B. GUILLEMAIN. — [...] Há entre nós alguém que poderia dizer algumas palavras sobre as confrarias de construtores na Índia?
PHILIPPE LAVASTINE. — Sim, certamente. Em 1932, o Dr. Heine Geldern publicou um estudo que deu origem a numerosos trabalhos: Concepção do mundo e arte de construir no sudoeste da Ásia. Ali se vê que os construtores possuíam sua própria cosmologia. Faziam descer a “Jerusalém celeste”, a cidade dos trinta e três deuses. É isso Angkor. Durante trinta anos, Paul Mus, no Collège de France, estudou essa maçonaria asiática.
R. ALLEAU. — Heine Geldern é partidário da origem mesopotâmica.
P. LAVASTINE. — Sim, tudo isso vem da Mesopotâmia: a torre de Babel, caluniada na Bíblia, onde se trata de demolir a civilização dos antepassados de Abraão. Este se insurgiu contra seu pai e contra toda a tradição mesopotâmica para fundar a nova tradição da qual surgiram Israel, o Islã e o Cristianismo — que são contestadores modernistas em relação à grande tradição mesopotâmica. É preciso reencontrar esta última, se se deseja aproximar-se da Tradição primordial.
M. de GANDILLAC. — O Templo de Jerusalém pertence a essa tradição antibabilônica? É uma questão que não é destituída de interesse em relação aos vínculos mais ou menos lendários da Maçonaria com a construção do Templo por Hiram.
B. GUILLEMAIN. — As lendas sobre o Templo de Salomão não são apresentadas como históricas. Aliás, isso nos levaria demasiado longe...
M. de GANDILLAC. — Temeis apenas que isso nos leve demasiado longe, ou trata-se de um segredo que não pode ser revelado ao profano?
R. ALLEAU. — Pode perfeitamente ser dito. Apenas, em certos casos, não se estudam suficientemente os textos, e especialmente os textos latinos. Por essa razão, não se consultam os comentários sobre Ezequiel a propósito do Templo de Jerusalém. Houve trabalhos notáveis sobre esse tema no século XVII. O jesuíta Villalpando, de Córdoba, escreveu dois volumes in-folio sobre a simbólica do Templo de Jerusalém (Comentários sobre Ezequiel e sobre o Templo de Salomão, 1620). Jamais foi traduzido.
P. LAVASTINE. — Na base da maçonaria asiática encontra-se a cosmologia, uma cosmologia que o nosso espírito científico é incapaz de compreender. Dever-se-ia antes dizer que o espírito científico destruiu completamente uma certa maneira de abordar o cosmos. Na antiga Índia, tudo se fundamentava em uma cosmologia tradicional, e eu gostaria de colocar a seguinte questão: “Vós, maçons, conseguis defender um certo espírito tradicional contra o pensamento científico, que considera ridículas as cosmologias pré-científicas? A ciência, afinal, não nos trouxe nenhuma cosmologia; trata-se apenas de uma batalha entre hipóteses cosmogônicas.”
[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]