Os Nagas e o Buda

Se examinarmos a literatura budista, descobrimos que nas lendas relativas à vida de Sakyamuni os Nagas desempenham um papel tão proeminente quanto na tradição bramânica. Nesses escritos, no entanto, aparecem-nos em um aspecto essencialmente diferente daquele apresentado pela Grande Épica. Há uma tendência acentuada na tradição budista em enfatizar e exemplificar por meio de muitas histórias edificantes o fato de que os antigos deuses, mesmo Brahma e Sakra, eram inferiores e subservientes ao grande Sábio da tribo Sakya. O mesmo se aplica aos Nagas. Os temidos demônios-serpentes são geralmente representados como devotos adoradores do Buda. É verdade que muitas vezes têm que ser convertidos: começam por ser ferozes e rebeldes. Mas assim que se submetem à santa influência do Mestre, tornam-se permeados por sua gentileza que tudo penetra e abandonam seus hábitos selvagens. Aceitam a doutrina e abandonam a prática de fazer mal a outras criaturas. Nem deuses, nem homens, nem animais podem resistir à santa influência do Abençoado: assim os Nagas também, que na realidade combinam a natureza destas três classes de seres, são conquistados por sua palavra.

Uma das primeiras histórias de cobras preservadas nas escrituras budistas relata o confronto do Buda com uma serpente selvagem na sala de fogo dos irmãos Kasyapa de Uruvilva. Durante toda a noite o Buda e o Naga lutam um contra o outro com o fogo mágico (tejas) que emitem de suas pessoas. Por fim, o fogo do Buda se mostra mais forte que o da cobra, e a última é capturada na tigela de esmolas do Buda. Nesta antiga história o Naga, além de sua propriedade mágica de cuspir chamas, não é nada além de uma cobra. Não possui qualidade humana, e não tem nem nome nem o poder da fala. Nas inúmeras representações escultóricas desta cena encontramos o Naga invariavelmente representado como uma cobra — geralmente com várias cabeças para indicar sua natureza demoníaca.

Um Naga deste tipo, no entanto, é excepcional nos Escritos Budistas. Normalmente as qualidades humanas predominam, e o Naga até se torna um ser humano possuído com aquelas virtudes morais que são especialmente elogiadas nos ensinamentos do Sangha.

Lado a lado com a história do dragão que cospe fogo de Uruvilva, há a lenda de Muchilinda, o rei Naga, que abrigou o Buda durante sete dias contra a chuva e o vento, espalhando sua capela de cobra como um dossel sobre a cabeça do mestre.

(J. Ph. Vogel)


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