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Lei de Talião

MANDAMENTOS — LEI DE TALIÃO



CAMINHANTES
Annick de Souzenelle: RESSONÂNCIAS BÍBLICAS

Bem-aventurado aquele que, não seja senão pela via de uma única das nove Beatitudes, alcance a romper a aparência das coisas e a penetrar o único Real que cada uma exprime.

«Vos disseram que... mas vos digo», proclama Jesus que acaba de quebrar por sua vez as Tábuas reconstituídas por Moisés para se oferecer de novo em primeira leitura do Verbo de Deus.

Já os profetas tinham tentado abrir o coração do povo de Israel — nosso coração para todos — à necessidade e «morrer para ressuscitar» e de acolher ao outro. Ó povo de nuca dura [dura cerviz]! Ó corações lentos a compreender!

"Olho por olho". Tão cruel reparação não arriscaria vir a alimentar o desejo de vingança e de justificar esta vingança tão natural ao coração animal do Homem? E não é esta inclinação da fera interior à reação brutal que denuncia Jesus?

A palavra «Talion» ela mesma não parece de origem hebraica, mas latina, para designar as Tábuas da Lei. À partir do hebreu poderia ser a forma construída de 'Alion, «supremo», e seria a «lei suprema»; alguns dizem: uma contração da palavra hebraica Tagmoul que significa «benefício, retribuição».

«Que oferecerei ao Senhor por causa de todos seus benefícios para mim»».

Este substantivo é a forma construída de Gamoul que tem o mesmo sentido que Tagmoul mas que é inseparável da raiz Gamal, o «camelo» cujo simbolismo foi evocado acima; pronunciado Gamol, este verbo significa «tornar semelhante», seja recompensar ou punir, sem esquecer a conotação de «liberação» contida nesta raiz. Ora a vingança nada libera. Uma retribuição justa, sem qualquer espírito de vingança, tal é a lei escrita do Talion.

Se lemos com mais atenção o contexto da lei escrita, podemos ignorar que a vingança aí está proscrita e o amor do inimigo fortemente expresso:

«Não odiarás teu irmão em teu coração...
Não te vingarás, não guardará rancor...
Amarás teu próximo como a ti mesmo. Eu Sou»,

diz o Levítico que adiciona:

«Se encontrares o boi de teu inimigo ou seu asno perdido, conduze-o a ele. Se vês o asno de teu inimigo dobrando-se sob o fardo, não te desinteresses, ajuda-o a descarregá-lo. »

E o rei Salomão adiciona:

«Se teu inimigo cai, não te regozijes; se estrebucha, que teu coração não tenha prazer»;
«Teu inimigo tem fome, lhe dê de comer, tem sede, lhe dê de beber. »


Jesus não vem anular a lei, mas «a cumprir», diz ele, em a esclarecendo de imediato do entulho das primeiras tábuas que tinham sido quebradas por Moisés; pois, substituída pela ordem ontológica que é o Verbo de Deus, a segunda lei escrita revela sua própria iluminação; ela não pode então de forma alguma ser tomada como vingança e ódio do inimigo, mas como justiça imediata. Conhecemos a lei ontológica da qual ela é a imagem; ela foi dada por Deus a Noé:

«Quem quer que verse o sangue do Homem, no Homem seu sangue será versado pois, na imagem de Deus, Deus fez o Homem. »