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id da página: 5754 CONCENTRAÇÃO – KOAN – REPETIÇÕES

Concentração

ESTADO — CONCENTRAÇÃO – KOAN


VIDE: EPIMELEIA, PROSOCHE


Koans: Símbolos verbais calculados para provocar uma ruptura ontológica em nossa carapaça de ignorância. (TB, Treasures of Buddhism)

Fórmulas ao mesmo tempo sem sentido e explosivas, destinadas a quebrar a casca dos hábitos mentais que obstruem a visão do Real. (Schuon Metafisica Integral, Confessional Speculation: Intentions and Impasses [Especulação Confessional: Intenções e Impasses])

O koan é uma fórmula absurda por intenção, destinada a provocar uma espécie de ruptura libertadora na mente da pessoa que medita sobre ela, sendo a mente, nesse caso, considerada em relação à sua dureza e cegueira. (TB, Remarks on the Enigma of the Koan [Observações sobre o Enigma do Koan])


Daisetz Suzuki

Koan significa literalmente “um documento público” ou “estatuto com autoridade”—um termo que entrou em voga no final da dinastia T‘ang. Agora denota alguma anedota de um antigo mestre, ou um diálogo entre um mestre e monges, ou uma declaração ou pergunta apresentada por um professor, todos os quais são usados como o meio para abrir a mente à verdade do Zen. No início, é claro, não havia koan como o entendemos agora; é um tipo de instrumento artificial concebido pela plenitude do coração por mestres Zen posteriores, que por este meio forçariam a evolução da consciência Zen nas mentes de seus discípulos menos dotados.

A mente pode crescer por si mesma, mesmo quando é deixada à natureza para alcançar seus próprios fins, mas nós não podemos sempre esperar por ela, gostamos de nos intrometer para o bem ou para o mal. Nunca somos pacientes; sempre que há uma chance de colocar nossos dedos, temos a certeza de fazê-lo. A interferência às vezes é útil, às vezes decididamente não. Como regra, funciona de duas maneiras. Nós acolhemos a interferência humana quando mais é para ser ganho do que perdido e chamamos isso de melhoria e progresso; mas quando se revela o contrário, chamamos de retrocesso. A civilização é humana e artificial; alguns não estão satisfeitos com ela e querem voltar à natureza. Bem, o chamado progresso moderno de forma alguma é uma felicidade sem atenuantes, mas no geral, pelo menos no lado material da vida, parecemos estar melhor hoje do que nunca, e vemos alguns sinais de melhoria adicional. Portanto, nossas queixas geralmente não são afirmadas com muita veemência.

De forma semelhante, a introdução do sistema de koan no Zen, puro, natural e elementar, é ao mesmo tempo uma deterioração e uma melhoria. Mas uma vez trazido à existência, o sistema parece muito difícil de ser abandonado. Era, é claro, bastante humano da parte do mestre Zen pensar em seus irmãos menos afortunados cujos dotes naturais não eram tão ricos quanto os seus, e que, portanto, seriam propensos a perder oportunidades de chegar à verdade do Zen. Ele queria lhes transmitir, se possível, a mesma maravilhosa felicidade do entendimento que ele havia obtido através do domínio do Zen. Seu instinto maternal o fez pensar em alguma forma de abrir ou até mesmo coagir as mentes de seus discípulos para as belezas desconhecidas do satori, que, quando deixadas a seus próprios caminhos ignorantes, nunca viriam sobre eles, exceto por uma feliz e rara chance. O mestre sabia que o artifício de um koan era uma artificialidade e uma superfluidade; pois a menos que o Zen crescesse da própria atividade interna de um homem, não poderia ser verdadeiramente genuíno e cheio de vitalidade criativa como deveria ser. Mas mesmo uma semelhança seria uma benção quando a coisa genuína é tão difícil e rara de se ter; e, além disso, era provável, se for deixada a si mesma, de desaparecer completamente da tradição da experiência humana. A semelhança não é necessariamente um mero paliativo, mas pode ter algo nela bastante verdadeiro e cheio de possibilidades; pois o sistema de koan e zazen, quando usado corretamente, realmente desdobra a mente para a verdade do Zen. Por que então não deveríamos adotá-lo e trabalhá-lo em sua plenitude?

No início, um mestre Zen era uma espécie de autodidata; ele não tinha educação escolar, não tinha sido enviado para a faculdade para passar por um certo curso de estudos, mas por uma necessidade impulsionadora interior que agitava seu espírito ele não podia deixar de ir por aí e pegar qualquer conhecimento que precisava. Ele era aperfeiçoado por si mesmo. É claro, ele tinha um professor, mas o professor não o ajudava da maneira que os estudiosos hoje em dia são ajudados—ajudados com muita frequência, de fato, além das necessidades reais do discípulo, mais do que é realmente bom para ele. Essa falta de educação suave tornava o antigo mestre Zen ainda mais forte e mais cheio de virilidade. Esta foi a razão pela qual, naqueles primeiros dias do Zen—ou seja, durante a dinastia T‘ang—ele era tão ativo, tão brilhante, tão intenso. Quando o sistema de koan entrou em voga durante a dinastia Sung, os dias de glória do Zen estavam quase no fim e ele gradualmente mostrou sinais de declínio e senilidade.


Hermetismo CristãoMeditações Tarô

"Aprendei primeiro a concentração sem esforço". Qual é o sentido prático e teórico desse enunciado?

A concentração, enquanto capacidade de fixar o máximo de atenção no mínimo de espaço (Goethe diz que aquele que quer realizar algo de sólido e hábil deve concentrar num ponto mínimo o máximo de força), é a chave prática do êxito em qualquer domínio. Neste ponto estão de acordo a pedagogia e a psicoterapia modernas, as escolas de oração e de exercícios espirituais franciscana, carmelita, dominicana e jesuíta, as escolas ocultistas de toda espécie, enfim a ioga hindu antiga e todos os outros métodos. Patanjali, em sua obra clássica sobre ioga, enuncia em sua primeira frase a essência prática e teórica da ioga — "o primeiro arcano" ou a chave da ioga — como segue: Ioga citta vritti nirodha, "a ioga é a supressão das vacilações da substância mental" — ou, em outros termos, a arte da concentração. Porque as vacilações (vritti) da "substância mental" (citta) se verificam automaticamente. Esse automatismo nos movimentos do pensamento e da imaginação é o contrário da concentração. Ora a concentração só é possível ao preço e com a condição da tranquilidade e do silêncio do automatismo do intelecto e da imaginação.

O "calar-se" precede, pois, o "saber", o "poder" e o "ousar". Por isso a escola pitagórica prescrevia o silêncio de cinco anos aos principiantes ou aos "ouvintes". Ninguém ousava falar antes de saber e poder, antes de ter dominado a arte de calar-se, isto é, a arte da concentração. A prerrogativa de "falar" pertencia àqueles que não falavam mais automaticamente, movidos pelo jogo do intelecto e da imaginação, mas que podiam suprimi-lo, graças à prática do silêncio interior e exterior, e que sabiam o que diziam — sempre graças à mesma prática. O silêncio praticado pelos monges da Trapa e prescrito durante o tempo de "retiro", de modo geral, a todos os que nele tomam parte, é a aplicação da mesma regra-verdade: "A ioga é a supressão das vacilações da substância mental" ou ainda "a concentração é o silêncio voluntário do automatismo intelectual e imaginário".

É necessário distinguir duas espécies de concentração, essencialmente diferentes. Uma é a concentração desinteressada; a outra, a concentração interessada. A primeira é a da vontade libertada das paixões, das obsessões e dos apegos escravizadores, ao passo que a outra é o resultado de paixão, de obsessão ou de apego dominadores. Um monge no recolhimento da oração e um touro enraivecido estão concentrados, um, porque está na paz do recolhimento; o outro, porque está dominado pela raiva. Também as paixões fortes levam, pois, a alto grau de concentração. Assim os ávidos, os avaros, os orgulhosos e os maníacos denotam às vezes concentração notável. Na verdade, trata-se não de concentração, e sim de obsessão.

A verdadeira concentração é ato livre na luz e na paz e pressupõe vontade desinteressada e desapegada. Porque o fator determinante e decisivo da concentração é o estado da vontade. Por isso a ioga, por exemplo, exige a prática do iama e do niiama (iama são as cinco regras da atitude moral; niiama são as cinco regras da mortificação) antes da preparação do corpo para a concentração (respiração e posturas), e a prática de três graus da concentração como tal (dharani, dhyana e samadhi — concentração, meditação e contemplação).

Juan de la Cruz e santa Teresa de Ávila não se cansam de repetir que a concentração necessária para a oração espiritual é fruto da purificação moral da vontade.

É, pois, inútil o esforço para se concentrar, se a vontade está tomada por outra coisa. As "oscilações da substância mental" jamais poderão ser reduzidas ao silêncio, se a vontade não lhes infundir seu silêncio. É só a vontade silenciosa que torna efetivo o silêncio do intelecto e da imaginação na concentração. Por isso, os grandes ascetas são também grandes mestres da concentração.

Tudo isso é evidente. Mas o que nos ocupa aqui não é só a concentração em geral, mas também e sobretudo a concentração sem esforço. Que vem a ser ela?

Considerai o equilibrista na corda. É evidente que ele está completamente concentrado, do contrário, cairia por terra. Sua vida está em jogo, e só a concentração perfeita pode preservá-la.

Acreditais, porém, que o seu intelecto e a sua imaginação se preocupam com o que ele faz? Credes que ele reflete, imagina, calcula e planeja cada passo?

Se o fizer, cairá. Ele precisa eliminar toda atividade do intelecto e da imaginação para evitar a queda; precisa "suprimir as oscilações da substância mental" para poder exercer sua profissão. Durante seus exercícios acrobáticos, a inteligência de seu sistema rítmico — respiratório e circulatório — substitui a do seu cérebro. Trata-se, em última análise, de milagre — do ponto de vista do intelecto e da imaginação — análogo ao de são Dionísio, apóstolo dos gauleses e primeiro bispo de Paris, que a tradição identifica com são Dionísio Areopagita, discípulo de são Paulo. Ele teve "a cabeça separada do corpo a machadadas, diante da estátua do deus Mercúrio, mas logo se levantou, tomou a cabeça em suas mãos e, guiado por um anjo, caminhou longa distância, da colina de Montmartre até o lugar onde hoje repousam os seus ossos por escolha dele e da providência divina" (Jacques de Voragine, La Legende Dorée).

Ora, também o equilibrista, enquanto exerce o seu ofício, tem a "cabeça" — isto é, o intelecto e a imaginação — separada do corpo e caminha de um ponto a outro, levando a cabeça em suas mãos, guiado por outra inteligência, que age pelo sistema rítmico do corpo.

Para o equilibrista, para o pelotiqueiro, para o mago, a arte e a habilidade, no fundo, são análogas ao milagre de são Dionísio, porque, para ele, como para são Dionísio, trata-se da transposição do centro da consciência diretiva da cabeça para o peito — do sistema cerebral para o sistema rítmico.

Ora, a concentração sem esforço é a transposição do centro diretor do cérebro para o sistema rítmico — do domínio mental e da imaginação para o da moralidade e da vontade. (v. MAGO) [...]

A concentração sem esforço — isto é, na qual não há nada a suprimir, e o recolhimento se torna tão natural como a respiração e as pulsações do coração — é o estado de consciência (do intelecto, da imaginação, do sentimento e da vontade) em estado de tranquilidade perfeita, acompanhada da distensão completa dos nervos e dos músculos do corpo. É o silêncio profundo dos desejos, das preocupações, da imaginação, da memória e do pensamento discursivo. Dir-se-ia que o ser todo se tornou como a superfície de águas tranquilas refletindo a presença imensa do céu estrelado e de sua indizível harmonia. As águas são profundas, e como são profundas — e o silêncio aumenta, aumenta sempre, e que silêncio! Seu crescimento realiza-se por ondas regulares que passam, uma após outra, através de vosso ser: uma onda de silêncio, seguida de outra onda de silêncio mais profundo, depois outra onda de silêncio ainda mais profundo. Já bebestes do silêncio alguma vez? Se a resposta for afirmativa, sabeis o que é a concentração sem esforço.

No começo, o silêncio completo ou a "concentração sem esforço" duram instantes, depois minutos, depois quartos de hora. Com o tempo, o silêncio ou a concentração sem esforço se tornam o elemento fundamental sempre presente na vida da alma. É como o ofício perpétuo na igreja de Sacré-Coeur de Montmartre, que se verifica enquanto em Paris trabalha-se, circula-se, diverte-se, dorme-se, morre-se... É assim que o " ofício perpétuo" do silêncio se instala na alma e prossegue até quando ela está em atividade, trabalhando ou conversando.

Uma vez estabelecida essa "zona de silêncio", podeis haurir dela tanto para o repouso como para o trabalho. Tereis então não só a concentração sem esforço como também a atividade sem esforço.


Evola Doutrina do Despertar

  • Já em conexão com os estágios elementares é ensinada a destruição de vãs imaginações, passadas ou futuras.

    • "O que está diante de ti põe de lado. Atrás de ti não deixes nada. Ao que está no meio não te tornes apegado. E nesta calma progredirás".
    • Aquele que trilhar o caminho do despertar deve cultivar uma tal simplicidade na sua mente.
    • Deve ser posto um fim a todo o mundo de complicações psicológicas, de "subjetividade", de esperanças e de remorsos — da mesma forma que o demônio da dialética é silenciado.
    • Torna-te habituado à concentração interior: "a visão que é variada e é baseada na variedade, esta renuncia-se; a visão que é única e baseada na unidade, na qual todo o apego a atrativos mundanos está completamente desaparecido, esta visão cultiva-se".
    • Eis algumas expressões que ocorrem nos textos canónicos e que tratam do que o simbolismo dos alquimistas chamaria o "processo de fogo" — isto é, a maneira ou ritmo do esforço interior: "Perseverar firmemente sem vacilar, a mente clara e não confusa, os sentidos tranquilos e imperturbáveis, a consciência concentrada e unificada". "Com energia incansável e incessante, com conhecimento presente e inabalável, com corpo sereno e sem perturbações, com consciência concentrada e unificada". "Persistir sozinho, destacado, incansável, estrenuo, com fervoroso e íntimo empenho" — esta é a fórmula geral usada nos textos para a disciplina daqueles que, tendo compreendido a doutrina, prosseguem para alcançar o seu fim supremo.
    • Estamos a lidar aqui com predisposições, com qualidades e ao mesmo tempo com conquistas — veremos que entre estas qualidades há algumas que, por sua vez, são o objetivo de práticas ascéticas particulares a alcançar.
  • Como discutimos a qualidade da visão objetiva, devemos também mencionar — de passagem — o estilo em que muitos dos textos budistas mais antigos são elaborados, um estilo que foi chamado "bastante intolerável" devido às suas contínuas repetições.

    • Qual é o propósito destas repetições?
    • A interpretação usual dos orientalistas, de que são uma ajuda mnemónica, é a mais superficial.
    • Há outras razões.
    • Em primeiro lugar, algumas ideias foram dotadas de um ritmo particular para que não sejam detidas ao nível do simples intelecto discursivo, mas possam atingir uma zona mais profunda e mais subtil do ser humano e aí agitar impulsos correspondentes.
    • Isto concorda com o objetivo mais geral, explicitamente declarado nos textos, de permear todo o corpo com certos estados de consciência, de modo a fazer com que certas formas de conhecimento ou certas visões sejam experienciadas "corporalmente".
    • O ritmo — tanto mental como, mais importante, aquele conectado com a respiração — é um dos métodos mais eficazes para alcançar isto.
    • O intelectual moderno, apenas interessado em captar uma ideia ou uma "teoria" o mais rapidamente possível na forma de um conceito cerebral e esquemático, perderá inteiramente o ponto das repetições dos textos budistas — e é natural para ele julgar isto como "o mais intolerável de todos os estilos".
  • Mas as repetições — pelo menos uma certa classe delas, particularmente as do Majjhima-nikaya — têm também outro objetivo: o de encorajar um certo grau de pensamento objetivo, impessoal e estritamente realista.

    • É, de facto, fácil ver que as repetições formam séries conectadas nas quais a realidade ou facto, o pensamento que é formulado ao apreendê-la, ou o pensamento que é despertado ao ouvi-las, a expressão verbal deste pensamento ou a exposição do facto, são encontrados em sequência lógica exata.
    • É assim que a estrutura das repetições é construída: em primeiro lugar, o texto descreve o facto (fase objetiva); a seguir, aparece a pessoa que toma nota dele e que comenta sobre ele, usando as mesmas palavras daquelas em que foi dado em primeiro lugar pelo texto (fase subjetiva); em terceiro lugar, a pessoa pode referir o facto a outros, nas mesmas palavras mais uma vez, como um puro reflexo de um pensamento conforme à realidade.
    • Pode também acontecer que uma segunda pessoa — normalmente, o próprio Buda — pergunte a outros se o facto referido é verdadeiro, e encontramos as mesmas palavras pela quarta vez.
    • Estilisticamente, este é um processo absurdamente tedioso.
    • Espiritualmente, é um ritmo de Sachbezogenheit, como se diria em alemão: é a passagem pura e transparente do mesmo elemento da realidade para o pensamento, da objetividade para a subjetividade, e de uma subjetividade para outra sem quaisquer alterações.
    • Devemos entender a atitude e o propósito com que textos deste tipo são lidos.
    • Uma leitura paciente deles pode ser uma disciplina: dão um exemplo de impessoalidade e de cristalinidade de pensamento que podem eles mesmos trabalhar formativamente no espírito do leitor, dando-lhe muito mais do que simples "conceitos".