Voltando ao
estado primordial do homem, aquele do
Paraíso terrestre corresponde, acabamos de ver, em um grau existencial que se interpõe, no itinerário tanto pré-terrestre quanto
póstumo da alma humana, como uma “
estação” ou um
intermundo entre o céu e nossa terra,
intermundo que ela deve atravessar inevitavelmente. Vimos igualmente que o
ser humano se
envelopa da substância respectiva dos mundos que percorre, entre outras, por conseguinte, da
substância edênica e etérea, que é o intermediário entre a
substância celeste, sutil e “fluida” da alma e da
matéria grosseira, opaca ou “sólida” do
corpo terrestre. Este intermediário é o princípio substancial mesmo do
corpo carnal, sua
quintessência incorruptível comportando, ao estado perfeitamente homogêneo, as essências dos
quatro elementos sensoriais que o compõem e nos quais ele se decompõe no momento da morte. Se o
corpo terrestre é corruptível, seu
protótipo paradisíaco e interior é portanto imperecível, e não basta, falando estritamente, para definir a constituição do ser humano, de distinguir simplesmente entre “
corpo”, “
alma” e “
espírito”, — pelo menos assim é para o homem atual se situando no
estado de queda —; convém discernir mais precisamente entre o “
corpo grosseiro” ou
caído e o “corpo etéreo”,
prototípico e paradisíaco, que é necessariamente inerente ao primeiro, não somente enquanto sua
quintessência inalterável, na qual seus elementos acabam por se reabsorver para reencontrar sua
perfeição primordial, mas também enquanto mediador permanente entre ele — este
corpo de matéria opaca e obscura — e a alma, cuja substância é sutil e celeste e cuja natureza é essencialmente espiritual. Mas há uma diferença fundamental entre a
existência embrionária-passiva e o estado atualizado do
corpo interior, que retoma “forma” e força eficiente na medida de sua realização espiritual pelo homem. Este corpo “cristalino”, ao mesmo tempo “coagulado” e “translucido”, prefigura por sua
deiformidade e sua estabilidade o
corpo carnal ao qual transmite a luz do alto mas que, face à pureza e à perfeição de seu protótipo, que permanece na sombra. Por vezes, no entanto, esta transmissão da
luz espiritual é tão forte em certos homens de Deus que seu
corpo carnal é
transfigurado. Seu
corpo interior se encontra então como exteriorizado, e sua perfeição transparece através de seu
envelope mortal à ponto que a luz espiritual dela se irradia e se torna visível a outro, assim como a Bíblia relata para
Moisés descendo da montanha do
Sinai, dotado das
Tábuas da Lei: “... a pele de sua face tinha se tornado brilhante enquanto falava com
YHWH. Arão e todos os filhos de
Israel viram
Moisés, e eis, a pele de sua face brilhava” (Ex XXXIV, 29,33). Do mesmo modo, Jesus tendo conduzido os apóstolos
Pedro,
Tiago Maior e
João sobre o monte
Tabor, “foi transfigurado diante deles; sua face brilha como o sol, e suas vestes se tornaram brancas como a luz” (
Transfiguração).