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Wei Wu Wei

Por que és infeliz? Porque 99,9% de tudo que pensas, e de tudo que fazes, é para ti mesmo – e não há um ti mesmo. (Wei Wu Wei)

Tudo mais é apego

Tr. Antonio Carneiro

A Doutrina é a doutrina da não-doutrina,
A Prática é a prática da não-prática,
O Método é meditação pela não-meditação
E Cultivação que é cultivação pela não-cultivação.

Esta é a Mente da não-mente, que é wu hsin,
O Pensamento do não-pensamento, que é wu nien,
A Ação da não-ação, que é wu wei,
A Presença da ausência da Volição,
Que é Tao.

Ninguém existe de outra forma que não na 'realidade'

Alguns afirmam de maneira espirituosa que "Ninguém existe na 'Realidade', mas sim no conceito."

Eu preferiria que se dissesse: "Ninguém existe de outra forma que não na 'realidade' (coisa-em-si) e, portanto, existe no conceito."

Sendo a 'Relatividade' a única realidade (coisa-em-si) que podemos conhecer, 'existir' é ao mesmo tempo relativo e real, ou seja, meramente conceitual. O Ser, ao contrário, é Absoluto e, portanto, relativamente nem é nem não-é.

Mas quando sabemos que a relatividade é apenas o aspecto relativo do 'absoluto', assim como o absoluto é apenas a totalidade de sua própria 'relatividade', tais questões dificilmente surgem.

Então, sendo todas as 'coisas' relativas, nem sendo nem não sendo Absolutas, pouco resta sobre o que possa haver discordância.

Quem está ciente (aware)?

Quem está ciente [aware]
que eu-mim pensa
que eu-mim percebe
tudo o que parece perceber,
e sabe tudo o que parece saber?

Quem está eternamente ciente
de tudo o que eu-mim pensa
que eu-mim faz,
acordado ou dormindo,
de seu 'nascimento' até sua 'morte'?

Quem está ciente de que eu-mim pensa que eu-mim está ciente?

Nota: O encontrar é o buscar.

Nada conceitual poderia apreender o que não fosse conceito

Um corpo pode ser preso com correntes, uma psique pode ser presa por complexos, um fenômeno conceitualizado pode ser preso, ou seja, pode se considerar preso, e todos podem ser libertados — pois “escravidão” e “libertação” também são conceitos relativos.

Mas nada conceitual poderia prender qualquer coisa que não fosse um conceito. Eu não posso ser nada, pois não posso ser concebido, então como eu poderia estar preso? A “proposição” não pode sequer ser colocada, pois não faz sentido.

Nenhuma qualificação relativa pode ser colocada sobre o eu puramente nominativo.

As pessoas pensam, e até sustentam, que podem considerar o “eu” como um conceito, mas estão enganadas: o erro se deve a um abuso de linguagem. Não posso ser um conceito porque não posso conceber o que está sendo concebido. O que as pessoas concebem é “eu”, assim como concebem “você”, ambos objetos, e em ambos os casos confundem o objeto com o sujeito, mas o sujeito não pode conceber o sujeito exceto como um objeto — o que ele não é e nunca poderá ser.

Este simples exemplo explica o mecanismo da falsa noção concebida como 'prisão', que nada mais é do que confundir um objeto conceitual e relativo, um 'eu' fenomênico, com o 'Eu' numenal e absoluto.

Sou notoriamente invulnerável simplesmente porque nada na fenomenalidade conceitual pode alcançar o que-eu-sou, pois já sou tudo o que isso é! Não há dois objetos envolvidos que possam afetar um ao outro.

Além disso, como poderiam objetos fenomenais estendidos no espaço-tempo conceitual alcançar qualquer tipo de contato com aquilo que é sem espaço e atemporal? Para haver contato, dois objetos são necessários, e apenas objetos se estendem no espaço-tempo.

Objetos são manifestações fenomenais na mente daquilo que numenalmente eu sou; portanto, tudo o que eles podem ser é o que eu sou, e eles não podem, nem precisam, entrar em contato com tudo o que já são, sempre foram e sempre poderiam ser. 'Contato' é um conceito relativo que, como todos os conceitos relativos, é inaplicável ao absoluto.

A noção de 'eu' e 'você' sendo de alguma forma diferentes ou separados daquilo que são, que eu sou, é insustentável mesmo dentro da lógica da relatividade, dentro das limitações nas quais 'nós' estamos confinados nestas discussões.

Portanto, um ‘Eu’ conceitualizado não é Eu de forma alguma! E isso acontece porque eu sou a fonte e a origem de tudo o que parece ser, incluindo o próprio processo de conceitualização. Portanto, eu não posso ser conceitualizado, pois não posso conceitualizar o que está conceitualizando, o que, em última instância, eu sou.

O que há de aparentemente ‘misterioso’ em tudo isso, nesta tão simples e óbvia existência? De fato e certamente, como, e de que outra forma, poderia ser diferente?

Permita-me citar o grande Huang Po:

Pergunta — "O Buda realmente liberta os seres sencientes?"

Resposta — "Factualmente, não há seres sencientes a serem libertados pelo Thathagata. Se até mesmo o ‘eu’ não tem existência objetiva, quanto menos teria ‘algo que não seja eu’!"

Assim, nem ‘Buda’ nem ‘seres sencientes’ existem objetivamente... Asseguro-lhe que todas as coisas foram livres da prisão desde o princípio.”

Não há ninguém a ser ‘libertado’, pois apenas um objeto poderia parecer estar ‘preso’.

E a “liberação” é a liberação da noção de que há algo a ser “liberado” — que é a noção de ser “mim mesmo” em vez de ser “eu”.

Que diferença poderia haver entre 'viver' e 'morrer'?

Que diferença poderia haver entre 'viver' e 'morrer'? 'Viver' é apenas a elaboração em duração sequencial daquilo que, de outra forma, é conhecido como 'morrer' [a cada instante há morrer-renascer].

Quando o Que-somos funciona, estendendo-se em três aparentes dimensões espaciais e outra que as interpreta como duração, juntas conhecidas como 'espaço-tempo', há o que chamamos de 'vida'. Quando esse processo cessa, não estamos mais estendidos em duração sequencial, não somos mais elaborados no 'espaço', o 'espaço-tempo' deixa de existir e o aparente universo desaparece.

Então dizemos que estamos 'mortos'.

Mas como isso que somos, nunca 'vivemos' e não podemos 'morrer'.

Onde poderíamos 'viver'? Quando poderíamos 'morrer'? Como poderia haver tais coisas como 'nós'? 'Viver' é uma ilusão espacial, 'morrer' é uma ilusão temporal, 'nós' somos uma ilusão espaço-temporal baseada na interpretação serial de 'quadros' ou 'quanta' dimensionais cognizados como movimento.

Somente os conceitos de infinito e intemporalidade podem sugerir intelectualmente uma noção do que somos como a fonte e origem da aparência ou manifestação.

The Non Dual Philosophy of Wei Wu Wei by Roy Melvyn

Ver simples

É certamente axiomático que um fenômeno (uma aparência, um objeto) não pode realizar qualquer ação por sua própria iniciativa, como uma entidade independente. Na China, isso foi ilustrado por Chuang-tzu em sua história da porca que morreu enquanto amamentava seus leitões: os porquinhos simplesmente a deixaram porque sua mãe não estava mais lá. Na Europa, mesmo naquela época, a mesma compreensão é expressa pela palavra animus, que "anima" o aspecto fenomenal dos seres sencientes, e isso forma a base da maioria das crenças religiosas. Mas enquanto no Ocidente o "animus" era considerado pessoal a cada objeto fenomenal, sendo a senciência dele, no Oriente o "animus" era chamado "coração" ou "mente" ou "consciência", e no budismo e vedanta era considerado impessoal e universal, "Mente-Buda", "Prajna", "Atman" etc.

Quando esta "mente" impessoal entra em manifestação, objetivando-se como sujeito e objeto, ela se torna identificada com cada objeto senciente, e o conceito de "Eu" surge assim nos seres humanos, pelo qual o mundo fenomenal, como o conhecemos e vivemos, parece ser o que chamamos de "real". Isso, aliás, é a única "realidade" (coisidade) que podemos jamais conhecer, e usar o termo "real" (uma coisa) para o que não é tal, para o puramente subjetivo, é um abuso de linguagem.

Neste processo de personalizar a "mente" e pensar nela como "Eu", nós a tornamos, que é sujeito, em um objeto, enquanto "Eu", de fato, nunca pode ser tal, pois não há nada de objetivo em "Eu", que é essencialmente uma expressão direta da subjetividade. Esta objetivação da pura subjetividade, chamando-a de "mim" ou de "mente", é precisamente o que constitui a "escravidão". É este conceito, denominado conceito do eu ou ego ou self, que é a suposta escravidão da qual todos nós sofremos e da qual buscamos a "libertação".

Deve ser evidente, como o Buda e cem outros sábios Despertos procuraram nos capacitar a entender, que o que somos é esta "mente animadora" como tal, que é noumeno, e não o objeto fenomenal ao qual ela dá senciência. Isso não significa, no entanto, que o objeto fenomenal não tenha qualquer tipo de existência, mas que sua existência é meramente aparente, que é o significado do termo "fenômeno", ou seja, que é apenas uma aparência na consciência, uma objetivação, sem qualquer natureza própria, sendo inteiramente dependente da mente que a objetiva, a qual mente é sua única natureza, muito como no caso de qualquer criatura sonhada, como o Buda no Sutra do Diamante, e muitos outros depois dele, tão pacientemente nos explicaram.

Esta mente ou consciência impessoal e universal, é nossa verdadeira natureza, nossa única natureza, tudo, absolutamente tudo, o que somos, e é completamente desprovida de "eu-idade".

Isso é fácil o suficiente de entender, e seria de fato simples se fosse a verdade última, mas não é, pela razão óbvia de que tal coisa como uma "mente" objetiva não poderia existir, assim como um "Eu" ou qualquer outro objeto, como uma coisa-em-si. O que ela é, no entanto, é totalmente desprovida de qualquer qualidade objetiva, e, portanto, não pode ser visualizada, conceituada, ou de alguma forma referida, pois qualquer processo desse tipo a tornaria automaticamente um objeto de um sujeito—o que por definição ela nunca pode ser. Isso ocorre porque a "mente" em questão é a fonte não manifestada da manifestação, cujo processo é sua divisão em sujeito e objeto; e, antes de tal divisão, não pode haver sujeito para perceber um objeto, e nenhum objeto para ser percebido por um sujeito. De fato, e como revelado por sábios como Padma Sambhava, aquilo que está buscando conceber e nomear esta fonte não manifestada da manifestação é precisamente esta "mente inteira" que é o funcionamento "animador" ou prajnatico que é em si a busca, de modo que o buscado é o buscador dele. Compreender profundamente isso é o Despertar para o que se chama de "iluminação".

Esta visualização racional, portanto, como toda doutrina, é meramente conceitual, desprovida de factualidade, uma estrutura de imaginação teórica, um diagrama simbólico concebido para nos permitir entender algo imediato que nunca pode se tornar conhecimento. No entanto, aquele "algo" último, que não é "coisa", é, no entanto, o que o universo é, e tudo o que somos.

O "conceito de eu" psicológico não tem natureza própria, não é "coisa" e não poderia possivelmente criar uma "escravidão" genuína. Não pode haver tal coisa como escravidão, mas apenas a ideia de tal. Não há libertação, pois não há "coisa" da qual ser libertado. Se toda a estrutura conceitual é vista como o que ela é, ela necessariamente deve desmoronar, e o absurdo da escravidão-iluminacao com ela. Isso se chama Despertar, despertar para o estado natural que é o de cada ser senciente. Sri Ramana Maharshi ensinou apenas isso quando disse que a "iluminação" é apenas se livrar da noção de que não se está "iluminado", e Maharshi poderia ter citado o sábio chinês da dinastia Tang, Hui-hai, conhecido como a Grande Pérola, quando ele afirmou que a Libertação é a libertação da noção de "libertação". Ele também poderia ter citado Huang-po (d. 850), de quem é improvável que ele tenha ouvido falar, quando ambos usaram as mesmas palavras, cheias de humor, para alguém que perguntava sobre "sua" mente: cada sábio perguntou em resposta: "Quantas mentes você tem?"

Quantas mentes tinham eles, aqueles dois jovens? Ora, nenhuma. Não apenas não duas, mas nem mesmo uma. Nem eles mesmos eram uma "mente", pois não poderia haver tal coisa como uma "mente" para eles serem. Nem "eles" nem "mente" jamais tiveram, ou poderiam ter, qualquer ser objetivo, pois nunca houve qualquer tipo de ser objetivo, nem jamais haverá. Tudo isso, e cada "isso" que já foi pensado — e "isso" é o mais puramente objetivo dos pronomes — é a essência da gigantesca fantasmagoria da objetividade, que passamos nossas vidas construindo, e na qual buscamos desesperadamente por alguma "verdade" que não poderia possivelmente estar lá. Toda a vasta construção é uma fantasia, um sonho, como o Buda (ou quem quer que tenha escrito isso em seu nome) nos disse no Sutra do Diamante, e a verdade que um sonho representa, ou deturpa, da qual é uma reflexão ou uma deflexão, é a fonte sonhadora dele que é tudo o que ele é. Essa fonte nunca pode ter um nome, porque um nome denota um fenômeno — e não há sonhador fenomenal, mas um funcionamento que é chamado de sonhar. Sri Bhagavan a chamou de "Eu-Eu": se ela deve ser chamada de algo, nenhuma forma nominal poderia jamais chegar mais perto, ou ser menos enganosa como uma indicação, do que seu termo.

Toda objetivação é conceitual, toda conceitualidade é inferência, e toda inferência é tão vazia de verdade quanto um vácuo é vazio de ar. Além disso, não há verdade, nunca houve e nunca poderia haver; não há assim-idade, tal-idade, ser-idade, nem nada de positivo ou negativo. Há apenas a ausência absoluta do cognoscível, que é a presença absoluta do impensável e do incognoscível — que nem é nem não é. Inferencialmente, isso é dito ser um esplendor imenso e radiante, não restringido por noções de tempo e espaço, e completamente além da tênue e refletida senciência da imaginação temporal e finita.

Wei Wu Wei Here Now

Não sou, mas o universo aparente é o meu Eu

"Não sou, mas o universo aparente é o meu Eu". (Shit-t’ou, 700-790)


Os objetos são conhecidos apenas como resultado das reações dos sentidos dos seres sencientes a uma variedade de estímulos.

Esses estímulos parecem derivar de fontes externas ao aparelho reagente, mas não há evidência disso além do próprio aparelho reagente.

Os objetos, portanto, são apenas uma suposição, pois não têm existência demonstrável além do sujeito que os reconhece.

Como o próprio sujeito não é sensorialmente cognoscível, exceto como um objeto, o sujeito também é apenas uma suposição.

Como a existência factual nem do sujeito nem do objeto pode ser demonstrada, a existência não passa de uma suposição conceitual que, metafisicamente, é inaceitável.

Não há, portanto, nenhuma evidência válida para a existência de um mundo externo à consciência dos seres sencientes, cujo mundo externo é, portanto, visto como nada mais do que os conhecedores dele, ou seja, os próprios seres sencientes.

Mas não pode haver nenhuma evidência factual para a existência de seres sencientes, seja como sujeito ou como objeto, que, portanto, são meramente uma suposição conceitual por parte da consciência na qual eles são reconhecidos.

Segue-se que a "consciência" também só pode ser uma suposição conceitual sem existência demonstrável.

O que, então, essa suposição de consciência pode denotar? Essa pergunta só pode ser respondida em termos metafísicos, de acordo com os quais a consciência pode ser considerada como o aspecto manifesto do imanifesto ou não-manifesto, que é o mais próximo que parece ser possível chegar para expressar em um conceito aquilo que, por definição, é inconcebível.

Por que isso deveria ser assim? Deve ser assim porque a conceitualidade não pode ter a conceitualidade como fonte, mas apenas o não-conceitual, porque aquilo que é objetivamente concebido deve necessariamente brotar do objetivamente não-existente, o manifesto do não-manifesto, pois a conceitualidade não pode conceber ou objetivar a si mesma - assim como um olho não pode ver a si mesmo como um objeto.

Portanto, a consciência pode ser descrita como pura não conceitualidade, que é "pura" porque não é manchada nem pelo conceitual nem pelo não conceitual, o que implica que há uma ausência total de conceitualidade positiva e negativa.

Não existindo como objeto, nem mesmo conceitual, não pode haver "isto", não há "coisa" que possa receber um nome, nenhum sujeito é possível onde não há objeto, e a ausência total de ser está inevitavelmente implícita.

Tudo o que podemos dizer sobre isto que somos, que para nós deve ser objetivado como "isto" para que possamos falar sobre isso, é considerar "isto" como o númeno dos fenômenos, mas, uma vez que nenhum deles existe objetivamente, fenomenicamente considerado, pode ser entendido como a ausência final a partir da qual toda a presença aparece.

Mas a consciência, ou "Mente", não "projeta" o universo fenomênico: "ela" É o universo fenomênico que se manifesta como seu eu.

A metafísica, que se baseia na intuição ou na percepção direta, não diz mais do que isso e ressalta que nenhuma palavra, seja ela o Absoluto, o Logos, Deus ou Tao, pode ser outra coisa senão um conceito que, como tal, não tem validade factual alguma.

Isto-Que-É, então, que não pode ser sujeito ou objeto, que não pode ser nomeado ou pensado, e cuja realização é o despertar supremo, só pode ser indicado em uma frase como a citada acima:

"Não sou, mas o universo aparente é o meu Eu".

Wei Wu Wei Here Now

Vaiando o vilão

É tão absurdo culpar os personagens históricos pelos papéis que desempenharam na história quanto culpar os personagens de um romance ou de um filme.

Não é menos absurdo culpar nossos contemporâneos no momento histórico em que nós mesmos estamos sustentando um papel.

Podemos invejar ou sentir pena daqueles que precisam representar certos papéis — isso dificilmente pode ser chamado de absurdo, embora, em última instância, nós mesmos representemos todos os papéis e sejamos a própria cena.

Se elogiar ou culpar é, evidentemente, um exemplo de falha em compreender, seriam suas extensões — “amar” e “odiar” — menos tolas?

Cócórócó

O galo em Chantecler canta com tanto orgulho porque está convencido de que é o seu canto que faz o sol nascer.

Parece que o Advaita Vedānta e o Laṅkāvatāra Sūtra demonstram que ele tem razão — que é, de fato, o seu canto que faz o sol nascer. Não chegou o admirável filósofo bispo Berkeley à mesma conclusão?

A Alcachofra — Êxtase

Toda vez que nossa consciência se encontra fora do alcance da dominação do conceito de Eu — de onde a irrealidade do ego, como de qualquer conceito, se torna evidente — uma folha é arrancada da alcachofra.

A alcachofra tem muitas folhas, e as exteriores são mais ásperas que as interiores, mas ela se torna menor a cada mordida.
Por fim, nada resta senão o coração — e esse é a Realidade.

Wei Wu Wei Porque Lazaro Riu

Definições de não-apego

“Non-attachment” in the sense of the Zen Masters, or as so translated from the Chinese, may sometimes mean awareness, but in the sense of non-attachment to all mental processes, i.e. thought and feeling, so that in the absence of “mentation” pure consciousness can flood in and take possession of the psyche.

That is a highly technical sense of what is ordinarily meant by Non-attachment or by Detachment, and that may be what the word Dhyana, so inadequately rendered by “Meditation,” really implies.

The Zen Masters’ condemnation of meditation applies to mental meditation, which implies thought, whereas Dhyana may imply non-mental (No-mind) meditation. Misunderstanding of the meaning of words, in translation, is the cause of much confusion.

Wei Wu Wei Porque Lazaro Riu

A Grande Piedade

O Impessoal testemunha tudo o que “nós” fazemos e tudo o que “nós” pensamos (toda manifestação psíquica e física) — e esse é o grande paradoxo. Pois nós mesmos somos o Impessoal, e o “nós” que age e pensa é apenas uma personalização do único Não-Eu (Realidade) visto como fenômeno — uma noção que, como fenômeno, não possui permanência nem duração, sendo renovada a cada instante.

A dualidade (ignorância) consiste em uma identificação parcial com o “nós” fenomênico, que não tem existência real, devido ao conceito de Eu nele contido; e a não dualidade (sabedoria) é a dissolução dessa identificação parcial, deixando-nos em nossa identificação normal e imutável com o Não-Eu.

O termo “Impessoal” é um termo dualístico como qualquer outro, buscando transmitir a essencial impessoalidade do Não-Eu concebido — como inevitavelmente o concebemos — como uma “pessoa” que, contudo, não o é.


É difícil aproximar-se mais do que isso por meio de palavras, que são essencial e irremediavelmente dualistas; mas os Sábios deixaram claro que o melhor, talvez o único, método de dissolver a falsa identificação é vir a reconhecer e conhecer a nós mesmos como o Impessoal que testemunha — como o qual percebemos tanto “nossas” ações físicas e mentais (que de modo algum são nossas) quanto “nós mesmos” realizando essas ações (que de modo algum realizamos).

Wei Wu Wei Porque Lazaro Riu

Definições I

Em uma tentativa de reduzir a confusão resultante do uso de múltiplos termos com significados diversos por vários autores, proponho, doravante, empregar os seguintes neologismos:

O DIVIDUAL — em lugar de indivíduo, pessoa, personalidade, eu, “eus”. Sabe-se que tal entidade não pode existir como tal, uma vez que o fenômeno deve ser descrito, fisicamente, como um campo de forças flutuante (um fluxo eletrônico em perpétua mutação) ou, metafisicamente, como uma objetivação aparente da consciência, destituída de permanência ou duração, renovada a cada instante e variável. Psicologicamente, esse fenômeno aparece como uma sucessão de “eus”, múltiplos e frequentemente contraditórios, mas isso é apenas um efeito criado pela identificação do conceito de Eu com cada impulso que surge na psique.

O IMPESSOAL — para designar a Testemunha impessoal, ou o eu relativo, que, embora seja a própria Consciência, parece observar tanto o pensamento quanto o suposto pensador dele e, como tal, deve ser indicado, em linguagem dualística, como uma entidade que, ao mesmo tempo, não o é.

O NÃO-EU — para o Si-mesmo, a pura Consciência, a Realidade, o meu Princípio, a Mente Cósmica ou Universal, a Talidade (Suchness), a Quididade, o Absoluto, a Divindade. A escolha desse termo para representar tais designações dificilmente exige explicação.

Isto não agrada a ninguém? Lamento. Usarei ocasionalmente as expressões habituais para não privar ninguém de seu direito à incerteza.

Wei Wu Wei Porque Lazaro Riu

A Razão

A mentação, sendo uma atividade dualística que implica tanto o pensador quanto o pensamento, o “eu” não pode alcançar a Testemunha dessa atividade — a qual é não dual.

E a razão disso é que eu sou essa Testemunha impessoal, e absolutamente nada mais.


A terceira dimensão é um conceito, e não um fato da experiência perceptiva, como supomos. É presumivelmente por isso que os animais estão conscientes apenas de duas dimensões de cada vez.

O mundo ao nosso redor é um conceito, não uma percepção. É um conceito resultante da percepção de uma percepção (“nós mesmos”) do Não-Eu.


Nossa vida é uma análise elaborada de um instante.

Wei Wu Wei Porque Lazaro Riu

Cavar fundo para enterrar tua sombra

Não podemos livrar-nos de nossa sombra fugindo dela, nem alguém pode enterrá-la, por mais fundo que cave o buraco. Uma sombra só pode ser afetada por meio da realidade de que é projeção distorcida e insubstancial.

Diz-se que o Maharshi observou que o mesmo ocorre com o ego. O conceito de Eu só pode ser abandonado pela busca do Eu-Realidade, do qual ele é um reflexo flutuante e intangível.

Pode-se suspeitar que aqui reside uma divergência essencial entre a abordagem vedântica e zen-taoísta e a do zen japonês moderno. Este último parece buscar o satori por meio de uma manipulação da psique — um processo representado pelo sistema dos koan de treinamento —, o qual parece contradizer a afirmação repetida dos Mestres da dinastia T’ang de que a Mente não pode ser alcançada pela mente (nem a Realidade por meio de sua sombra).

O Dr. Hubert Benoit revelou-nos o mecanismo desse processo, pelo qual uma distração da Atenção para um enigma que não tem significado em si mesmo isola a energia em seu ponto de entrada na manifestação — energia que normalmente se dispersaria em afetividade e fantasia inúteis —, promovendo assim uma acumulação sem a qual as explosões de satori dificilmente poderiam ocorrer (The Supreme Doctrine, p. 103).

Muito bem. Mas em que plano operava o inventor do sistema dos koan? O Maharshi e Hsi Yun falavam-nos a partir do plano da própria Realidade.

Talvez, contudo, possamos usar a sombra como indicação do lugar de onde provém sua fonte.

Wei Wu Wei Porque Lazaro Riu

Homem na Lua

“Mas o que há de mais concreto do que a Realidade-Eu?” Concreto.

“Cada um de nós pode ter experiência direta dela a qualquer momento.” Cada um de nós.

“Além disso, a Realidade-Eu é a única coisa que nos é indubitavelmente conhecida.” A única coisa. (The Maharshi, Études, p. 127)

Ele também nos ensina que a realidade dos objetos não é representada pela forma que lhes dá o artesão ou o artista, mas sim pelo material (ouro ou argila, por exemplo) de que são feitos; e que o princípio de realidade não reside no desenho do pintor, mas na tela sobre a qual é pintado — não nas imagens aparentemente móveis do cinema, mas na superfície sobre a qual são projetadas. O que é puro Vedanta e, creio, puro Zen.

A realidade poderia, talvez, ser considerada como nossa textura — não em um sentido material, mas antes como ser consciente — e sua realização, como consciência do ser.

Poderia a verdade ser sugerida de forma mais luminosa através de nosso meio dualístico de palavras? Não são estas os dedos que apontam diretamente para o Homem na Lua?

Afinal, nossa textura é Consciência Pura — que é uma definição da própria Realidade.

Wei Wu Wei Porque Lazaro Riu

Trabalho

Antropólogos — e até mesmo o público em geral — sabem que, em muitas partes do mundo, entre alguns povos chamados primitivos, o marido vai para a cama e experimenta as dores de parto da esposa que está em trabalho de parto.

Seria inútil dizer-lhe que suas dores são imaginárias, que ele não possui órgãos capazes de causar tais dores, e que não há motivo para senti-las. Ele está sujeito a esse conceito e é incapaz de transcendê-lo.

Não é o conceito de Eu, ao qual nós, os chamados povos não primitivos, estamos submetidos, exatamente o mesmo?

Figuras oníricas. “Assim embaixo...”

Pode ser útil enfatizar mais uma vez que não apenas os protagonistas, mas todos os que aparecem em nossos sonhos, são o próprio sonhador do sonho. Isso deveria ser suficientemente evidente, mas até que seja pensado e verificado, tende a ser negado.

Qualquer que seja o nome e a identidade aparente atribuídos às personagens do sonho, pode-se perceber facilmente — não apenas teoricamente — que tais pessoas não são, de fato, os indivíduos nomeados como foram ou são, nem mesmo na memória, mas a projeção sobre esses nomes de um conceito da mente sonhadora, que utiliza apenas traços suficientes retirados da memória para dar alguma verossimilhança à atribuição de identidade.

Qualquer que seja o nome e a identidade conferidos à figura do sonho, ela é sempre baseada em elementos psíquicos da mente que sonha.

Wei Wu Wei Porque Lazaro Riu

Egoísmo de grupo

Preocupamo-nos muito com o conceito de Eu do indivíduo, mas raramente com o conceito de Eu do grupo. As famílias também, por vezes, desenvolvem egos protuberantes. E quanto às nações...

O nacionalismo é uma manifestação do ego de um grupo, frequentemente exacerbado a um ponto que as condições sociais negam ao indivíduo.

Mesmo associações, clubes e, particularmente, partidos políticos desenvolvem um conceito de Eu, com os resultados lamentáveis e ridículos que acompanham todas as manifestações desse conceito.

Contudo, não há realidade em tais fenômenos, a não ser a realidade última, sem a qual os fenômenos não poderiam manifestar-se.

Mas assim como sempre houve famílias que escaparam ao desenvolvimento de tal conceito, e associações, clubes, até mesmo partidos que são apenas tais, o nacionalismo é apenas um crescimento esporádico e nem sempre existiu em nossa ou em qualquer outra civilização.

Muitas pessoas orgulham-se dessa manifestação e a consideram uma virtude, assim como algumas pessoas cultivam o orgulho como virtude: les primaires civilisés, les civilisés primaires.

Talvez, se formos capazes de transcender o egoísmo do grupo, possamos mais facilmente encontrar o caminho para transcender o egoísmo do indivíduo, pois um e outro são conceitos idênticos e, ambos, destituídos de realidade.

Wei Wu Wei Porque Lazaro Riu

Dar a outra face

Aquilo foi algo que aquele campo de forças particular tinha de fazer. Que palhaço eu seria se o elogiasse ou censurasse por isso — como se se tratasse de um ato de livre-arbítrio de uma entidade independente! O Si-mesmo, do qual aquele campo de forças é uma manifestação, é imutável e não “age”. Nem a realidade daquele campo de forças nem a deste estão em questão. Se eu sequer sorrisse diante do incidente, isso indicaria que ainda conservo algum vestígio da noção de que uma entidade individual “fez” algo que me agradou ou aborreceu.

Ovos pochê (todos nós)

Discutir sobre transcender o conceito de Eu, “reduzir” o “poder” do ego, ou qualquer outra formulação semelhante, é apenas evidência de crença contínua na realidade daquilo que, sendo meramente um conceito, é totalmente irreal.

É como um homem dizendo: “Sou perfeitamente são: sei que não sou um ovo pochê; ao contrário, estou ocupado em despochar-me, e em breve nem mesmo precisarei de um pedaço de pão torrado para poder sentar-me.”

Já nos perguntamos por que os Mestres Zen, nas raras ocasiões em que se referem ao conceito de Eu, o fazem apenas de modo indireto, com expressões como “a sujeira no teu rosto”?

Para eles, basta mostrar que os conceitos são inevitavelmente irreais. Qualquer tentativa de “reduzir”, “transcender” ou “disciplinar” o que é apenas um conceito só pode afirmar a aparência ilusória de sua realidade. Quando todos os conceitos são vistos pelo que são — isto é, reconhecidos como tais e nada mais —, o ego encontra-se na cesta de papéis com o restante.

Sob a perspectiva da “Física e Metafísica”, vimos com clareza suficiente que não poderia existir tal coisa como um Eu. A noção é tão absurda quanto atribuir individualidade ao som produzido por juncos agitados pelo vento.

Wei Wu Wei Porque Lazaro Riu

Debris (1)

Pode muito bem haver “cão” (na Realidade), mas não pode haver tal coisa como um cão.


Que justificativa poderia haver para considerar os corpos dos seres vivos como possuindo valor mais elevado ou propósito mais nobre do que o de futuro adubo? De acordo com que lei existe algo mais elevado?


Desempenha o teu papel na comédia, mas não te identifiques com o teu personagem!

Manifestações de múltiplas energias — o que mais poderiam ser os homens?

O karma não é uma coisa em si, nem um sistema inventado por alguma religião esotérica. “Karma” é apenas uma palavra breve e conveniente para a expressão longa e pesada “a força das circunstâncias”.

Somos todos aspectos uns dos outros.

Culpar um homem pelo que ele “faz” é aplicar o mesmo raciocínio que culpar uma porta quando ela bate ou um objeto quando cai sobre o pé.


Uma escola é um instrumento eficiente para reforçar o jugo do chamado “ego”.

Ler em excesso também é uma forma de lutar para “alcançar”.

Wei Wu Wei Porque Lazaro Riu

Livre Arbítrio (2)

Nossa liberdade reside na mente — da qual o “nosso” é o aspecto que experimentamos. O conhecimento é irreal, ou relativo, mas a compreensão é real. Somos livres para compreender, se formos capazes disso.

Mas o conhecimento vem pelo raciocínio, enquanto a compreensão surge pela intuição. No entanto, é possível que o conhecimento obtido por meio do raciocínio possa abrir o caminho para a intuição — contanto que o conhecimento seja visto pelo que é: relativo e não real.

Como resultado da compreensão, passamos a funcionar em um plano diferente, embora isso possa ter pouco efeito sobre o modo de vida que levamos. Acima de tudo, podemos perceber a futilidade de nossa luta para impor os desejos supostos do nosso “ego” sobre o inevitável. A exortação taoísta, adotada posteriormente pelo budismo, de viver em conformidade com a “natureza”, deve significar exatamente isso.

Liberdade – II

O Maharshi também escreveu, ainda jovem, em um pedaço de papel:

“O que está destinado a não acontecer, não acontecerá — por mais que tentes.
O que está destinado a acontecer, acontecerá — faças o que fizeres para impedi-lo.
Isso é certo.”

Ele foi inflexível em seu ensinamento. Sua resposta era: “Descubra quem é aquele que está predestinado ou que tem livre-arbítrio.” E disse, de modo mais explícito: “Todas as ações que o corpo deve realizar já foram decididas no momento em que ele veio à existência; a única liberdade que você tem é decidir se se identifica ou não com o corpo.”

Isso significa que, ao desempenharmos nosso papel na comédia em que recebemos um personagem — o que chamamos de nossa vida —, podemos identificar-nos com o papel, imaginando realmente que somos o personagem que representamos, ou permanecer mentalmente à parte e atuar apenas pela técnica.

“Todas as ações que o corpo deve realizar já foram decididas no momento em que ele veio à existência...”

A mente possui uma certa liberdade — mas não para determinar as ações do corpo. Sua liberdade mais valiosa é a de compreender e, por meio disso, libertar-se de suas identificações, especialmente da ilusão de individualidade. Quando compreende ao menos isso, ela se coloca à disposição da Mente em Si mesma e pode despertar para a Realidade a qualquer momento.

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Livre Arbítrio (1)

Nossa única liberdade é a faculdade de compreender, pois há apenas uma mente — e nada mais existe. (Os Mestres da dinastia T’ang foram citados nesse sentido, especialmente Hsi Yun.)


Segue-se que nossa única liberdade de “ação” reside no exercício dessa faculdade e na consequente mudança em nossos aparentes “eus”.

Se isso parecer difícil de compreender, podemos imaginar a mente como uma sutileza ou essência última que atravessa todas as dimensões, manifestando-se em todas elas e constituindo, assim, uma ligação entre o campo de forças mais denso do mundo material e a Realidade Absoluta — da qual é a manifestação mais pura que nos é perceptível.

Livre-arbítrio – II

Como poderia um produto da imaginação exercer qualquer efeito sobre algo que não seja igualmente um produto da imaginação? Portanto, qualquer efeito resultante de um ato de “vontade” sujeito ao conceito de ego só pode ser tão imaginário quanto ele próprio.

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Livre arbítrio e determinismo

Discussões acerca da predominância da vontade sobre o destino, ou vice-versa, só podem ocorrer entre aqueles que não possuem conhecimento da raiz de ambos. Aqueles que conhecem o Si-mesmo, única raiz tanto da vontade quanto do destino, estão livres de um e de outro.


Depois disso, como poderiam participar de tais discussões?

Ramana Maharshi

Ulladu Narpadu – Quarenta Versos sobre o Conhecimento do Ser, 19


Uma diferença essencial entre um Jivan Mukta e um homem comum não iluminado é que o primeiro transcendeu a dualidade inerente à aparente contradição entre livre-arbítrio e determinismo.

O Jivan Mukta, tendo abandonado o conceito de ego, sob o qual o homem comum vive, não possui vontade que possa divergir da harmonia completa com a ordem cósmica; ele “quer” o que deve ser, sem qualquer forma de resistência (pois nele já não há mecanismo psíquico capaz de resistir), ao passo que o homem comum, sujeito ao seu conceito de ego, é incapaz de perceber o que deve ser, e procura substituir tal percepção pelos desejos agregados ao seu “ego” artificial, que imagina ser livre para satisfazer, se puder.

Nenhum dos dois é “livre” no sentido em que o homem comum entende, mas o primeiro não experimenta falta de “liberdade” nem qualquer constrangimento, enquanto o segundo passa a vida em um conflito imaginário, uma luta contra moinhos de vento, tentando afirmar uma “liberdade” que de modo algum poderia possuir.

É por isso que o Jivan Mukta vive sem conflito e geralmente se dedica a ajudar os não iluminados a libertarem-se de seus erros mediante a transcendência do conceito de ego, pois nesse plano — o plano da compreensão —, sendo a compreensão real de uma dimensão ulterior não sujeita ao mecanismo de espaço-tempo, até mesmo o homem comum é “livre” (da referida mecanicidade) para livrar-se de sua ignorância.

Fantoche

Se alguém procura livrar-se de, ou mesmo transcender, um falso eu, ego ou personalidade, com isso aceita como fato a existência de tal entidade e, assim fazendo, confirma o seu domínio — (uma restrição pode ser real ou imaginária, como a do bico da galinha mantido por uma linha de giz).

Daquilo de que precisamos nos livrar, ou transcender, é do conceito falso pelo qual presumimos a existência dessa entidade. Basta olhar com penetração para perceber que, de fato, não há em nós nada que corresponda ao conceito de uma entidade — em nosso caleidoscópio sempre mutante de impulsos eletrônicos, interpretados na falsa perspectiva de uma sequência temporal. Um campo de força pulsante não é uma entidade a ser transcendida — não mais do que o vapor que sai do bico de uma chaleira, ou o ser aparentemente vivo que resulta da projeção rápida e consecutiva de “quadros parados” (ou quanta) numa tela de cinema.

Não há, nem poderia haver, qualquer entidade; o Buda baseou sua doutrina nessa realização. Portanto, não há nada de que nos livrar, nem nada a transcender — exceto um conceito errôneo...

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