Carregando...
 
Skip to main content
id da página: 2202 Evangelho de Tomé - Logion 4

Evangelho de Tomé - Logion 4

Jesus disse: O homem maduro não deixará de interrogar durante seus dias a uma criança de sete dias a respeito de seu lugar na vida e ele viverá. Saberá que muitos dos primeiros serão últimos e que estes serão unificados.
Jesus disse: O velho não hesitará em interrogar uma criança de sete dias a respeito do Lugar da Vida, e viverá. Muitos dos primeiros se farão últimos e eles serão Um. Jean-Yves Leloup

EVANGELHO DE JESUS: Reino dos Pequeninos; Últimos Primeiros



Roberto Pla

Dedicação ao Cristo interior

Nascimento desta consciência crística e sua infância, seus primeiros passos.

A revelação deste grande mistério na resposta à consulta de Nicodemos a Jesus (v. Nascer do Alto). Nicodemos, é dito, e não arbitrariamente que aproxima-se de Jesus de noite, o que significa necessitado, "vazio" de conhecimento. Ao final das contas esta expressão figurada, usada repetidas vezes pelos escritores testamentários, foi autorizada pelo primeiro autor do Gênesis: « E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas. E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro. » — Gen 1:4-5.

Jesus abre sua grande lição mistérica com a afirmação de que é possível — não em sentido figurado, mas natural — experimentar um segundo nascimento, ou "regeneração" interior, nascimento «do alto», único sucesso que fará possível contemplar (ver) e integrar-se (entrar) no Reino de Deus. O que diz Jesus é que o Reino de Deus está dentro de nós e que sua revelação à consciência pura é possível. Para que tal coisa ocorra, é necessário passar antes por duas sérias e às vezes prolongadas experiências: primeiro, pela purificação que vem dispensada pela persistente imersão ou banho batismal, quer dizer, pela prática de conversão (ou metanoia), nas águas revoltas das tendências psíquicas e depois — quando tais águas começam a nos liberar da noite escura da alma — graças à chuva sustentada das línguas de fogo "derramadas pelo Espírito Santo em função de Paracleto, o qual transmite em forma de conhecimento de Deus, a sabedoria do Filho do Homem, o Cristo interior. Por isso diz Jesus que há que nascer "de água e de Espírito".

A resposta popular ante a explicação deste mistério é aquela dos que não creem na Boa Nova, e falam como Nicodemo: "Pode por acaso entrar outra vez no seio de sua mãe e nascer?" Mas Jesus não fala dos "nascidos de mulher", mas do nascido do Espírito.

Não há dúvida que este revelação era conhecida e ensinada em Israel, pois do contrário não teria sentido o questionamento de Jesus: "Tu é mestre em Israel e não sabes isto?"

  • E Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo que vós, que me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel. (Mt 19:28)


Com a locução "homem de anos" seguramente o logion só quer se referir a um homem adulto, especialmente a quem amadureceu em seu desenvolvimento espiritual e está pronto, por sua transparência de coração, a "respirar" as primeiras intuições do Ser e com elas a receber a consciência do Cristo Vivente. Será necessário crescer a fé no Cristo interior, para estabilizar o nascimento do alto, pois "O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito" (Jo 3,6), quer dizer, assim será possível em cada um o cumprimento da grande Promessa para esta geração que foi expressa com respeito a Davi: "O SENHOR jurou com verdade a Davi, e não se apartará dela: Do fruto do teu ventre porei sobre o teu trono" (Salmo 132,11).

Vide Reino dos Pequeninos

A referência ao pequenino de sete dias (sete vezes luz do espírito), responde a uma dessas formas figurativas usadas tradicionalmente pelo povo judeu para velar na penumbra poética o mistério, certas significações reais sob um peculiar traçado de números. Os números 12 e 7 são especiais neste sentido: doze = Conhecimento perfeito (epignosis) e sete = conhecimento imperfeito: Mt 13:11; Criação da instituição dos sete diáconos: Atos 6:5-7; Mc 8:14-21.

O conhecimento transmitido pelo nascido do alto, hóspede espiritual do homem maduro, só alcança o nível imperfeito do discípulo de "sete dias". Não obstante, este homem que interroga sobre o verdadeiro "lugar" na vida, poderá alcançar segundo este processo, a Vida eterna própria do Cristo interior. Assim é com os últimos a chegar (v. Últimos Primeiros), os nascidos do alto (v. Nascer do Alto), os cordeiros do sacrifício, ignorados por todos até que a consciência se desperta e os revela, serão os primeiros a chegar ao Reino de Deus, pois como está dito: Sal 118:22


Puech

Exploração de um tema bem conhecido: puer-senex, a criança com aparência de velho (ou inversamente), do personagem maravilhoso que é ao mesmo tempo jovem e velho, ou, como o aion, ao mesmo tempo mais jovem e mais velho que ele mesmo sem ser em si nem um nem outro.

O acesso ao Reino, a restituição ao "Lugar da Vida", se opera por um retorno do "último" ao "primeiro", de um estado ulterior a um estado anterior, de um fim a um começo, realizando na confusão de um e de outro em um só e mesmo todo onde juventude e velhice são abolidas e absorvidas no seio de uma realidade única que é a Vida, a Vida eterna, autêntica.

VIDE Evangelho de Tomé - Logion 22


Leloup

O verdadeiro conhecimento não é acumulação de saberes mas frescor do olharinocência do coração.

A criança está mais próxima do Lugar da Vida, ainda não está toda na dualidade, nem verdadeiramente separada de sua mãe e do mundo; assim pode-se interrogá-la sobra a origem — o princípio.

A criança de sete dias simboliza o iniciado — aquele sobre o qual repousam os setes dons do Espírito, que nele realizou a união dos contrários — que tem juntos o princípio e o fim. Simboliza igualmente o retorno ao estado de não-condicionamento — pois, é na idade de oito dias que se é circunciso, recebendo o signo de pertencimento a uma religião e a uma sociedade.

Qualquer que seja nossa idade, nossa velhice, o peso de nossas memórias, o Evangelho nos convida a nos lembrar deste Pequenino que está em nós — Criança Divina, incondicionada — : deixá-la viver, para que possa lançar sobre o mundo o olhar fresco e alegre da Fonte.

«Se fazer o último», faz lembrar Lao Tze que aconselha ao homem a arte de ser inútil, «sem uso», não pretendendo saber, simplesmente observando, sendo testemunha tranquila do que é.


Emile Gillabert

O objetivo anunciado Evangelho de Tomé - Logion 1

O percurso esboçado Evangelho de Tomé - Logion 2

Percurso situado e precisado Evangelho de Tomé - Logion 3

Agora Jesus indica o espírito que deve me animar nesta busca: devo esquecer ter, saber, poder; devo ser como todo pequenino sem passado, sem projeto, sem personalidade a fim de reunir a Vida à fonte da manifestação, aí onde estava, onde sou Um.

Retorno ao estado de antes dos condicionamentos: o pequenino de sete dias; injunção de várias logia:


Karl Renz

Commentaries On The Gospel Of Thomas. Excerpts from the Marsanne talks, 2015

Somos este pequenino. Tentamos crescer, mas nunca conseguimos. Então, sejamos Isso que nunca cresce, porque não somos algo que possa crescer. Tudo o que pode crescer não é o que somos.

Isso aponta para este Conhecimento que nunca perdemos, porque não é um objeto que podemos perder. Não precisamos nos preocupar com isso ou fazer esforço para alcançá-lo. Este não-saber é nossa natureza, que não pode ser ganha ou perdida. Isso é liberdade. Mas para qualquer entendimento, qualquer posse, qualquer realização que podemos ganhar, tanto esforço! Então devemos preservar e polir aquelas pérolas de entendimento. Somos muito preguiçosos para isso, graças a Deus. Se precisamos deste Conhecimento, sejamos os mais preguiçosos, pois ele nunca faz nada.


Mas não é dito neste logion 4: “O homem velho em dias não hesitará em perguntar a uma pequena criança de sete dias sobre o lugar da vida, e ele viverá”?

Isso significa que não podemos dar iluminação. Nossa natureza não pode ser dada, isso é tudo. O que é Shiva, nossa natureza, sempre quer brincar, então vai brincar. Quando a Gratia acontece, é para nos decapitar, quer desfrutemos do jogo ou não, e não porque estamos prontos ou porque não queremos mais jogar. Ela vem de surpresa e não por nossos desejos. E se alguém quiser nos dar, ha-ha, que tenhamos cuidado! Ninguém pode dar a Graça. Pelo contrário, quando a Graça vem, é mais como um estupro. Ela nos toma como nada. Pois a Graça não mostra misericórdia e nossa cabeça será cortada, quer queiramos ou não. Quando a época da colheita chega, o milho não tem nada a dizer. Ninguém nos perguntará: Estamos prontos, vocês gostariam?

Não, somos Isso que é Graça e a Graça não pode decidir o momento em que mostrará sua falta de misericórdia e rasgará tudo o que pode ser rasgado. O véu será rasgado quando for rasgado, porque por natureza não há necessidade de que nada se vá.

Com o exemplo da pequena criança, Jesus quer tirar tudo o que não é nossa Realidade atemporal e nos faz entender que não somos uma pessoa, mas o Absoluto.