PHILIPPE LAVASTINE. — Queria justamente voltar ao catolicismo. Parece-me que, para Guénon, o elemento dominante de seu pensamento era a ortodoxia doutrinal. Por isso mesmo, ele se separa completamente do Hinduísmo. O que caracteriza o Ocidente? É, por exemplo, essa grande Santa Teresa de Ávila, dizendo, escrevendo, ensinando que Deus pode perdoar tudo, exceto a heresia. Se há desvio em um ponto de dogma, Deus não pode perdoar. O Hinduísmo, como muitas outras religiões orientais, coloca no lugar da ortodoxia a ortopraxia. Já se disse isso, mas é algo capital. Isso significa que não se julgará o homem pelo que ele pensa, mas pelo que ele faz; não se lhe pergunta se sua linha doutrinal é justa, mas se sua conduta é ritual. O ato ritual é aquele que se espera dele; caso contrário, a reciprocidade é rompida. Eis aí a falta. Pela ortopraxia, deve-se poder chegar a constituir uma comunidade de amigos, onde reine a paz, onde o espírito possa abrir-se, de modo que, finalmente, o objetivo do Oriente é alcançar a liberdade de pensamento. Para um hindu, não pode existir liberdade de pensamento se se tem uma má higiene, uma má saúde mental, uma má conduta. Para que haja saúde mental, deve haver saúde moral. O professor Baruck o disse muitas vezes: em todos os seus pacientes constatou ou que haviam sido vítimas de uma injustiça, ou que eles mesmos haviam cometido uma injustiça, e sua saúde mental fora afetada por isso.
A posição da Igreja pode justificar-se na medida em que deriva do antigo direito romano, que colocava a comunidade antes do indivíduo. Infelizmente, tudo foi comprometido pela noção de ortodoxia.
G. FERRAND. — A Igreja possui a confissão dos pecados, que permite que o ato não ritual não cause dano nem ao indivíduo nem à comunidade.
P. LAVASTINE. — Mas ela não absolve o pecado de heresia. É necessário obedecer a uma doutrina enunciada ex cathedra. O caporalismo da Igreja católica foi o que me afastou dela. A primeira vez que entrei numa mesquita — ah! que abertura! — em comparação com uma certa igreja gótica, que te toma pela nuca: “De joelhos, pecador!”
[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]