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Louis-Claude de Saint-Martin

Todo ato da parte do Eterno constitui um centro com três ângulos

Todo ato da parte do Eterno constitui um centro com três ângulos.

O centro emanado é a imagem do ser produzido; os três ângulos, a imagem de suas faculdades ou potências.

Em todos os seres, nada há de fixo senão os centros.

Todas as suas potências são móveis.

O Ser supremo é o único cujas potências são tão fixas quanto o próprio centro.

A fixidez dos centros é representada pelo 1, pois é essa unidade que governa tudo em cada ser.

A mobilidade das potências é representada pelo 0 (zero), pois, nos números, esse zero não expressa senão as potências dos seres e não altera seu valor radical.

Quando o Criador formou o mundo por seis atos de pensamento, ou em seis dias, cada um desses dias foi a produção de um centro com seus três ângulos, isto é, de uma unidade com seus três ZEROS, ou, em suma, de um número MIL.

Cada zero indica uma potência que percorreu seu círculo e sua revolução; e é assim que as produções se apresentam ao pensamento do Eterno. Elas estão consumadas para Ele desde o instante de sua existência.

Os tempos foram resolvidos para Ele tão logo começaram. É o que chamamos de ano, da palavra annus, ANEL.

Esses três zeros, ou círculos de anos, precedidos de uma unidade (1), oferecem, portanto, mil anos ao pensamento do homem — e, com muito mais razão, ao do Eterno.

Cada ato chamado dia apresentava-lhe, em um ponto, o desenvolvimento dos mil anos que dele deviam decorrer; e, reciprocamente, esse desenvolvimento de mil anos não é para Ele senão um só dia, visto que Ele vê tudo em ato e em seu cumprimento.

[Louis-Claude de Saint-Martin, Des Nombres]

Privação de Sophia

O universo jaz em seu leito de dores, e cabe a nós, homens, consolá-lo. O universo está em seu leito de dores porque, desde a queda, uma substância estranha penetrou em suas veias e não cessa de perturbar e atormentar o princípio de sua vida; cabe a nós dirigir-lhe palavras de consolação que o incitem a suportar seus males; cabe a nós, digo, anunciar-lhe a promessa de sua libertação e da aliança que a eterna sabedoria vem contrair com ele.

É um dever e uma justiça de nossa parte, pois é o chefe de nossa família quem foi a primeira causa da tristeza do universo; podemos dizer ao universo que fomos nós mesmos que o tornamos viúvo: não espera ele, a cada instante da duração das coisas, que sua esposa lhe seja restituída?

Sim, sol sagrado, somos nós a causa primeira de tua inquietude e de tua agitação. Teu olhar impaciente não cessa de percorrer sucessivamente todas as regiões da natureza; levantas-te a cada dia por causa de cada homem; levantas-te alegre, na esperança de que te restituam essa esposa querida, ou a eterna SOPHIA, de quem estás privado; cumpres teu curso diário pedindo-a à terra inteira com palavras ardentes nas quais se refletem teus desejos devoradores. Mas à noite deitas-te na aflição e nas lágrimas, porque em vão procuraste tua esposa; em vão a pediste ao homem; ele não te a restituiu e deixa-te ainda habitar nos lugares estéreis e nas moradas da prostituição (M.H.E., p. 55-56).

Terra vegetal

Deus está em toda parte, e não há um ponto sequer da atmosfera que não contenha a terra vegetal do jardim do Éden. ... O sentido de minha carta referia-se apenas à Sophia e ao corpo glorioso de que falei anteriormente; e sabe-se o suficiente para ver que essa é a verdadeira terra prometida ao homem. Isso não impede, contudo, que a expressão terra vegetal se estenda a todas as regiões. Assim, há a terra vegetal natural, que é a de nossos campos; há uma terra vegetal espirituosa, que é a do Elemento puro; há uma terra vegetal espiritual, que é a Sophia; há uma terra vegetal divina, que é o Espírito Santo e o Ternarium Sanctum (Cartas).

Que palavras poderiam fazer compreender

Que palavras poderiam fazer compreender o estado do pensamento do novo homem, quando se entrega à contemplação das obras da sabedoria e ao gozo dos inefáveis arrebatamentos que tomam sua alma, tão logo ela se aproxima da atmosfera da eternidade... (N.H., p. 144).

Nascido para o espírito

Embora o homem tenha nascido para o espírito, não pode, contudo, gozar das doçuras e das luzes do espírito senão à medida que começou por tornar-se espírito. Eis por que a sabedoria ativa e invisível faz descer continuamente seu peso sobre o homem, a fim de que ele reúna suas forças e seus princípios de vida espiritual. Além disso, essa sabedoria ativa e invisível não faz assim descer seu peso sobre o homem sem derramar em seu coração algumas dessas influências vivas de que é o órgão e o ministro, e entre as quais estabelece eternamente sua morada.

Quando assim preparou o homem, e este não contrariou seus desígnios, então ela transporta o espírito do homem para a morada dessa luz onde ele teve sua origem; e ali o homem se sacia longamente das doçuras que pertencem à sua existência; sacia-se delas sem perturbação e sem inquietude, como a própria sabedoria, porque, pelos cuidados que ela lhe prodigalizou, seu coração tornou-se puro como ela e independente dos movimentos tão incertos da frágil roda do tempo.

O superior e o inferior, encontrando-se para ele em perfeita analogia, fazem-no sentir que a paz que descobre nessas regiões invisíveis se encontra igualmente em si mesmo; ele não sabe se seu interior está nesse exterior divino, ou se esse exterior divino está em seu interior; o que sente é que tudo isso parece ser um só para ele, que todas essas coisas e ele próprio parecem não ser senão uma única e mesma coisa (Novo Homem, p. 291).

Oração

É, portanto, o sopro suave dessa sabedoria que desenvolverá no novo homem sua verdadeira oração, que é a ação natural de seu ser; pois essa oração não deve ter outro fim senão o de manter no homem a ordem, a segurança, a medida. Deve fazer com que o inimigo seja sempre mantido fora do recinto, que o coração do homem seja continuamente saciado nas fontes das águas vivas, e que seu pensamento seja como um foco onde as luzes divinas se reúnem para, em seguida, refletirem-se com maior fulgor (Novo Homem., p. 286).

Chamado

Por que Deus solicita assim o homem por tantos meios tão variados, tão repetidos, tão constantes e tão contínuos? É para que ele seja, em todos os aspectos, a imagem e a semelhança dessa eterna divindade; pois não basta, para essa semelhança, que o homem possa ler nas maravilhas da sabedoria; não basta que possa pintá-las e exprimi-las por suas obras; não basta que sua palavra possa repetir ao seu redor as obras dessa divindade suprema — é necessário que, como ela, possa exercer direitos semelhantes voluntariamente, e pelo privilégio sagrado de seu santo caráter, a fim de que, partilhando das potências de seu princípio eterno, partilhe também de sua glória, e seja assim a imagem real desse princípio, em vez de ser, como a natureza, apenas sua imagem figurativa (Novo Homem, p. 125).

Nascer em nosso centro

Quanto à Sophia, não há dúvida de que ela pode nascer em nosso centro. Não há dúvida de que o Verbo divino também pode aí nascer por esse meio, assim como nasceu por ele em Maria. Mas tudo isso se realizará espiritualmente para nós, e, se podemos senti-lo dessa maneira, jamais o vemos senão intelectualmente — linguagem não estranha àqueles que têm algum conhecimento das manifestações. Tudo o que se apresentar de modo mais físico e exterior não procederá de nós, nem de nosso próprio centro, embora este seja por isso elevado e alegrado. Assim, o Verbo, a Sophia e a própria Maria, que podem manifestar-se exteriormente, serão o Verbo, a Sophia e a Maria já plenamente formados antes de nós, buscando revivificar-nos e encorajar-nos em nossa obra pessoal, que consiste em realizar essas coisas em nós — não mais por uma geração em ser externo, como ocorreu na Mensch Werdung, mas pela renascença íntima de nós mesmos, que deve tornar-nos semelhantes a todos esses seres pela santidade, pela pureza e pela luz (Cartas).

Ceia

Seria de suma importância que a operação [da ceia] repetisse incessantemente aos fiéis estas palavras do instituidor: a carne e o sangue de nada servem; minhas palavras são espírito e vida, pois quantos espíritos a letra das outras palavras já matou! É necessário que, no oficiador, como em nós, a ideia e a palavra carne e sangue sejam abolidas, isto é, é necessário que remontemos, como o Reparador, à região do elemento puro, que foi nosso corpo primitivo e que encerra, enfim, a eterna SOPHIA, as duas tinturas, o espírito e a palavra. Somente a esse preço as coisas que se realizam no reino de Deus podem também realizar-se em nós (M.H.E., p. 283-284).

Duas sabedorias

É necessário, infelizmente, que a sabedoria, que por si mesma outrora devia proporcionar-nos tantas alegrias, se revista aqui embaixo das vestes do luto e da tristeza; é necessário, hoje, que submetamos nossa sabedoria ao sofrimento em vez de à alegria, porque o crime dividiu todas as coisas e fez com que existissem duas sabedorias. A segunda, ou a última dessas sabedorias, não é a vida, mas reúne a vida em nós e, por isso, coloca-nos em condição de receber a vida ou a sabedoria primitiva, fonte de toda alegria; é também essa sublime sabedoria primitiva que sustenta todas as coisas e que tudo cria. Eis por que ela é sempre jovem (M.H.E., p. 189).

Sabedorias que servem de espelho

Nada somos, e caímos no aniquilamento, se o movimento divino e a ação divina não forem constantes e universais em nós. (...) Assim, nossa junção com essa ação viva e vivificante é uma necessidade radical de nosso ser; além disso, essa mesma ação viva e vivificante é ainda a única capaz de satisfazer essa necessidade que ela mesma nos impõe; é também aquela que mais amplamente contribui para nossas verdadeiras alegrias, colocando-nos em condição de fazer nascer ao nosso redor tantas sabedorias quantas nos refletem os frutos de nossas obras e nos concedem, como a eterna sabedoria o faz em relação a Deus, a alegria de ver que elas são boas.

Pois todos os seres espirituais, e até mesmo os divinos, necessitam dessas sabedorias que servem de espelho a seu próprio espírito, assim como eles servem de espelho ao espírito da Divindade; e somente a classe animal e material não necessita desses espelhos, visto que não tem obras de sabedoria a produzir (M.H.E., p. 180-181).

Eterna sabedoria sempre virgem

É, portanto, desde o próprio momento do pecado que o coração de Deus humanizado, ou Jesus Cristo, foi concebido na imagem primitiva do homem e incorporado, com ela, em Seu eterno amor, ou em Sua eterna sabedoria sempre virgem, que não é a virgem humana. Sua concepção temporal, Sua incorporação no seio de Maria, Seu nascimento terreno e Sua morte corporal não são senão o complemento sensível dessa obra intelectual, viva e divina — embora esse complemento devesse realizar-se para que a obra atingisse seu termo, uma vez que o homem se havia contaminado com toda a heterogeneidade dos elementos (E.C., t. II, p. 188-189).

Virgem eterna ou Sophia

Assim, nada se conhece desse Reparador quando Ele é considerado apenas sob suas cores exteriores e temporais, sem que se remonte, pelas progressões da inteligência, até o centro divino ao qual pertence. Busquemos, pois, na diversidade dos caracteres de que Se revestiu, alguns meios de adequar à fraqueza de nossas luzes Sua homificação espiritual, que precedeu de muito Sua homificação corporal.

Foi necessário, primeiramente, que, sendo o princípio eterno do amor, Ele assumisse o caráter do homem imaterial, que era Seu Filho; e, para realizar semelhante obra, bastou-Lhe contemplar-Se no espelho da Virgem eterna, ou da SOPHIA, na qual Seu pensamento gravou eternamente o modelo de todos os seres.

Depois de Se tornar homem imaterial pelo simples ato da contemplação de Seu pensamento no espelho da Virgem eterna ou SOPHIA, foi necessário que Se revestisse do elemento puro, que é esse corpo glorioso submergido em nossa matéria desde o pecado.

Após ter-Se revestido do elemento puro, foi necessário que Se tornasse princípio de vida corporal, unindo-Se ao espírito do grande mundo ou do universo.

Depois de Se tornar princípio de vida corporal, foi necessário que Se tornasse elemento terrestre, unindo-Se à região elementar; e, a partir daí, foi necessário que Se fizesse carne no seio de uma virgem terrena, envolvendo-Se na carne proveniente da prevaricação do primeiro homem, pois era da carne, dos elementos e do espírito do grande mundo que Ele vinha libertá-los (Ministério do Homem Espírito, p. 275-276).

Sophia e Espírito Santo

O éter não é senão uma modificação dos elementos mistos e, como tal, não convém mais do que eles à morada do Espírito Santo. Julga-se que tudo foi dito, ao colocá-lo no elemento puro por intermédio da Sophia. Ele não pode habitar essencialmente em outro lugar, e o que dele se manifesta nos elementos mistos e no éter não passa de uma ramificação de suas potências, pelas quais tudo se move e existe no universo. Infelizmente, são influências corrompidas e muito inferiores, que permanecem em todas essas regiões elementares aéreas. Como nos diz São Paulo, isso não impede que nossa alma possa recebê-lo essencialmente do Espírito Santo, pois ela possui também a Sophia e o elemento pelo qual ele e nós podemos unir-nos — e mesmo sem respiração, a qual concerne apenas ao ser animal (Cartas).

Tendo Deus destinado o homem...

Tendo Deus destinado o homem a ser o aperfeiçoador da natureza, não lhe atribuíra tal destinação sem lhe ordenar que a cumprisse; não lhe dera a ordem de a cumprir sem lhe conceder os meios; não lhe concedera os meios sem lhe conferir uma ordenação; não lhe conferira uma ordenação sem lhe outorgar uma consagração; não lhe outorgara uma consagração sem lhe prometer uma glorificação; e não lhe prometera uma glorificação senão porque ele devia servir de órgão e de propagador da admiração divina, tomando o lugar do inimigo cujo trono fora derrubado e desenvolvendo os mistérios da sabedoria eterna (Ministério do Homem Espírito, p. 47).

Sabedoria eterna é o ar que Deus respira

A eterna sabedoria divina sustenta todas as produções da eterna imensidade em suas formas, em suas leis e em sua atividade vivente; o ar exerce o mesmo efeito sobre todos os seres da natureza, pois, sem ele, todas as formas se dissolveriam. A oração possui a mesma destinação e o mesmo papel em relação ao homem: deve fazer descer seu peso sobre todas as faculdades que compõem nossa existência e mantê-las em plena atuação, assim como a potência universal pesa incessantemente sobre todos os seres e os impele a manifestar a vida que possuem em si.

Essa sabedoria eterna é o ar que Deus respira; é una em suas medidas, o que faz com que a forma de Deus seja eterna. Nada tem a combater, nem trabalhos a suportar, ao contrário dessa sabedoria temporal de que necessitamos durante nossa travessia pelas regiões mistas (Obras Póstumas, t. II, p. 406-407).

Sabedoria e números

No mundo, não se sabe que ideia formar dos números. Para alcançá-la, nada mais há a fazer senão refletir sobre o que deve ser o princípio das coisas. Ele existe em seu peso, em seu número e em sua medida, isto é, no seio de sua sabedoria, que o acompanha por toda parte. Quando produz os seres, dá-lhes assim uma emanação de sua essência; mas dá-lhes também uma emanação de sua sabedoria, a fim de que sejam sua imagem. Assim, todos os seres, possuindo em si um raio da sabedoria suprema, possuem, por conseguinte, um raio de seu peso, de seu número e de sua medida (Obras póstumas, t. I, p. 244-245).

Caminhos fecundos da Sabedoria

Pois os caminhos da Sabedoria são tão fecundos que ela se transforma a cada instante para se ajustar a todas as nossas situações; e, se pela plenitude de suas faculdades ela abarca todos os tempos e todos os espaços, em qualquer posição em que nos encontremos, jamais pode deixar que se esgote a fonte de seus dons; e, por mais numerosos que sejam, todos têm a mesma unidade por princípio e por fim (Quadro Natural..., t. I, p. 182).

Sabedoria suprema

Sendo a Sabedoria suprema a fonte única de tudo quanto existe de verdadeiro, se nada pode ser que não proceda dela e que não a ela se relacione, desde que um Ser verdadeiro exista, ele é necessariamente à sua imagem. Ora, essa fonte universal, jamais suspendendo a ação pela qual se reproduz a si mesma, nunca deixa, por conseguinte, de reproduzir universalmente as suas próprias imagens. Para onde poderia o homem ir sem encontrá-las e sem estar delas cercado? Em que exílio poderia ser banido sem levar consigo alguma de suas marcas? (Quadro Natural..., t. I, p. 138-139).

Sophia não é precursora de Jesus na alma

Não se estará de acordo com Pordage quando este afirma que ela é a precursora de Jesus Cristo na alma, visto que ambos não podem aí advir senão conjuntamente, uma vez que é nela que Ele Se envolveu para Se incorporar no elemento puro e, a partir daí, descer à região dos elementos mistos e corruptíveis — ou ao seio de Maria —, a fim de poder, em seguida, através dessa morte que carregamos em nós, elevar consigo a alma humana purificada e regenerada em Sua vida divina. Contudo, estar-se-á de acordo com Pordage quando ele representa essa Sabedoria como não sendo um anjo, mas uma virtude angélica, superior a todos os espíritos dos anjos e dos homens.

Assim, não é possível considerá-la como o espírito do Reparador de que fala Paulo (Rom., cap. 8, § 9), pois esse espírito do Reparador é Deus, assim como o próprio Reparador; é, em suma, a luz divina que ilumina todas as maravilhas da imensidão divina, ao passo que a Sabedoria é apenas o vapor ou o reflexo delas. Ela deixa passar por si todas essas maravilhas e é propriamente a conservadora de todas as formas dos espíritos, assim como o ar é o conservador de todas as formas materiais. Ela habita perpetuamente com Deus, e, quando a possuímos — ou, mais precisamente, quando ela nos possui —, Deus também nos possui, visto que são inseparáveis em sua união, embora distintos em sua natureza (Cartas).