O episódio das Sereias é também um dos altos lugares da interpretação filosófica dos mitos homéricos. Antes de o examinar de mais perto, é preciso observar que a tradição filosófica nem sempre compreendeu esses personagens como seres negativos que estão na célebre página da Odisseia. Assim, os Pitagóricos, reunidos nisso por Platão no mito de Er no livro X da República, fizeram das Sereias seres que simbolizam harmonia celeste na rotação das esferas : elas guiam as almas rumo a sua estada última quando se separam do corpo. Plutarco subverteu até o sentido do episódio homérico : segundo ele, a música das Sereias desperta nas almas ainda encarnadas a nostalgia da pátria perdida à qual aspira Ulisses com fervor, enquanto homens vulgares tem cera nos ouvidos e estão ensurdecidos por suas paixões : « Tal alma, de uma natureza melhor, escuta e se lembra : e o que ela experimenta lembra os mais furiosos amores : deseja, aspira, e não pode arrancar do corpo . »
Assim sendo, se segue-se com o texto de Homero, está claro que as Sereias são exatamente seres terríveis, cruéis e sanguinários, e que o poeta sublinha ainda mais, não obstante sua curiosidade, a desconfiança de Ulisses quanto a seu despertar à música celeste das Sereias. Deste ponto de vista, como bem o apresentou Pierre Courcelle, é notável que o episódio esteja representado com frequência nos sarcófagos romanos à partir do século III PCN, deixando entender que esse mito cifra um simbolismo funerário.
Na tradição filosófica, os cristãos retomaram esse complexo simbólico. Assim, en 386, no prólogo de 'De beata vita", santo Agostinho desenvolve longa alegoria sobre a viagem rumo ao porto da sabedoria, onde explica que a Necessidade embarcou os homens na vida e que sua conduta aí varia, segundo navegarem rumo a terra firme da vida bem-aventurada ou se desviando disso para se aventurar em pleno mar, viajar longe da pátria e se deixar levar à diferentes seduções antes de encontrar bons ventos. Aplica notadamente à sua própria existência esta alegoria de uma navegação caótica, que conclui assim : « Não podendo suportar mais longo tempo o fardo de uma profissão que me faria talvez viajar rumo às Sereias, larguei tudo e conduzi minha barca, em bem mal estado e vazando água, rumo a tranquilidade tão desejada ».
Dez anos mais tarde, Paulino de Nola radicaliza a interpretação filosófica e agostiniana do mito em carta à Jovius, incluindo a prevenção contra as Sereias, que provocam esquecimento da pátria e naufrágio da salvação, « perversa doçura das cartas inúteis », incluindo aí precisamente aquelas dos filósofos. É necessário ser em relação a eles mais prudente ainda que Ulisses, tapar não só orelhas, mas também olhos, e fazer de modo que a alma os supere voando e os olhos fechados, a partir de então, contrariamente ao olhar aberto dos neo-platônicos. A leitura filosófica é aqui proscrita ; heroização pela cultura é um erro funesto. Nesta ocorrência, Paulino de Nola ecoa a velha condenação das Sereias, denunciadas por Cicéro como símbolos da concupiscencia do espírito, "discendi cupiditas", que desvia o prudente de sua pátria por vã curiosidade . Sobre os sarcófagos, a Sereia em relevo representaria os filósofos e os letrados em geral, aos ensinamentos dos quais o defunto renunciou para navegar rumo ao céu , a patria verdadeira.
Quando esse simbolismo filosófico deixou de ser compreendido, o jogo alegórico no entanto permitiu ao episódio das Sereias de se manter na tradição cristã. É que as Sereias estão mencionadas nas Escrituras, entre outros animais fantásticos, notadamente nos Salmos e textos proféticos, o que levou os comentaristas cristãos à lhes reconhecer a existência e a as descrever : assim, por exemplo, Ambrósio de Milão ou São Jerônimo quem, em seus Comentários sobre o profeta Isaías, as representa notadamente como pássaros providos de plumagem, tais como aparecem sobre os sarcófagos . A ideia fundamental que se retém do episódio é aquela do naufrágio no pecado que desvia a alma de sua salvação. A partir de então, toda cena deve ser interpretada em função do Salvador. Na exegese cristã, o barco já era há muito tempo figura da Igreja, e mastro, atravessado pela antena (verga) até seu topo, figura da Cruz. Ulisses amarrado ao mastro torna-se então figura do Crucificado ; a cera que tapa as orelhas é o ensinamento das Escrituras que previne contra tentações ; Sereias designam luxúria ; rochedo o corpo que amolda o vigor da alma no olhar das realidades espirituais.
(Paul-Augustin Deproost. Voyages intérieurs en Odyssée dans la pensée antique et chrétienne, 2014)