Além disso, existe precedente na literatura de Enoque para a noção de dois Melquisedeques, ou melhor, um único Melquisedeque em duas (ou mais) manifestações históricas. Na longa recensão de 2 (eslavo) Enoque há uma passagem notável que trata da figura de Melquisedeque. (Na edição de A. Vallant esta passagem compreende os capítulos 21-23; na tradução em inglês e comentário por W. Morfill e R. H. Charles a passagem é impressa como um apêndice, não considerado uma parte essencial do texto de 2 Enoque.) Nesta passagem uma criança nasce milagrosamente da cunhada de Noé recentemente falecida, e a criança, marcada no seu peito com um selo sacerdotal, fala e louva a Deus. O menino é nomeado “Melquisedeque” por Noé e o seu irmão Nir, cuja esposa tinha sido assim milagrosamente e postumamente entregue. Numa visão noturna é dito a Nir sobre a iminente inundação, e ele também é informado de que o arcanjo Miguel trará Melquisedeque para o céu. Melquisedeque será o chefe dos sacerdotes entre o povo e no fim dos dias será revelado mais uma vez como o sacerdote chefe. Assim Melquisedeque, neste texto, tem três diferentes manifestações: milagrosamente nascido antes do Dilúvio, servindo na idade pós-diluviana como um grande sacerdote, e funcionando como um sacerdote no tempo final, ou seja, em uma capacidade messiânica. (Sobre este texto vejam I. Gruenwald, "A imagem messiânica de Melquisedeque,” pp. 90-92.) Que esta tradição surgiu em círculos judaicos antigos é mais provável (assim Gruenwald; cf. também Delcor, "Melquisedeque,” pp. 127-130; para uma visão contrária vejam Milik, Os livros de Enoque, pp. 114-115), embora existam também em alguns manuscritos de 2 Enoque adições cristãs secundárias (isoladas por Vaillant na sua edição como o trabalho de um revisor).
Estes textos da literatura judaica de Enoque, portanto, fornecem suporte para a interpretação avançada acima, que em Melquisedeque a figura de Melquisedeque aparece em um papel duplo: como sacerdote antigo e recipiente de revelações celestiais do futuro escatológico, e como sacerdote salvador escatológico identificado com Jesus Cristo.
É preciso salientar que a identificação, Melquisedeque = o Filho de Deus (= Jesus Cristo), é sabido que foi feita em alguns grupos cristãos antigos, especialmente no Egito. De acordo com Thomas de Marga, “quando a heresia dos Melquisedequianos eclodiu em Scete na terra do Egito através dos monges desprezíveis que disseram que Melquisedeque era o filho de Deus, embora houvesse doutores e bispos famosos naqueles dias, no entanto Teófilo, Bispo de Alexandria, permitiu ao abençoado Macário, um monge, fazer refutação deste erro: e aquele homem sagrado de fato o fez, e manifestou a tolice das suas opiniões” (Livro dos governadores, ed. Budge, vol. 2, pp. 94-95, citado em Evelyn-White, Os monastérios do Uadi n Natrun, vol. 2, p. 116). No Apophthegmata Patrum existe uma história sobre um velho visionário que acreditava que Melquisedeque era o Filho de Deus, e que foi por fim corrigido nas suas visões pelo arcebispo Cirilo de Alexandria (Apophth. Patr., PG 65,160; ed. copta Chaine, cap. 176; a versão síria da história atribui a correção das visões do velho homem ao arcebispo Teófilo, Budge, Paraíso, vol. i, p. 273). Isso está de acordo com o relato de Epifânio de que existem aqueles “mesmo na verdadeira igreja” que consideram Melquisedeque como o Filho de Deus (Haer. 55.7.3; para outros exemplos vejam esp. Stork, Os assim chamados Melquisedequianos, pp. 53-68).
Estamos agora em posição de apresentar uma análise resumida da fenomenologia da figura de Melquisedeque no nosso tratado:
1) Melquisedeque é um antigo “Sacerdote de Deus Altíssimo” ;
2) Melquisedeque é um “sumo-sacerdote” escatológico ;
3) Melquisedeque é um “guerreiro sagrado” escatológico.
(Birger A. Pearson)
Nag Hammadi - Codex IX, I pp.30-31