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id da página: 2443 Evangelho de Tomé - Logion 20

Evangelho de Tomé - Logion 20

Os discípulos disseram a Jesus: Diga-nos a que é semelhante o reino dos céus. Ele lhes disse: é semelhante a um grão de mostarda, a menor de todas as sementes; mas quando cai sobre a terra cultivada, produz uma grande árvore e se converte em abrigo para os pássaros do céu. Roberto Pla

EVANGELHO DE JESUS: PARÁBOLA DA SEMENTE DE MOSTARDA



Roberto Pla

Com a parábola do grão de mostarda pleiteia o evangelho uma breve imagem comparativa para ajudar a discriminar o mais fielmente possível algumas particularidade concretas do reino de Deus (Mateus sendo o único que, como o logion, emprega a denominação “reino dos céus”); mas por causa de sua simplicidade expositiva, ocorre com esta parábola o mesmo que com muitas outras perícopes testamentárias: que poucos estimam necessário submeter a nova revisão um juízo aceito de antemão por influxo de uma tradição milenar. No entanto, a experiência demonstra que nos relatos evangélicos não há um só logion fácil de interpretar em sua última e profunda verdade, até o ponto que se pode dizer que quem opina que os textos evangélicos são simples de entender, é porque é tão profunda sua ignorância deles que nem sequer sabe que não os entende.

O número de figuras de linguagem e de matizes sutis de que dispõem os “escribas” do evangelho parece, na verdade, inesgotável, razão pela qual se aconselha a persistência em uma incansável solicitude analítica se é que se quer sair de uma interpretação incompleta ou, às vezes, errônea.

Fiel a sua proposição comparativa, confirma muito claramente a parábola a semelhança e fecundidade de crescimento do grão de mostarda e da semente do reino de Deus no homem, quando ambos caem em terra cultivada; mas a força expressiva das imagens suscitadas pelo relato, desde a simples semente até as grandes ramas povoadas de aves, absorve a atenção tão intensamente que ao final, o que escuta se esquece de que a descrição proposta não era a da peculiar árvore da mostarda e sua representação mundana, senão a do reino de Deus.

Para salvar esta desviação habitual seguiremos sistematicamente os três pontos em que se decompõe a parábola com rigor estritamente comparativo, usando P, para parábola e R, para reino.

1P: O grão de mostarda é a menor de todas as sementes
1R: O homem pneumático, nascido do céu, é um desconhecido para a consciência do primeiro homem, o Adão, alma vivente, que explica Paulo (1Co 15, 45-49). A semente é comparada ao homem espiritual, eterno, o qual é como recordou Jesus, “a pedra que os construtores desprezaram” (Maus Lavradores).

2P: Quando cai na terra cultivada (esta semente) produz uma grande rama.
2R: O cultivo da semente consiste em crer no Filho do homem, enquanto semente verdadeira semeada em nosso interior. A imagem do homem terrestre que levamos, deve converter-se em imagem do homem celeste. Ao final, a pedra desprezada se descobre como pedra angular. (v. Pedra)

3P: Se converte a árvore em abrigo (ninho) para os pássaros do céu.
3R: Esta é a proposição que ainda não foi respondida desde sua posição verdadeira de pássaros do reino de Deus, senão que sempre se tentou a resposta desde os pássaros do céu terrestre.

Esta habitação de toda classe de pássaros que segundo a parábola morarão à sombra da rama da árvore, foi interpretada tradicionalmente, segundo os fundamentos proféticos de Ezequiel e Daniel em seu sentido de restauração da vertente manifesta da era messiânica inaugurada por Jesus.

  • No monte alto de Israel o plantarei; e produzirá ramos, e dará fruto, e se fará um cedro excelente. Habitarão debaixo dele aves de toda a sorte; à sombra dos seus ramos habitarão. (Ez 17:23)
  • Beltessazar, chefe dos magos, porquanto eu sei que há em ti o espírito dos deuses santos, e nenhum mistério te é difícil, dize-me as visões do meu sonho que tive e a sua interpretação. (Dn 4:9)


Isso supõe interpretar que todos os povos pagãos e gentios convertidos e agrupados com seus descendentes sob o impulso da Boa Nova, aparecem figurados nos “pássaros do céu”.

Ninguém teria que objetar a esta interpretação se não fosse porque com ela a mente exegética ficasse presa na árvore explicando-a e sua rama, quando o que Jesus pretende com sua parábola não é explicar a árvore e seus acontecimentos terrenos históricos, senão iluminar a percepção e o entendimento do reino de Deus por meio da imagem da árvore.

Na verdade, os pássaros do reino do céu não são os pássaros do céu; nem sequer são do céu "que não passa" os “adãos de alma vivente” só superficialmente agrupados, senão unicamente os “adãos de espírito que dá vida", o homem segundo, nascido do céu, reunidos como pássaros celestes verdadeiros em um único "ninho", quer dizer, feitos “perfeitamente Um” (Jo 17,23) na grande rama do reino de Deus.


Emille Gillabert

O Reino é uma realidade que os discípulos têm dificuldade em compreender: o mental não pode conhecer o que o transcende. Jesus propõe abordagens com a ajuda de várias parábolas e ele habitualmente emprega a expressão: “O Reino é comparável a...” Por que ele recorre a esta forma de linguagem? Existem coisas que o profano não pode ouvir. A parábola permite justamente evitar a censura de blasfêmia que o psíquico dirige ao pneumático. Este a ouve em seu nível de consciência. A propósito da parábola do semeador, Jesus diz nos sinópticos: eu lhes falo em parábolas, porque olhando, eles não veem e que ouvindo, eles não ouvem nem compreendem (Mt 13, 13; Mc 4, 11-12; Lc 8, 10). O psíquico ouvindo a parábola poderá não compreender nada ou pensar que ele é a semente, ou a terra, etc. Somente o gnóstico se identificará com o semeador.

Aqui, a comparação do Reino com a semente de mostarda é ao mesmo tempo satisfatória e contestável. Tudo já está na pequena semente: o caule, as folhas, os frutos; da mesma forma, o Reino já está aí, totalmente, mesmo se não se percebe ou se tem apenas um pressentimento vago e intermitente. No entanto, se o Reino ainda está parcialmente velado, é por causa do mental que não abdicou realmente. Assim, embora tudo esteja aí, ao mesmo tempo um e diverso, não diferenciado e diferenciado, desdobrado e reabsorvido, isso ainda não é reconhecido. O Reino está portanto aqui-agora onipresente apesar das sombras; ele é como o sol que as nuvens não impedem de brilhar. Em contrapartida, embora inteira na semente, a planta não pode ser como o Reino ao mesmo tempo desdobrada e em germe; seu crescimento está em devir.

O germe busca seu alimento na semente primeiro, na terra em seguida, como o pintinho no ovo, se desenvolve graças à substância do ovo. O que era desaparece no que se torna. Isso é verdade também no processo de realização, no sentido de que o mental pessoal é absorvido pelo mental cósmico. A comparação ainda vale no que diz respeito à realização no tempo: a planta, como o ovo, se desenvolve em um devir; da mesma forma, para que o mental se apague, é preciso também contar com o tempo. Mas a diferença provém do fato de que não é o Reino que se desenvolve e cresce; contrariamente à planta ou ao ovo, ele está desde agora em sua realização e sua plenitude. No entanto, é conveniente precisar que comparar é aproximar por conveniência elementos sem ter necessariamente que constatar sua identidade.

No limite, o Reino, indissociável do Rei, é sem comparação. Pois compará-lo com alguma coisa é introduzir a dualidade na Unidade. No entanto, se a aproximação sugere fazer do dois Um, então o dinamismo que ela suscita encontra sua justificação.


Os sinópticos (Mt 13, 31-32; Mc 4, 30-32; Lc 13, 18-19) retomaram a parábola, ampliando-a com empréstimos do Antigo Testamento: “Todos os pássaros do céu se abrigarão à sombra de seus ramos” (Ez 17, 23). “A árvore cresce, se torna poderosa..., em seus ramos aninham os pássaros do céu” (Dn 4, 8-9).


NOTA: No Evangelho segundo Tomé, a palavra Reino é empregada frequentemente sozinha; nesta forma, ela aparece 12 vezes, enquanto reino do Pai figura 7 vezes e reino dos céus somente 3 vezes. Em contrapartida, não se encontra a expressão reino de Deus. Esta omissão é característica de uma escolha deliberada: Jesus, já se viu, se desvincula do Deus psíquico do feito de Moisés: “Não é Moisés que lhes deu o pão do céu; é meu Pai que lhes dá, o pão do céu, o verdadeiro” (Jo 6, 31).

Em Mateus, é a expressão reino dos céus que é empregada: se a encontra mais de 35 vezes; Marcos, João e Lucas utilizam reino de Deus, se a encontra 14 vezes em Marcos, 33 vezes em Lucas e 2 vezes em João. O que pode parecer um detalhe é suficiente para estabelecer a anterioridade do Evangelho segundo Tomé em relação aos evangelhos canônicos.


Jean-Yves Leloup

A menor de todas as sementes pode dar origem à maior de todas as árvores... Um homem desperto e uma nova humanidade pode surgir...

Essa é a lei de todos os inícios, o início do homem em particular, entre as inúmeras espécies animais. O infinitesimal, o não notável, traz em si todas as informações necessárias para seu crescimento: "Todo o carvalho está contido na bolota".

Mas, como o Evangelho já assinalou, o terreno deve ser favorável, o solo deve ser cultivado, caso contrário, a semente da vida divina (sperma theou) colocada em cada um de nós não poderá crescer e fazer de nós a grande árvore que abriga os pássaros do céu.


Philippe de Suarez

Mt 13:31-32 // Mc 4:30-32 // Lc 13:18-19

O Reino, uma realidade transcendente, revela-se a nós gradualmente. Para nos ajudar a entender sua jornada, Jesus fala em parábolas. A parábola do grão de mostarda que se torna uma árvore nos permite medir - com nosso olho interior - o que está acontecendo dentro de nós. Os canonistas retomam a parábola. Só que, como de costume, eles a ampliam com acréscimos emprestados do Antigo Testamento, tanto em Ezequiel (17:23): ... todas as aves do céu se abrigarão à sombra de seus ramos e em Dn (4.8,18): A árvore cresce, torna-se poderosa...; em seus ramos se aninham as aves do céu.

A supressão no v. 6 deste logion: mas quando cair na terra cultivada provavelmente se deve à razão dada acima (cf. logion 9, Evangelho de Tomé).