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Mestre Eckhart

MISTICISMO RENANO-FLAMENGO — MESTRE ECKHART (1260-1327)


SCHÜRMANN, Reiner. Maître Eckhart ou la joie errante. Paris: Denoël, 1972

Demasiadas palavras se apressam aos nossos ouvidos, é preciso reaprender a ler Mestre Eckhart. Contudo, tanto para o curioso não avisado quanto para o especialista familiarizado com a sua obra, Mestre Eckhart é um autor que desconcerta. Para maior clareza, o leitor de hoje pode recorrer a numerosos comentadores e intérpretes. O embaraço, todavia, só poderá aumentar: as luzes que, há mais de seis séculos, se projetam sobre a obscuridade do seu pensamento são a tal ponto divergentes que se hesitará em escolher uma delas para guia.

Sob o impulso das correntes ideológicas contemporâneas, há mais de um século, cada geração se viu constrangida a abrir o dossiê eckhartiano a partir do começo e a recorrer aos textos. A filosofia alemã do século XIX apodera-se de Mestre Eckhart como de um ancestral e o institui “pai da especulação germânica” (Joseph Bach, 1864). Hegel vangloria nele o reconciliador da fé e da ciência, Schopenhauer, o fundador do idealismo transcendental, Schelling saúda nele o parente próximo da sua própria filosofia da Revelação. São, sem dúvida, Schelling e Franz von Baader que refletem o mais autenticamente o pensamento de Mestre Eckhart. Face a esta tomada de posse intrépida, o mérito cabe a Franz Pfeiffer e Henri Denifle por terem restabelecido para esta época a letra dos textos de Eckhart. Depois sobrevém a pseudomitologia nacional-socialista com a sua exaltação do “homem eckhartiano”. Não é apenas o Mythus des Zwanzigsten Jahrhunderts de Alfred Rosenberg que divulga estas interpretações aberrantes do mestre renano: o abuso racista se encontra até nos trabalhos universitários desses anos, e o torna irreconhecível.

Um retorno às fontes se impunha. Foi esta a origem, em 1936, da admirável edição crítica das obras latinas e alemãs de Mestre Eckhart cujas publicações prosseguem ainda. Hoje, finalmente, ainda que excelentes estudos históricos tenham surgido, raras são as obras que fazem entrar na articulação filosófica do seu pensamento. Raciocinar na companhia da própria letra dos sermões alemães, eis hoje a tarefa. Uma vez mais, a escuta dos textos será a peça mestra deste esforço.

Estranhamente, há alguns anos, são autores afastados da tradição cristã que descobrem em Eckhart um verdadeiro mestre. Certos budistas reconhecem na sua prédica como um vislumbre da sua própria, via espiritual. Na Alemanha, no Japão, nos Estados Unidos, Mestre Eckhart é muitas vezes considerado como o lugar privilegiado de um diálogo com as escolas do Extremo Oriente. Por outro lado, a bom número de marxistas, Mestre Eckhart aparece como o teórico da luta de classes na Idade Média. Este “místico de esquerda” teria conduzido o seu combate a fim de libertar os plebeus da força opressora da Igreja feudal, ou mesmo de Deus. A “abertura” do homem para além de Deus, da qual Mestre Eckhart fala muitas vezes, designaria a apropriação pelo homem do seu bem autêntico, alienado pelo dogma num céu inacessível.


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