Não podemos livrar-nos de nossa sombra fugindo dela, nem alguém pode enterrá-la, por mais fundo que cave o buraco. Uma sombra só pode ser afetada por meio da realidade de que é projeção distorcida e insubstancial.
Diz-se que o Maharshi observou que o mesmo ocorre com o ego. O conceito de Eu só pode ser abandonado pela busca do Eu-Realidade, do qual ele é um reflexo flutuante e intangível.
Pode-se suspeitar que aqui reside uma divergência essencial entre a abordagem vedântica e zen-taoísta e a do zen japonês moderno. Este último parece buscar o satori por meio de uma manipulação da psique — um processo representado pelo sistema dos koan de treinamento —, o qual parece contradizer a afirmação repetida dos Mestres da dinastia T’ang de que a Mente não pode ser alcançada pela mente (nem a Realidade por meio de sua sombra).
O Dr. Hubert Benoit revelou-nos o mecanismo desse processo, pelo qual uma distração da Atenção para um enigma que não tem significado em si mesmo isola a energia em seu ponto de entrada na manifestação — energia que normalmente se dispersaria em afetividade e fantasia inúteis —, promovendo assim uma acumulação sem a qual as explosões de satori dificilmente poderiam ocorrer (The Supreme Doctrine, p. 103).
Muito bem. Mas em que plano operava o inventor do sistema dos koan? O Maharshi e Hsi Yun falavam-nos a partir do plano da própria Realidade.
Talvez, contudo, possamos usar a sombra como indicação do lugar de onde provém sua fonte.