shiva ou Rudra). Foi em Shiva, o benevolente, que se transformou o terrível Rudra védico, cuja sobrevivência é atestada no aspecto de Shiva, destruidor dos mundos ou ainda em Shiva Bhairava, "aquele que apavora". Shiva é também o asceta por excelência, o maha-yogin, representado em atitude de meditação, com o corpo coberto de cinzas. A devoção a Shiva deu lugar no sul da índia a uma bhakti que nada fica a dever à bhakti vishnuíta ou krisnáica (cf. hinos dos Nãyanãr, o Tevaram, o Tiruvasagam de Manikka-Vasagar, o Tirupadal de Tayumanavar, etc).
"Quem diz que Shiva e o Amor (Anbu) são dois,
esse jamais soube nada;
Quem soube que o Amor e Shiva são o mesmo,
ele próprio tornado Shiva o amor,
reside já na suprema paz."
Essa devoção shivaíta do país tâmul encontrou sua expressão filosófica no sistema do Shaiva-siddhanta (de Meykanda-devar, XIII. séc). Paralelamente desenvolveu-se no Kashmir um outro sistema teológico, este propriamente advaíta, o pratyabhijna, cujo representante mais ilustre foi Abhinavagupta (século Xl) — cf. também linga, nataraja.
Em um plano mais elevado do que o de Heracles, com o simbolismo de seus “trabalhos”, que põem em relevo a virilidade heroica e, em certa medida, antiginecocrática (adiante será abordado o importante simbolismo da túnica de Nesso), encontram-se as representações da virilidade ascética e apolínea. Pode-se tomar aqui, como elemento de conexão, o próprio Shiva, entendido como divindade de culto e não como princípio metafísico: Shiva, que, embora durante a época alexandrina tenha sido comparado a Dioniso como deus de certos ritos orgiásticos, foi também considerado, por outro lado, o grande asceta dos cumes.
É verdade que Shiva possui uma esposa, Parvati, mas não recebe sua influência, pois sabe fulminar Kama, o deus do amor, sempre que este procura suscitar nele um desejo sinônimo de necessidade, de carência, de sede e de dependência (no mito hindu, Shiva ressuscita Kama após a intercessão de certas divindades — como Rati — que personificam, por sua vez, formas da experiência erótica pura, livres desses condicionamentos).