PHILIPPE LAVASTINE. — Sade foi bastante longe na contra-iniciação. Sabe-se que ele disse: “Há apenas uma coisa que não posso perdoar ao homem: ter tido a ideia de Deus.” Essa frase, aliás, foi retomada por Blanchot, para quem o aparecimento da ideia de Deus é o pecado original.
Permiti que, para concluir, fale do mito da iniciação real na Índia, que ilustra perfeitamente o tema “iniciação / contra-iniciação”. Todos conheceis a Bhagavad Gita e a razão pela qual se desencadeia a batalha: à morte do rei Pandu, os cinco Pandava têm direito igual ao império do mundo; mas, como estão ausentes no momento da partilha, o tio atribui a propriedade do mundo a seus próprios filhos, e os Pandava ficam sem nada. Então dizem: “O império do mundo não nos interessa, somos músicos, poetas. Dai-nos apenas uma pequena propriedade.” Recusam-lha. Krishna diz: “Nenhum lugar para os poetas! É preciso fazer a guerra.”
Arjuna tem apenas uma espada humana, e como são cinco contra todos, precisar-se-ia da espada de Shiva. O próprio Krishna lhe diz: “Deves subir até o Kailasa, a grande montanha do Himalaia, e pedir a Shiva a sua espada.” Não posso narrar todas as aventuras iniciáticas que acontecem ao jovem Arjuna durante sua viagem. Quando ele acredita ter enfim chegado perto do cume — em sânscrito, a mesma palavra significa cume e origem —, um gigantesco montanhês, armado de um enorme bastão, sai da floresta e lhe diz: “Não passarás.” Com sua espada humana, Arjuna trava combate, que permanece incerto. Mas as leis cavalheirescas proíbem lutar à noite; assim, os combatentes fazem uma pausa para o sono.
No dia seguinte, a batalha recomeça, ainda incerta. No terceiro dia, desesperando de poder vencer aquele gigante, Arjuna tem a ideia de tomar uma pedra, erguê-la como um linga, o Shiva-linga, símbolo de Shiva. Em seguida, vai colher flores — flores vermelhas, há muitos rododendros no Himalaia, em certa época — e tece uma grinalda que deposita sobre o Shiva-linga. Ora por força, voltando-se para longe do gigante, que espera, segundo as regras da cavalaria. Quando enfim Arjuna se sente pacificado, cheio da própria força de Shiva, volta-se para cortar a cabeça do inimigo e, nesse momento, vê sobre a cabeça do gigante a coroa de flores que havia colocado sobre o Shiva-linga. O gigante era Shiva.
Arjuna invoca Shiva no instante em que está prestes a matar Shiva, porque se tornou ele próprio Shiva. Eis a chave mesma da Índia: somente o deus pode prestar culto aos deuses. Goethe disse: “Compreendes apenas o espírito que igualas.” Isso mostra que é preciso, às vezes, encolerizar-se como Guénon. É apenas no momento em que se vai vencer o gigante que se percebe que ele é Shiva. Se se aceita a existência do obstáculo que impede de transpor a última porta, jamais se a transporá.
[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]