PHILIPPE LAVASTINE. — [...] Gostaria ainda de fazer uma pergunta à Srta. Scriabine: fizestes uma distinção interessante entre Seth e Satã. O Egito não conheceu um deus do mal?
M. SCRIABINE. — Não, absolutamente. Seth tornou-se deus do mal na época decadente, quando invasores o adoraram como deus único ou principal, isto é, quando foi separado de Hórus. Mas, enquanto Seth esteve integrado ao conjunto da religião egípcia, era um grandíssimo deus, embora brutal, blasfemo, impudico, ladrão etc. Ele encarnava todas essas forças agressivas, destrutivas, contrárias — mas integradas no equilíbrio geral, ideia, aliás, muito guenoniana — e que eram necessárias em sua negatividade. O faraó, enquanto homem perfeito, devia reunir e reconciliar em si as duas polaridades: Hórus e Seth.
P. LAVASTINE. — Recordai-vos do barco de Deir el-Bahari, com Hórus à popa e Seth à proa, que fende a serpente Apófis. Szandi, um egiptólogo holandês, estudou os infernos egípcios e mostrou a diferença entre estes e os infernos cristãos: nos infernos egípcios há demônios que atacam o morto, mas toda vez que um demônio pode ser vencido, encontra-se uma porta. Ao passo que, no inferno cristão, já não há possibilidade de abater um demônio e atravessar uma porta.
M. SCRIABINE. — Para isso existe o Purgatório.
R. ALLEAU. — Em grego, o verbo diaballein significa dispersar, lançar de um lado e de outro. Reunir o que está disperso é exatamente o contrário desse verbo “diabólico”.
P. LAVASTINE. — E não é justamente a ação universitária que dispersa? A universidade é cartesiana — e o Sr. Gouhier o demonstrou bem —, o simbolismo não pode mais existir depois de Descartes.
R. ALLEAU. — O curioso é que Descartes tenha sido um dos precursores da psicanálise.
M. SCRIABINE. — Em minha tese sobre A representação do tempo e da intemporalidade na arte figurativa, estudei as representações da eternidade e da “indefinidade” — a duração sem fim —, notadamente nas ilustrações da Divina Comédia. No Inferno, encontra-se o círculo-redemoinho, o movimento giratório sem fim, onde às vezes também há choque — um movimento sem direção, desordenado, desorientado: uma “eternidade” incoerente que dura e gira incessantemente. No Purgatório, as ilustrações se ordenam segundo um movimento linear caracterizado por uma oblíqua orientada para o alto, geralmente da direita para a esquerda; há aí todo um simbolismo que não posso desenvolver por falta de tempo. Enfim, no Paraíso, a eternidade é o círculo radiante, as rosáceas formadas pelos anjos e bem-aventurados dispostos em torno de um centro. E reencontram-se sempre essas constantes figurativas em numerosas ilustrações de Dante, de autores diferentes.
[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]