A tradução grega do Antigo Testamento, dita Septuaginta, elaborada nos século II e III antes de Cristo, respondia às necessidades ressentidas pelos Hebreus da Diáspora de se ter uma versão grega dos Livros Santos. Estava igualmente destinada à fazer conhecer a Lei aos gôyîm, « nations » de língua grega. Feita pelos Hebreus helenizados de Alexandria, esta tradução devia inevitavelmente sofrer Influências helenísticas apesar da hostilidade do Judaísmo rabínico ao olhar de tudo o qu vinha dos Gregos. Também aí se encontra notadamente alguns termos tomados da mitologia grega, entre os quais figura o da Sereia. Essa palavra foi de fato usada para traduzir seja o hebreu thannim, plural de than, um dos nomes do chacal, seja hebreu (palavra-hebreu) Yà ãnâh , avestruz.
Se bem que existia em grego termos precisos para denominar esses dois animais – στρoυθoς designa avestruz em Heródoto e entre Xenophon, e θως, geralmente identificada com chacal, já é questão em Homero – essa escolha não nos pareceu ter sido feita ao acaso, as duas palavras hebraicas implicam algumas relações – próximas ou distantes – com a noção grega de Sereias. Assim chacal era tido por gênio das lamentações por causa de seu grito pungente, a semelhança de qualquer modo, das Sereias chorosas dos túmulos. Animal carniceiro, era também considerado como « mensageiro da morte » . Podia-se mais facilmente o confundir com um demônio que antiga crença greco-oriental fazia passar a viagem rumo ao Hadès pela "garganta (geogr.) deserta" (passagem para o mundo inferior) , morada tradicional dos espíritos maus na demonologia judaica. Avestruz, « filha do deserto », podia igualmente ser localizada e uma Sereia mais pássaro que mulher era, o caso mutante, suscetível de se substituir sem demasiada verossimilhança. O termo thannim, chacais, idêntico ao plural de thannin, mostra marinho/dragão/serpente, podia ao contrário, por uma confusão bem compreensível, sugerir uma aproximação com as Sereias insulares da Odisseia. Além disso, o parentesco da Sereia popular grega com o demônio feminino Lilith que se localizava tanto no deserto quanto no mar, favoreceu ainda a contaminação. Habitualmente figuradas todas duas como mulheres-pássaros fortemente sexualizadas, eram temidas pelo povo pelas mesmas razões : seu vampirismo e sua lascívia de demônios íncubos. É sem surpresa que se as vê alhures associadas em Isaías (Es., 34, 14) e no Apocalipse de Baruque (Apoc. Bar., 10. 8). É assim que as conotações eróticas e nocturnas da Sereia grega, aparentada com Lilith, facilitaram paradoxalmente sua adoção, pela Septuaginta, como tradução dos termos hebreus significando « chacais » e « avestruzes » ! Inevitavelmente, a passagem da animalidade ao monstruoso entranha uma acentuação de caráter demoníaco. Ao chacal, percebeu-se as vezes como espírito das lamentações, foi substituída a Sereia, verdadeira « demônio » no sentido que lhe atribuíam a Septuaginta. Se com efeito a palavra δαιμων (daimon), de importação grego, foi usada para traduzir cinco termos hebreus diferentes , reenvia sempre à um conceito bem definido ao qual se atribuem aqui as Sereias : aquele de demônio pernicioso, cruel, voluptuoso, que mora habitualmente em lugares desertos, entre fantasmas noturnos e animais fantásticos.
La sirène dans la pensée et dans l'art de l'Antiquité et du Moyen-age Jacqueline Leclerc-Marx
Les Sirènes dans la Bible et les Livres apocryphes