Daryush Shayegan: Henry Corbin
Toda a meditação sobre os dados essenciais do Islã conduziu desde cedo, já a partir de Farabi, a uma convergência entre teologia e filosofia, e a identidade do Anjo do conhecimento (para os filósofos) e o Anjo da revelação (para os profetas). Quanto à vontade de associar a vocação do filósofo à vocação do profeta, Corbin estima que isso caracteriza sobretudo o traço marcante e original da filosofia irano-islâmica e o destino particular do Irã no mundo islâmico. Avicena depois de Farabi já havia esboçado, Sohrawardi o amplificou às dimensões de uma «conjunção» onde filosofia e mística se tornavam dois aspectos de uma mesma experiência espiritual. Molla Sadra disto deu a fórmula definitiva: «A Revelação corânica, disse, é a Luz que faz ver, ela é como o sol que prodiga sua luz. A inteligência filosófica, é o olho que vê esta luz. Sem esta luz, não se poderia ver nada. Mas se se fecha os olhos, quer dizer se se pretende passar da inteligência filosófica, esta luz ela mesma não será vista, posto que não haverá olhos para vê-la».
O acordo em o nível de profeta e do filósofo, já tinha sido formulado pelo célebre filósofo da Escola de Ispahan, Mir Fendereski, mestre de Molla Sadra. Sua obra ilustra, diz Corbin, «da parte do xiismo, um reconhecimento da vocação do filósofo desde muito tempo reivindicada pelos filósofos (Farabi, Avicena, Sohrawardi), mas que lhes foi raramente acordada no resto do Islã». Mir Fendereski estabeleceu a princípio distinções: a via do conhecimento para os filósofos passa pela reflexão (fikr); para os profetas, ela passa pela revelação (wahy) e a inspiração (ilham) sem necessidade de fikr. A investigação dialética do filósofo se traduz em eclosão espontânea no profeta. O Xeique esboça toda uma teoria da experiência visionária que pressupõe a ideia dos sentidos espirituais, relativos ao mundo imaginal e finalmente assim a relação entre o conhecimento do profeta e aquele do filósofo: «aí onde o filósofo chega a seu termo final, aí mesmo começa a profecia».
Ele reconhece no entanto aos filósofos o nível de profetas menores, quer dizer o nível dos profetas não-enviados (ghayr-e morsal), inferiores aos profetas missionados pela Salvação da comunidade. A visão do filósofo que tem Mir Fendereski não pode portanto «se entender que do filósofo cuja filosofia é precisamente a marcha à "filosofia profética", daqueles que seguem a via do Ishraq e dos quais alguns, com efeito, atingem aos graus da walayat, por que sua via é aquela dos profetas e que eles estão à igualdade com os perfeitos de entre os peregrinos da via maometana».
- A conjunção do filósofo e do Nabi, antídoto à dupla verdade
- Graças ao triunfo do averroísmo no Ocidente o divórcio entre fé e saber, teologia e filosofia devia chegar à coexistência de duas ordens de realidade contraditórias; uma coisa pode ser verdade teologicamente e falsa filosoficamente e vice-versa. Esta separação foi conhecida no Ocidente sob a forma da dupla verdade e passando pelos averroístas da Universidade de Paris, ela desembocou sobre o que se chamou mais tarde o averroísmo latino da Escola de Pádua. Mas outro foi o destino da filosofia do Irã, onde se ignorou tudo de Averróis e do averroísmo. O sábio e o profeta retiram da mesma fonte de inspiração, eram os co-testemunhos de uma experiência, os companheiros de uma mesma viagem. Se a ascensão do profeta (miraj) serviu de modelo a toda progressão vertical para o espírito, a ideia de Retorno tomou para o místico o sentido de uma assunção, assim como o filósofo se iluminando pelo Anjo do conhecimento percorria as mesmas etapas, a partir de seu «exílio ocidental». Toda espiritualidade se centra sobre a figura do profeta.
- A filosofia profética e a angelologia
- Uma religião profética não pode sobreviver sem uma angelologia., posto que é o Anjo que é o mediador e o iniciador dos profetas.
- Refutação da Encarnação e do historicismo
- A encarnação é um fato único e irreversível: Deus em carne e em osso se encarna a um momento preciso da história. O lugar e a Data da Encarnação se tornam um ponto de referência por excelência.
- Filosofia profética e xiismo
- O Imã, enquanto hermeneuta por excelência do Livro Santo, se torna um postulado essencial da filosofia profética. E esta consciência aguda do fim da profecia e a convicção concomitante que a humanidade não pode permanecer sem a presença dos profetas que determina, diz Corbin, «o sentimento profético do xiismo»; sentimento tanto mais agudo que desemboca em um tentativa escatológica e sobre a parusia do Imã esperado, presentemente ocultado, cuja parusia virá fechar o ciclo de nosso Aion.