Mlle HURARD. — Gostaria de perguntar ao Sr. Lavastine se existe no Hinduísmo uma noção análoga à da Gratia no Catolicismo?
PHILIPPE LAVASTINE. — Sim, tal noção existe: “Se é o atman que te chama, conheces o âtman; mas tu mesmo não podes chamar o âtman.” Os católicos estão mal informados ao afirmar que o Hinduísmo não conhece a graça. No Budismo também, a graça é conhecida sob o nome de “força estrangeira”.
Retomando o documento que R. Alleau acaba de ler, acrescentarei o seguinte: a Igreja reprova, portanto, enquanto contrária ao espírito de Cristo, toda discriminação exercida contra homens em razão de sua raça, cor, classe ou religião. Imediatamente após a palavra “discriminação”, vem o termo “vexação”: “toda discriminação ou vexação”. A meu ver, há aí um grave erro intelectual. A Índia adotou uma certa noção de igualdade que se pode traduzir por “visão igual”, “visão equânime”, como um bom médico tem uma visão igual de todos os seus doentes, quaisquer que sejam sua condição, idade ou sexo. Mas há uma segunda fórmula, que por vezes foi esquecida: é a “ação diferenciada”, isto é, levar em conta com exatidão cada indivíduo.
Por exemplo, quando falo a uma pessoa, penso: é ela de origem grega? com mentalidade grega? é de origem judaica? com mentalidade judaica? é uma mulher, uma jovem? Todas essas discriminações eram discernidas, e jamais ocorreria a ideia de que fosse vexatório fazer uma distinção entre um homem e uma mulher, entre um grego e um judeu. É absolutamente necessário que as duas atitudes — “visão igual” e “ação diferenciada” — coexistam.
Em determinado momento, na Índia — refiro-me apenas à Índia, que conheço um pouco — esqueceu-se o segundo termo, e uma espécie de “missionários” partiu para ensinar a “visão igual” (sama darshana). Na prática, isso equivalia a dizer: tudo é igual, tudo é nada, tudo é maya. Por que se dar ao trabalho de distinguir entre um grego e um judeu, se a verdade suprema, segundo esses missionários, é que nada, desde o princípio, jamais existiu?
Para retomar o relato do Sr. Barbanegra, que ilustra perfeitamente a antiga Romênia e o mundo bíblico: quando Ion quer conservar na aldeia o seu traje citadino, é morto. Do mesmo modo, no Livro dos Macabeus, o chefe sai um dia de sua casa, vê um judeu oferecendo sacrifício a um ídolo estrangeiro e o mata. Nós o absolveríamos, mas nos tempos bíblicos julgava-se que seu pecado introduzia uma falsa nota na comunidade. Assim também, jamais se compreenderá a Índia se não se reconhecer a importância da estética, no sentido pleno do termo: há falsas notas que não são toleráveis.
[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]