VIDE: PAI; FILHO DO HOMEM; HUIOS TOU ANTHROPON; GERAÇÃO; PROCESSÃO
Ho huios tou anthropou é uma translação de uma expressão idiomática semita. Na Bíblia hebraica, exceto em casos quando uma parente específico ou ancestral é nomeado, «filho de X» significa o sentido que se tem a qualidade ou natureza de X. Por exemplo, quando Deus repetidamente se dirige a Ezequiel como um "filho de um ser humano" (ben adam em hebraico), significa "humano" ou "mortal". Outro exemplo claro é o Salmo 8,4, onde a palavra hebraica para um ser humano, adam, tem um coletivo ao invés de um sentido individual: «O que são seres humanos (adam) que é pensativo deles, mortais (ben adam) que preocupastes por eles?» Dois dos discípulos de Jesus são identificados tanto como filhos de Zebedeu e «filhos do trovão», um apelido presumivelmente refletindo seus temperamentos. Também refletindo a idiomática semita são «filhos deste mundo» e «filhos da luz», «filhos do reino» e «filhos do maligno», e «filhos de Deus» e «filhos da ressurreição». (Robert J. Miller)
Orígenes: HOMÍLIAS SOBRE O LEVÍTICO
Mestre Eckhart: Excertos da ótima versão portuguesa dos "SERMÕES ALEMÃES", de Enio Paulo Giachini
A esse modo de ser que precisamente não é mais modo, mas simplesmente ser, ou ser como plenitude ab-soluta, a tradição do cristianismo chamou de Deus quoad se 1 ou vida interior ou vida íntima de Deus, formulada como Mistério da Sanctissima Trinitas. E os termos da compreensão dessa vida, que é o próprio Deus ou o próprio seu, são o uno ou um e o três como pessoa (Pai-Filho-Espírito como dinâmica da gênese da vida divina, resumida nos termos geração e processão ou filiação). O a priori desse sentido do ser, ab-soluto, livre e solto em (in) e a partir de si (a se), portanto, do desprendimento (Abgeschiedenheit) assume o sentido do ente no seu todo como o da existência artesanal medieval, e faz com que a própria compreensão da criação e das criaturas não mais opere a partir e dentro do ser da causação nem do ser da criação artesanal, mas sim a partir e dentro da expansão, da difusão na dinâmica da geração da vida interna de Deus. Essa difusão na dinâmica da filiação se expressa como o mistério da encarnação. A causação e a criação são, no fundo, como que repercussão da percussão inicial da filiação divina, repercussão na qual o tom fundamental está sempre ressonante, a se espraiar como eco longínquo da sua dinâmica. Todos os entes referidos à dinâmica da causação e da criação recebem a dinâmica da filiação divina da intimidade da vida interna de Deus, na ternura e no vigor da sua Abgeschiedenheit.
Filosofia
Michel Henry: EU SOU A VERDADE
Por esta razão (nossa condição de Filho de Deus) o discurso do Cristo sobre ele mesmo, quando vem a concernir os homens, pode bem suscitar sua emoção, permanece no entanto incompreensível. Porque os homens não compreendem sua própria condição senão à luz da verdade do mundo. Ser filho para eles quer dizer ser o filho de seu pai e de sua mãe. Nascer quer dizer vir ao mundo, aparecer em tal lugar do espaço, a tal momento do tempo — sair do ventre de sua mãe neste lugar e neste momento, de tal maneira que antes deste nascimento o filho ou o feto se encontraria já no mundo e finalmente sob forma dos germes no corpo de seu pai e naquele de sua mãe. Esta interpretação do nascimento e assim da condição de filho é aquele do homem moderno, percebendo e compreendendo toda coisa na verdade do mundo. A esta visão coisista da origem da humanidade, a ideia de uma proveniência divina se justapõe de maneira misteriosa nos povos antigos. Longe de se reduzir a um simples preconceito, uma tal ideia exprime espontaneamente a vida verdadeira dos homens, sua vida transcendental e invisível tal que eles a vivem imediatamente. Embora a experimentando sem cessar, eles não chegam, em razão de seu caráter invisível, a dela fazer uma concepção correta, nem mesmo a imagem. A suas crenças metafísico-religiosas se ligam neles representações grosseiramente realistas. É a este equilíbrio que põe um termo o advento do pensamento moderno. Afastando deliberadamente a vida transcendental do campo do saber humano circunscrito doravante ao conhecimento objetivo do universo material, a redução galileleana e a ciência que dela saiu portam ao absoluto a interpretação mundana do nascimento e assim da condição de filho. Se o discurso que a modernidade tem sobre o homem alcança por toda parte ao denegrimento deste, a seu abaixamento e finalmente a eliminação de sua individualidade em benefício de processos anônimos inconscientes e assim a sua negação pura e simples, é em forçando a interpretação mundana a seu termo, quando nascimento, filho e homem não são mais, no final das contas, senão metáforas.
É esta interpretação mundana do nascimento que o discurso do Cristo sobre ele mesmo faz voar em pedaços. Notável é o fato que é precisamente falando dele mesmo que o Primeiro-Nascido (Primogênito), o Arque-Filho transcendental, se revela capaz, em colocando seu Arque-nascimento na Vida no princípio de todo nascimento concebível, de conferir a este sua significação verdadeira. Assim todo nascimento se encontra compreendido como sendo ele mesmo transcendental, gerado na Vida absoluta e por ela. Ao mesmo tempo que o conceito de nascimento, é aquele de Filho que se acha subvertido, arrancado a toda interpretação natural. Mas esta condição de Filho, de Filho pensado transcendentalmente, proveniente de um nascimento transcendental, é aquele do homem: é o homem ele mesmo que é arrancado à natureza, entregue à Vida. Colocar os conceitos de nascimento e de Filho sob a salvaguarda do Arque-Filho transcendental, é com efeito se referir necessariamente à Vida absoluta da qual o Arque-Filho não é senão a auto-realização sob a forma de sua auto-revelação. É apelar inevitavelmente a uma outra Verdade que aquela do mundo, a esta Verdade da Vida fora da qual não há com efeito nem nascimento nem Filho, nenhum vivente de nenhuma espécie.
NOTAS: