Quando me encontro em silêncio, é frequente sentir grande plenitude. Quando me preparo para falar, acontece, pelo contrário, sentir algum vazio.
O passado morreu. Essa morte, para mim, é um Nirvana. Perante este, sei que o passado era vivo. A vida que morreu decompôs-se já. Essa decomposição, em meu entender e sentir, é um Nirvana. Perante este, sei que a vida já morta é mais do que o mero nada.
A lama da vida é esquecida, como abandonada em terra onde não crescem árvores. Apenas ervas silvestres. Eu sou o culpado.
As ervas silvestres não tem raízes profundas, nem são belas as suas folhas e flores. Mas absorvem o orvalho, a água, bem como o sangue e o corpo dos que morrem no seu seio. E cada erva sobrevive na sua luta. Enquanto vivas, correm as ervas silvestres muitos perigos, porque pisadas, cortadas, maltratadas até a morte e ao apodrecimento.
Eu amo as minhas ervas silvestres e detesto este chão que as usa como enfeite.
Desejo que a morte e a decomposição destas ervas silvestres, aos amigos e aos inimigos, aos homens e às bestas, aos amantes e aos que não amam, cheguem depressa. Se assim não fosse, nem saberia se vivi realmente, destino bem pior que a própria morte e decomposição.
(LU XUN. Ervas silvestres. Tradução: Luis G. Cabral. Lisboa: Cotovia : Fundacao Oriente, 1997.)