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id da página: 4566 ESCRITURAS – TRADIÇÃO CRISTÃS

Escrituras e Tradição Cristã


VIDE: CRISTANDADE; EVANGELHO DE JESUS; CARTAS DE PAULO; CARTAS DE PEDRO; CARTAS DE THIAGO; CARTA DE JUDAS; CARTAS DE JOÃO; APOCALIPSE DE JOÃO; APÓCRIFOS



PAGELS, Elaine H. The Johannine Gospel in gnostic exegesis: Heracleon’s commentary on John. Nashville, Tenn.: Abingdon Press, 1973

O relato de Irineu sobre a teoria valentiniana da revelação (AH 4.19.2) indica que Heracleon aqui fala pela tradição valentiniana em geral. Mas os Valentinianos nunca sugerem que seus contemporâneos cristãos no segundo século tenham originado este “erro”. Eles traçam seu curso através dos evangelhos “canônicos” para o círculo dos próprios discípulos. Eles apontam com que frequência Cristo repreende os discípulos por tomarem suas declarações simbólicas literalmente (cf. AH 3.12.1 f; CJ 13.35). Eles veem Pedro como, talvez, o pior infrator, o mais persistente nesta atitude de teimosia literalista (AH 3.12.9). Os Valentinianos expressam consternação, mas nenhuma surpresa, ao ver a maioria dos cristãos contemporâneos (especialmente aqueles que estão começando a reivindicar uma “fundação apostólica” para sua fé) emular o literalismo dos discípulos, bem como sua fé.

Heracleon continua dizendo que aqueles que tomam os eventos relativos a Jesus “literalmente”—como se os eventos em si fossem a revelação—caíram em “carne e erro” (CJ 13.19). Seu erro consiste em confundir dados literais e históricos com a verdade espiritual. Eles falham em reconhecer estes eventos como “imagens”. Para reconhecer seu verdadeiro significado, é preciso chegar a ver que estes eventos não efetuam a redenção em si mesmos. Em vez disso, eles servem para simbolizar o processo de redenção que ocorre dentro daqueles que percebem seu significado interior.

Os mestres gnósticos tentam formular a teologia cristã em termos que consideram mais teologicamente significativos do que através da abordagem do “Jesus terreno” cuja presença domina os sinóticos. Alguns—como o próprio Valentino—apresentam escritos originais, como aqueles “evangelhos”, discursos de revelação, tratados, hinos e orações que nos são familiares como “apócrifos do Novo Testamento”. Por mais diversos que sejam em gênero e ponto de vista teológico, eles tentam em comum interpretar a revelação de Cristo em termos de seu significado interior e simbólico.

Certos outros teólogos gnósticos, em vez de produzir “evangelhos” originais, aplicam-se a fazer a exegese “espiritualmente” daqueles evangelhos já familiares à maioria dos cristãos—aqueles que até mesmo Irineu admite estarem de acordo com o “cânon” da fé da igreja (cf. AH 3.9.1-11.9). Estes teólogos pretendem que sua “exegese espiritual” demonstre o “erro” da leitura literal e eleve a consciência do leitor ao nível da interpretação simbólica.

As abordagens gnósticas dos “evangelhos”, então, diferem radicalmente das de seus oponentes teológicos. Eles tendem a rejeitar como “literalismo” a visão dos apologistas sobre os evangelhos. Os teólogos gnósticos afirmam que aquelas narrativas de evangelho aparentemente simples são na verdade alegorias—que, lidas “espiritualmente”, revelam em linguagem simbólica o processo de redenção interior. Eles reconheceram que explicitar as verdades simbólicas escondidas na escritura exigiria nada menos que o desenvolvimento de um novo método hermenêutico—e é precisamente isso que eles fizeram. Hipólito relata como evidência clara de sua heterodoxia que os Naassenos e os Peratas desenvolveram uma “nova disciplina hermenêutica”. Embora apliquem esta disciplina hermenêutica tanto às escrituras judaicas quanto aos evangelhos cristãos, os Naassenos não compartilham da preocupação de Hipólito em correlacionar eventos e “tipos” nas escrituras judaicas com eventos relatados nos evangelhos. Em vez disso, eles abordam os escritos judaicos e cristãos como abordam a poesia clássica—como um corpus de literatura sagrada simbolicamente escrita.

Tais escritos sagrados devem, eles presumem, ser dirigidos às questões mais profundas da existência: eles devem revelar a natureza de “todas as coisas”. No entanto, não se poderia esperar entender o significado de tais escritos a partir de uma leitura ingênua e não instruída deles. Quem quer que os interprete deve primeiro receber uma instrução teológica preliminar (que eles afirmam oferecer)—uma “iniciação na gnosis”. Resumida, sua doutrina iniciática afirma que “quem diz que todas as coisas são derivadas de um (princípio) é enganado; quem diz (elas são derivadas) de três, fala a verdade, e dá a exposição sobre o todo” (Ref 5.8.1). Por meio deste princípio, os Naassenos afirmam encontrar “prova escritural” para seus ensinamentos. Eles demonstram sua doutrina do Anthropos primordial a partir de Isa 53.8, bem como de outras passagens de escritos judaicos e cristãos. Na discussão de Hipólito sobre a exegese deles, as referências a João e Mateus ocorrem frequentemente; eles também citam Lucas, Marcos e as cartas paulinas.

Esta iniciação teológica os capacita a interpretar não apenas os evangelhos (incluindo “apócrifos”, Ref 5.7.9;5.7.20), mas quaisquer escritos que expressem (como eles acreditam que os ditos de Jesus o fazem) o conhecimento dos “mistérios” da existência humana. Eles explicam que estes mistérios são a elocução do Anthropos primordial, o arquétipo da humanidade. O conhecimento destes mistérios surge universalmente na experiência humana: os iniciados encontram alusões a eles na poesia de Anacreonte e Homero e nos sacramentos de Frigia e Eleusis, bem como nos ditos de Jesus.

Os Naassenos estão negando o que Justino, Irineu e Hipólito consideram a validade única da revelação em Cristo. Eles rejeitam o “Jesus terreno” junto com a leitura “simples” dos evangelhos—ou seja, o nível narrativo que relata sua vida, morte e ressurreição—assim como eles rejeitariam uma leitura literal do mito de Átis. Uma vez que a verdade consiste em um processo potencialmente universal de chegar a “conhecer” o significado espiritual da existência, eles afirmam que somente aqueles que foram iniciados e se “tornaram verdadeiramente gnósticos” são capazes de perceber o “grande e inefável mistério” (Ref 5.8.27) subjacente às palavras de um texto sagrado. O nível literal de qualquer texto, então, incluindo o dos evangelhos, oferece apenas a manifestação exterior do significado interior; ele contém a forma metafórica da verdade inefável.


Orígenes

Deve-se ousar dizer que, de todas as Escrituras, os Evangelhos são as primícias e que, entre os Evangelhos, as primícias são aquele de João, do qual ninguém pode apreender o sentido se não deitou-se sobre o peito de Jesus e não recebeu de Jesus, Maria por mãe. E. para ser um outro João, é preciso se tornar tal que, assim como João, se entenda designar por Jesus como sendo Jesus ele mesmo. Pois, segundo aqueles que têm dela uma opinião sã, Maria não tem outro filho senão Jesus; logo quando Jesus diz a sua mãe: "Eis teu filho" e não: "Eis, este homem é também teu filho", é como se lhe dissesse: "Eis Jesus que destes à luz". Com efeito, qualquer um que tenha chegado à perfeição "não vive mais, mas o Cristo vive nele" e, posto que o Cristo vive nele, é dito dele à Maria: "Eis teu filho". o Cristo.


Olivier Clément
Já há na Escritura um aspecto de encarnação. A Escritura incorpora o Verbo e a Encarnação do Verbo acaba de transformar em Eucaristia a audição ou a leitura da Palavra.

Porque o verdadeiro pensamento cristão é eucarístico. A eucaristia da inteligência — é preciso também amar Deus de toda sua inteligência — nos abre ao encontro nupcial do sacramento. E o sacramento por sua vez ilumina a inteligência.

É dito que bebemos o sangue do Cristo não somente quando o recebemos segundo o rito dos mistérios, mas também quando recebemos suas palavras onde reside a avida, como ele o diz dele mesmo: «As palavras que disse são espírito e vida». (Orígenes)

Em verdade, antes de Jesus, a Escritura era de água, mas depois de Jesus, ela se tornou para nós este vinho no qual ele se transformou. (Orígenes)

A escritura constitui assim o Corpo do Verbo. A significação última do Primeiro Testamento se desvela em Cristo pelo símbolo e a “tipologia” que desvenda nos personagens e eventos da Bíblia “tipos”, quer dizer figuras do Verbo encarnado e de sua ação salvadora. O lugar do simbolismo cristão é a Encarnação, a união do Divino e do humano na pessoa do Verbo. Ora a Bíblia inteira é um momento da Encarnação.

Eis como tu deves compreender as Escrituras: como o corpo único e perfeito do Verbo. (Orígenes).

Nos dois anjos (aparecidos no túmulo do Cristo) podemos reconhecer os dois Testamentos... Eles estão reunidos aí onde se encontra o corpo do Senhor, porque, em anunciando de maneira convergente que o Senhor encarnou, morreu, ressuscitou, os dois Testamentos estão de alguma maneira assentados, o Antigo a sua cabeça e o Novo a seus pés. É porque também os dois querubins que protegem o propiciatório se olhando um o outro.... Querubim, com efeito, quer dizer plenitude de conhecimento. E que significam dois querubins senão os dois testamentos? Que figura o propiciatório senão o Senhor encarnado, do qual João diz que se fez propiciação para nossos pecados? Quando o Antigo Testamento mostra que deve se realizar o que o Novo proclama cumprido no Senhor, eles se olham um o outro como os querubins, em virando seu olhar para o propiciatório, porque, vendo posto entre eles o Senhor encarnado, eles (...) recontam de maneira concordante o mistério de seu desígnio de amor. (Gregório o Grande)


Jacob Boehme

Do mesmo modo, convém a todos que pretendem falar sobre os mistérios Divinos ou mesmo ensiná-los, que possuam o Espírito de Deus, e que saibam à luz Divina o que expressar como verdade; nunca se deve extrair o ensinamento de sua própria razão, nem se apoiar meramente na letra morta, sem o conhecimento Divino, e levantar as Escrituras pelos cabelos, como costuma fazer a razão. Muitos erros surgem daí, pois os homens têm buscado o conhecimento Divino na inteligência e perspicácia próprias, passando da verdade de Deus para a razão pessoal, considerando a encarnação de Cristo como algo estranha e remota, enquanto todos devemos nascer novamente de Deus, nesta encarnação, se pretendemos escapar da cólera da natureza eterna.


Raimon Panikkar

As Escrituras cristãs são, assim penso, totalmente acidentais em relação à revelação cristã. João ele mesmo o sugere: "se se quisesse relatar tudo que se passou, a terra inteira não poderia conter os livros que necessitariam escrever (Jo 21,25(. Em realidade, a continuação do Cristo ao longo da história, é a Eucaristia (no terreno cristão) que o exprime e a realiza, e não a narração histórica. E é a Eucaristia que está em relação constitutiva com a Igreja, como mostrou magistralmente Henri de Lubac entre outros.


Roberto Pla
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É no sentido de identificação com todas as aderências mortais, ou pelo contrário, de permanência eterna e independente como consciência pura em Cristo vivente, por onde gira o pensamento neotestamentário, o qual traça uma linha meridiana que separa e diferencia as duas esferas de crer e não crer, de haver percebido ou não a intuição do Ser, do si mesmo. Segundo se diz: Quando é chegada a hora, os mortos (viventes) "ouvem a voz" do Filho de Deus (Jo 5, 25), para ser retornados "como mortos à vida" (Rm 6,13).

Em verdade só "os que guardam a Palavra", primeiro a esperam e logo a intuem, a buscam, a amam, a percebem e, ao final, a encontram e a guardam. Como é a Luz do Conhecimento que vem do Filho, "não saborearão a morte jamais" (Jo 8,52). Eles têm a Vida eterna e não incorrem em juízo, senão que "passaram da morte à Vida" (Jo 5,24). Já não vão morrer, porque são iguais aos anjos; são filhos de Deus e, portanto, "filhos da ressurreição" (Lc 20, 30).


Michel Henry: PALAVRAS DO CRISTO

Pode-se admitir contrariamente às contraverdades da exegese positivista, pseudo-histórica e ateia do século XIX, que as palavras do Cristo nada tem a ver com as invenções de comunidades cristãs tardias. Elas se oferecem a nós a título de documentos autênticos. Nada impede no entanto de considerá-las como palavras humanas, e isso em todos os sentidos da palavra. Palavras pronunciadas por um homem se dirigindo a outros homens na linguagem dos homens e lhes falando deles mesmos. Deles mesmos, quer dizer de sua natureza, de suas qualidades e de seus defeitos, lhes indicando o que deviam fazer, onde está o bem e onde o mal: uma ética, com efeito.

Todavia, estas palavras do Cristo se dirigindo aos homens não os concerniam todas. Certas palavras lhes falam não deles mesmos, mas do que ele é, ele que lhes fala. Estas são as mais estupendas. Elas compõem o que se deve denominar "um discurso do Cristo sobre ele mesmo". E que este discurso singular circunscreve a parte mais importante de seu ensinamento, aquela donde todo o resto decorre, eis o que não poderia escapar a quem medita declarações sem equivalente na história do pensamento humano. Jamais com efeito estas palavras dirigidas aos homens em uma linguagem que é a sua, e nas quais o Cristo lhes fala dele mesmo, não falam dele como se ele fosse um dentre eles, como se fosse um homem. De maneira velada, desviada a princípio, abertamente em seguida, é bem como Filho de Deus e, assim, aos olhos de todos aqueles que lá estavam, como Deus ele mesmo que ele se designa. E que estas afirmações abaladoras não sejam mais o produto das fabulações tardias de comunidades exaltados, se vê nisto que elas foram durante sua vida a causa direta de sua condenação e de sua morte. No que se tratam de simples profetas, os judeus deles tinham o hábito e eles os suportavam mais ou menos. Se João Batista foi decapitado, não foi porque ele profetizasse ou batizasse, mas, como se sabe, pelo efeito da rusa de uma mulher da qual ele anunciava o adultério.

EU SOU A VERDADEQUE CHAMAREMOS CRISTIANISMO?