Permanência e Impermanência ou Corpos Mortais

Permanência e Impermanência ou Corpos Mortais

No capítulo um do Catuhsataka, Aryadeva se preocupa em demonstrar como e por que as pessoas deveriam parar de acreditar na ilusão da permanência. Interpreta-se a crença na permanência como o desejo pela imortalidade e usa-se o corpo humano para explicar a verdade da impermanência. A natureza impermanente do corpo humano é visível nas mudanças que ocorrem conforme envelhece, torna-se decrépito e, inevitavelmente, morre. Candrakirti sustenta em seu comentário sobre o Catuhsataka que a crença na imortalidade, seja definida como vida eterna entre os deuses ou como a continuidade da vida por meio da procriação de filhos, está baseada no erro. Acredita-se erroneamente que se possa trapacear a morte ao propiciar deuses ou ao gerar filhos.

A porta para a imortalidade ou o estado sem morte que o Buda abre em seu ensinamento conduz para longe da vida doméstica do casal em direção à vida monástica de monges e monjas celibatários (Vin I. 5). O Buda convoca seus discípulos a romper laços familiares e sociais antigos e a entrar em novos relacionamentos que não são determinados por nascimento e classe. Esses novos relacionamentos são livremente escolhidos, e a comunidade Budista funda-se em uma visão compartilhada de uma vida religiosa que é marcadamente diferente da vida ideal exaltada em textos religiosos dos bramanes. O ensinamento do Buda desenvolveu-se em resposta às visões mantidas por outros mestres religiosos de seu tempo, muitos deles bramanes. A dominância da classe sacerdotal bramane no discurso religioso e filosófico era igualmente forte nos séculos durante os quais o pensamento madhyamaka se desenvolveu. Embora as fontes de que dispomos para compreender a visão de mundo bramane reflitam a perspectiva estreita de uma elite masculina de classe alta, elas fornecem o pano de fundo contra o qual os budistas definiram seu próprio valor religioso mais inclusivo.

Four Illusions. Candrakirti's Advice for Travelers on the Bodhisattva Path. Translation and Introduction by Karen C. Lang. Oxford University Press, 2003


Permalink: https://philosophia.hyperlogos.info/blogpost382-Permanencia-e-Impermanencia-ou-Corpos-Mortais