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id da página: 3815 Evangelho de Tomé - Logion 108

Evangelho de Tomé - Logion 108

Isto é o que confirmou Jesus naquela “noite” em que Judas-Satã tomou o pedaço molhado em seu prato que Jesus o deu, e que o permitiu ao rabi dizer depois: “Agora foi glorificado o Filho do homem e Deus foi nele glorificado (Jo 13,31; Judas).

A explicação da unidade perfeita que dá o logion, tem duplo sinal: “(Ele) se tornará como eu, e eu também me tornarei como ele”.

A Glória é o manto de luz em que se envolve o Pai, e por conseguinte, a Glória, seu resplendor, é o Filho, cuja natureza, idêntica à do Pai, é luz e sabedoria. Por isso diz o autor da epístola aos hebreus que o Filho é o resplendor da Glória do Pai — a Glória, portanto, posto que a Glória é resplendor — o qual, o Pai, é “luz de luz”.

Tudo isto é sabido pela exegese manifesta. Mas do que tentamos falar aqui não é de “saber”, enquanto este “saber” é só o primeiro grau do conhecer, senão que falamos de “ser” (v. SABER E SER), fazer-se “um”, por alimento e assimilação do resplendor da Glória que é o Filho do homem. Esta consumação devia ter começado já a cumprir-se em Paulo Apostolo quando diz: “Os sofrimentos do tempo presente não são comparáveis com a Glória que se há de manifestar em nós” (Rm 8,18).

O “sofredor” Paulo era naquele tempo, segundo parece, os conteúdos de si mesmo que nele permaneciam separados ainda, sem consumar-se na unidade; e a Glória percebida ou assimilada, era o Filho do homem feito já manifesto em seu si mesmo (no si mesmo de Paulo) ainda que somente fora no grau leve de levantar-se uma ponta de véu.

Das duas maneiras de unidade das que o logion fala, a que se explica como “eu” (Cristo) “me tornarei ele”, é aquela de ordem subjetivo que João Batista menciona quando diz: “É preciso que ele cresça e que eu diminua”.

O Batista foi tomado às vezes pelos evangelistas como “figura” da consciência “natural”, mas já alerta, desperta, vigilante; essa consciência que já não quer estar dormida em muitos de nós, “para dar testemunho da luz”, e para que assim muitos cheguem a crer na luz.

Mas essa consciência natural é a que ao final tem que morrer, minguar pelo menos, para que a luz da Glória que está oculta em nós desde o princípio se manifesta. Isto é o que quis dizer Jesus quando aformou: “Lhes dei a Glória que tu me deste”.

Se esta Glória que nos dá o Filho do homem e que nos manifesta idênticos a ele na natureza essencial não estivesse em nós de antemão, ainda que oculta, não seria possível que a manifestação da Glória, que é a unidade porque é o resplendor sem fronteiras, se consumasse. A natureza não pode ser transformada, senão revelada.

Quando se diz que o Filho do homem nos dá a Glória, o que se quer dizer que nos dá é o trânsito, para que assim, o que está em nós a sementa oculta — como o Filho do homem o é para nossa consciência natural — passe a ser fruto de transformação. Isto é o que explica o Batista com sua advertência: “Ninguém pode receber nada se não se lhe deu do céu”.

Talvez convenha que se insista nisso, porque é capital: A transformação consiste em que a Glória que está oculta, se revele, como uma imagem que por estar sob as águas turvas não pode ser distinguida. Só a ação da fé e o conhecimento abre as vias para sua manifestação; mas não é transformada senão levantada à superfície. Paulo Apostolo explica muito bem isto: “Refletimos como em um espelho a Glória de Deus (e) nos vamos transformando nessa mesma imagem” (2Co 3,18).

Na linguagem joanica, este “minguar” para que o Filho do homem cresça, se converte em uma torrente de Glória que invade a consciência do homem e a transforma. Jesus o explica assim: “Se alguém me ama, guardará minha Palavra, e meu Pai o amará e faremos morada nele” (Jo 14,23).

Fazer morada ao Pai e ao Filho, os quais são um só, significa que a boa semente semeada no princípio se manifestou ao final, convertida em fruto. A alma que se negou a si mesma e chegou a ser “como nada”, terá recebido a luz para ser “como tudo” e consumar a previsão de Jesus o Vivente: “Ele se tornará como eu”.

Para este sinal da unidade é necessário que a consciência conheça por realização direta a “Plenitude do que preenche tudo em tudo” (Ef 1,23), para consumar assim a venturosa realidade de que o universo inteiro está pleno da “presença” de Deus.

O autor da carta aos efésios deve ter contemplado esta “presença” e por isso subiu até o nível de seu olhar o amor de Cristo (oculto e manifesto) que excede a todo conhecimento, pelo que disse “é possível preencher-se até a total Plenitude de Deus”.

"A palavra de nosso Deus permanece
para sempre,
seja na erva que se seca
ou na flor que se murcha."