Filosofia
Michel Henry
EU SOU A VERDADE
A elaboração do conceito cristão da Verdade (Verdade do Cristianismo) fez aparecer esta como encontrando sua essência na Vida. Enquanto idêntica à Verdade, a Vida se compreende de pronto como fenomenológica. Que a Vida seja Verdade significa que ela é manifestação e revelação, no sentido original que reconhecemos nestes termos. A Vida não “verdadeira”, o que não desejaria nada dizer além disto: ela se manifesta, ela se mostra. Neste caso nada a distinguiria de um fenômeno qualquer, de tudo o que se mostra em geral. Uma tal proposição não permaneceria somente indeterminada, deixaria na sombre o problema da Verdade e notadamente aquele da verdade própria à Vida. Não somente o que se mostra pressupõe uma “mostração”, uma manifestação prévia sem a qual nada não se manifestaria jamais para nós, nenhum fenômeno de qualquer espécie. Mas a questão central da fenomenologia, diretamente implicada na inteligência do cristianismo, é aquela de saber como a manifestação rende manifesto tudo o que ela manifesta, mais essencialmente como ela se manifesta ela mesma. Antes de render manifesto o que quer que seja com efeito e para poder o fazer, a manifestação deve se manifestar ela mesma em sua pureza, enquanto tal. Antes de iluminar cada coisa, a luz brilha de seu próprio brilho. É quando é posta a questão central da fenomenologia que se descobre para nós a extraordinária originalidade do cristianismo, a clivagem decisiva sobre a qual ele repousa por inteiro. Ao conceito grego de fenômeno que vai determinar o pensamento do Ocidente, a interpretação da manifestação das coisas, mais rigorosamente da manifestação desta manifestação como verdade do mundo, verdade cuja fenomenalidade é aquela do “de fora”, o cristianismo opõe de maneira massiva sua concepção da Verdade como Vida. Vida recebe portanto no cristianismo uma significação fenomenológica tão original quanto radical. Vida designa uma manifestação pura, irredutível àquela do mundo todavia, uma revelação original que não é a revelação de outra coisa e que não depende de nada de outro, mas uma revelação de si, esta auto-revelação absoluta que é precisamente a Vida.
Aparte sua essência fenomenológica, porque ela é assim Verdade, manifestação pura, revelação, a Vida da qual fala o cristianismo difere inteiramente do objeto da biologia. Seus diversos elementos evidenciados pelas ciências biológicas — físicos, químicos, ou especificamente biológicos — são todos fenômenos ou remetem à fenômenos, sem o que nenhuma ciência, tão elaborados ou sofisticados que sejam seus métodos, não poderia deles nada saber. Mas precisamente estes diversos fenômenos não têm deles mesmos sua fenomenalidade, sua capacidade de se mostrar a nós. Esta capacidade de se mostrar e assim de se tornar objeto de um saber possível, eles a devem a um poder de manifestação que lhes é estrangeiro, enquanto neles mesmos eles são “cegos”. E este pode de manifestação estrangeiro aos elementos em si cegos que estuda a biologia, é a verdade do mundo.
A oposição radical entre a matéria fenomenológica da qual é feita a Vida enquanto auto-revelação, enquanto Verdade original, e por outro lado, a matéria não fenomenológica dos elementos constitutivos das propriedade químicas ou propriamente biológicas, suscita uma questão embaraçante mas incontornável, aquela da relação que existe entre a abordagem do cristianismo, e a abordagem contemporânea, relação que não pode aparecer, assim parece, senão conflitual. O Cristo ignorava todas as descobertas sensacionais da biologia do século XX. Em todo caso o discurso que ele professa sobre a vida dele não se dá conta. Quando declara, em uma palavra sobre a qual teremos que retornar: “Sou eu (...) a Vida...”(Jo 14,6), não quer significar que é um composto de moléculas. E mesmo aqueles de seu contemporâneos que não viam nele senão um homem, no máximo um profeta, não consideram portanto como um “homem neuronal”.