— O que vos levou na direção dos materiais indianos?
— Boa pergunta. Uma única palavra. Se nos recordarmos, Hedayat não usa a palavra "cobra" para se referir à serpente no calabouço. Usa "Nag-serpente". D. P. Costello, em sua tradução, havia traduzido a Nag-serpente como cobra. Perguntamo-nos por que Hedayat não usou o equivalente persa e insistiu em usar a palavra indiana. A palavra "Nag" levou-nos ao Buda-carita de Asvaghosha que mencionamos anteriormente e ao uso que Hedayat fez da vida do Buda como pano de fundo da novela. Mas essa é uma história diferente. A palavra Nag, especialmente o papel que desempenha na vida do Buda, atraiu-nos para os materiais indianos.
Certa tarde, já tarde, sentados em nosso escritório, decidimos ler o Bardo Thodol. Estranhamente, naquela tarde sentimos que aquele livro tinha a resposta que buscávamos. Mas desde o início, o Bardo Thodol se mostrou uma leitura difícil. Os primeiros parágrafos encheram-nos de um sentimento que é melhor expresso pelo narrador da novela como: 'uma experiência que jamais esqueceremos.' Nunca antes havíamos lido um livro tão mórbido quanto O Livro Tibetano dos Mortos.
— Os olhos da garota. Isso é o que falta em seu desenho nas tampas do estojo de caneta. Ele não está familiarizado com os olhos.
— Por que os olhos são tão importantes?
— Porque pertencem a um mundo com o qual ele não está familiarizado: O mundo da Nag-serpente.
— Mas não há Nag-serpente na cena.
— Sim, têm razão, a Nag-serpente não aparece fisicamente na novela até a Parte Dois. Vestígios da existência da Nag-serpente, em seu sentido de doadora da vida e da morte, e do desejo, no entanto, aparecem na Parte Um. Os olhos do ser etéreo ou, mais corretamente, a essência do desejo simbolizada em seus olhos, permeia a Parte Um.
Na Parte Um, portanto, o Nag é identificado pela função e não pela presença. Na Parte Dois, como a maya, o Nag se manifesta em várias formas: a desejável Prostituta, a verdadeira nag-serpente que atua como juiz no calabouço, o negociante de trapos e ossos, o Bugam Dasi, a esposa adulta do narrador que perdeu toda a sua atração, e a síntese Prostituta/Nag/negociante de trapos e ossos na câmara da cama da Prostituta. A transformação do narrador no negociante de trapos e ossos, portanto, é o ápice de sua dominação da Prostituta. Indica que ele está livre da roda da vida. Agora pode sentar-se debaixo do cipreste e passar julgamento, distribuir a vida e a morte e supervisionar a exibição suja que conhecemos como criação.
Na Parte Dois, a única coisa com que tem que lidar é a essência do desejo simbolizada na Prostituta. Mas a Prostituta, a experiência anterior demonstrou a ele, não é nada além do desejo que está alojado dentro de si mesmo. Assim, ele se propõe a identificar, isolar e eliminar aspectos de seu próprio ser: o desejo sexual (a Prostituta corpórea), o desejo de matar (instinto de açougueiro), o desejo de governar (negociante de trapos e ossos), o desejo de guiar (babá), e outros. Em termos da Parte Um, quando estes instintos são eliminados, ele está no nível de quando abriu a mala "morta" e deu uma última olhada. Recordemos que apenas os olhos o encararam, ou seja, eram as únicas coisas que o estavam detendo. Ele então, com total concentração, entra na câmara escura e elimina os olhos. Ao contrário da vez anterior, ele desarma a Prostituta e não permite que ela mine sua concentração. Escusado será dizer, quando ele alcança a Prostituta na câmara, os olhos da Prostituta perderam todo o seu brilho. Acreditamos ter dito mais do que queríamos dizer, mas tudo bem.
(Iraj Bashiri)