São Tomás (Summa Theologica, III, 18, 5, 6) pergunta-se se havia contrarietas de vontade em Cristo quando disse: “Afasta de mim este cálice amargo”, e responde: o conflito ocorre quando os opostos são desejados de um único ponto de vista sob todos os aspectos, e isso nasce da incompreensão ou da inconsciência. Cristo estava consciente dos opostos: cada vontade era motivada e, em sua ordem, legítima. É o máximo que pode dizer o discurso mais articulado ao procurar definir o conhecimento místico.
São Roberto Belarmino, em As sete palavras de Jesus Cristo na Cruz (Roma, 1947, p. 39), afirma: “O mundo é inimigo de Deus porque todo o mundo está sob o maligno (João, 4), e quem ama o mundo não tem a caridade do Pai (João, 2), porque quem é amigo deste mundo é inimigo de Deus; e São Tiago escreve: ‘Quem quer ser amigo deste mundo torna-se inimigo de Deus’. Deus, amando o mundo, amou, portanto, o seu inimigo — mas para fazê-lo seu amigo.” O mundo recusou Cristo, agravando assim a própria culpa, voltou-se contra o Mediador.
A crucifixão é o mal querido como mal e, por isso, oferecido à atenção daquele que o quer como bem; foi isso que Santa Maria Madalena de’ Pazzi compreendeu quando, nas Quarenta jornadas, escreveu, a propósito do despojamento de Cristo antes da crucifixão: “E Ele mesmo se despe, o meu amor. E o mesmo acontece quando uma alma se despe da Inocência” (p. 117, ed. crítica, Milão, 1961).
São Bernardo disse que a encarnação ensina uma misericórdia que não provém do exercício de atenção à miséria: “Quando jamais teríamos sentido a existência daquela divina compaixão, desconhecida para nós, que não provém do sofrimento, mas coexiste com a impassibilidade? Contudo, se não houvesse antes a misericórdia que não conhece a miséria, Deus não teria tido esta outra espécie de misericórdia que provém da miséria” (II, IV).
A encarnação de Deus consiste em seu “tomar forma de escravo” (expressão usada tanto no mito de Apolo quanto na Carta de Paulo aos Filipenses); escravo é aquele que não tem vontade própria, mas apenas vontade alheia; filho do senhor é aquele que, mesmo operando como escravo, não sente opróbrio, pois trabalha no que é seu e para o seu. O senhor envia seu filho único entre os escravos, a fim de que, aprendendo estes a trabalhar como ele, sem ressentimentos, como se fosse em coisa própria, possam ser adotados, tornando-se também senhores.