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Subversão

Existe uma malevolência que inveja o imortal e não suporta o reconhecimento daquilo que é divino. Hermes O mundo destrói o Tao, e o Tao destrói o mundo. Chuang-tzu (cap. XVI)

Corrupção

Seleção de citações em PERRY, Whitall N. A Treasury of Traditional Wisdom. Cambridge: Quinta Essentia, 1991

Não deis o que é santo aos cães, nem lanceis vossas pérolas diante dos porcos, para que não as pisem com os seus pés e, voltando-se, vos despedacem.

São Mateus, VII. 6

As doutrinas escritas da filosofia, se derramadas no vaso sujo e contaminado de uma mente falsa e depravada, são alteradas, mudadas e estragadas, e se convertem em urina ou em algo mais imundo do que isso.

Epicteto

Deveis ter notado os milhafres e abutres voando muito alto no céu; mas seus olhos estão sempre fixos nos ossuários.

Sri Ramakrishna

Se estais tão ansioso por transe, qualquer narcótico o provocará. O hábito da droga será o resultado e não a libertação. Existem vasanas (hábitos mentais) em estado latente mesmo no transe. As vasanas devem ser destruídas.

Sri Ramana Maharshi

A pessoa de sentidos descontrolados não resiste ao desejo sexual, o mais forte dos tentadores mundanos, e assim cai na escuridão abissal como a mariposa cai na chama.

Srimad Bhagavatam, XI. iii

Mais almas vão para o inferno por causa dos pecados da carne do que por qualquer outra razão.

A Santíssima Virgem em Fátima

Verdadeiramente tais Lugares onde a Lascívia é praticada
Devem para esta Arte ser totalmente recusados.

Thomas Norton

Não sabeis vós que os vossos corpos são membros de Cristo? Tomarei, pois, os membros de Cristo, e os farei membros de uma meretriz? De modo nenhum.
Ou não sabeis que o que se ajunta com a meretriz é um corpo com ela? Porque, serão dois, disse, numa só carne.
Mas o que se ajunta com o Senhor é um espírito com ele.
Fugi da fornicação. Todo pecado que o homem comete é fora do corpo; mas o que fornica peca contra o seu próprio corpo.
Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós, o qual tendes de Deus, e que não sois de vós mesmos?
Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus.

I. Coríntios, VI. 15–20

Os homens devem usar o amor natural e abominar o não natural, não destruindo intencionalmente as sementes da procriação humana, nem as semeando em lugares pedregosos, nos quais não criarão raízes... Nossos cidadãos não devem cair abaixo da natureza das aves e dos animais... Ninguém se aventurará a tocar qualquer pessoa da classe livre ou nobre exceto sua esposa legítima, ou semear a semente não consagrada e bastarda entre meretrizes, ou em luxúrias estéreis e não naturais; ao menos devemos abolir completamente a conexão de homens com homens.

Platão, Leis VIII, 839 ff.

Mas também houve falsos profetas entre o povo, como entre vós haverá falsos doutores, que introduzirão secretamente heresias de perdição...
E muitos seguirão as suas dissoluções; por causa dos quais o caminho da verdade será blasfemado.
E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo o juízo não tarda, e a sua perdição não dormita.
Porque, se Deus não poupou os anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no tártaro (tartaros)...
E não poupou o mundo antigo, mas guardou Noé...
E reduziu a cinzas as cidades de Sodoma e Gomorra, condenando-as à ruína e pondo-as para exemplo aos que vivessem impiamente depois;
E livrou o justo Ló, enfadado da conduta lasciva dos ímpios...
Sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos, e reservar os injustos para o Dia do Juízo para serem castigados:
Mas principalmente aqueles que, seguindo a carne, andam em concupiscências da imundícia, e desprezam o domínio. Atrevidos, obstinados, não receiam blasfemar das dignidades.

II. Pedro, cap. II

E Ló estava presente, quando ele disse ao seu povo: Eis que praticais iniquidade que não tem precedente em toda a criação!
Pois não vos achegais aos varões, e não cortais o Caminho, e não trazeis abominação às vossas assembleias? E não houve resposta do seu povo, exceto dizer: Faze vir sobre nós o castigo de Deus se és dos verídicos!
Ele disse: Meu Senhor, livra-me do povo da depravação!
E quando Nossos mensageiros trouxeram a Abraão boas novas (de um filho), disseram: Eis que estamos prestes a destruir o povo daquela povoação, porquanto seu povo é malfeitor.
Ele disse: Eis que Ló está lá. Eles disseram: Nós bem sabemos quem está lá!...
E, na verdade, disso deixamos um claro sinal para pessoas de reflexão.

Alcorão, XXIX. 28 ff.

Não te deitarás com varão, como se fosse com mulher: é abominação.

Levítico, XVIII. 22

Os autores antigos e veneráveis são da opinião de que Auparishtaka é obra de um cão e não é digna de um homem. É uma prática baixa e oposta às ordens das Escrituras.

Kama-Sutra

É relatado a respeito de Jesus (Que a paz esteja com ele!) que ele se deparou com um fogo que estava aceso sobre um homem no deserto. Jesus então pegou água para apagá-lo, e o fogo se transformou em um jovem, e o homem se transformou em fogo. Então Jesus (Que a paz esteja com ele!) chorou e disse: ‘Ó Senhor, restaura-os ao seu estado anterior para que eu veja qual foi o seu pecado.’ Então aquele fogo foi removido deles, e eis que eram um homem e um jovem. O homem disse: ‘Ó Jesus, fui afligido no mundo pelo amor deste jovem, e o desejo me impeliu até que pequei com ele numa noite de quinta-feira, depois do que pequei com ele noutro dia. Então um homem se deparou conosco e nos disse: ‘Ai de vós! Temei a Deus!’ Eu lhe respondi: ‘Eu não tenho medo, e eu não temo.’ Então, quando morri, e o jovem morreu, Deus (Grande e glorioso é Ele!) nos transformou no que vedes. Às vezes ele se torna fogo e me queima, e às vezes eu me torno fogo e o queimo. E este é o nosso castigo até o Dia da Ressurreição.’

Cristo no Islam

Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos,
E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis.
Pelo que Deus os entregou também à imundície, pelas concupiscências de seus corações, para desonrarem seus corpos entre si:
Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amén.
Por esta causa Deus os entregou a paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza.
E, semelhantemente, também os varões, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, varão com varão, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro.

Romanos, I. 22–27

É por causa de tais crimes que ocorrem fomes e terremotos, e também a pestilência.

Justiniano

‘Sodoma não Me escutou, nem o povo de hoje Me escuta ou atende às Minhas advertências. Portanto, incorrerão na triste experiência da Minha ira.’

Teresa Neumann

Não vos enganeis: nem fornicadores, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem os que se deitam com varões,
Nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores, herdarão o reino de Deus.

I. Coríntios, VI. 9, 10

Assim como, monges, o oceano poderoso não se associa a um cadáver; pois quando um cadáver é encontrado no oceano poderoso ele rapidamente o leva para a praia, atira-o na praia; assim também, monges, qualquer pessoa que seja imoral, de natureza perversa, impura, de comportamento suspeito, de atos encobertos, um que não é recluso embora alegue sê-lo, um que não vive a vida do Brahma embora alegue sê-lo, um apodrecido por dentro, cheio de luxúrias, um monturo de sujeira, — com tal pessoa a Ordem não se associa, mas, reunindo-se, rapidamente a expulsa. Embora, monges, ele esteja sentado no meio da Ordem, contudo está longe da Ordem; longe está a Ordem dele.

Udana, v. 5

Abuso das Ciências Cosmológicas

Seleção de citações em PERRY, Whitall N. A Treasury of Traditional Wisdom. Cambridge: Quinta Essentia, 1991

Pã, o qual é o anunciador de todas as coisas e o perpétuo motor de todas as coisas, é corretamente denominado pastor de cabras, sendo ele o filho biforme de Hermes, liso em sua porção superior e áspero e caprino em suas regiões inferiores.

Platão, Cratilo, 408 C

A parte inferior do mundo, que habitamos, foi sujeitada aos anjos desviados, por meio da lei da Divina Providência à qual se deve a magnífica ordem das coisas.

Santo Agostinho

(Os incrédulos) seguem aquilo que os demônios relatam contra o reino de Salomão. E Salomão não desacreditou, mas foram os demônios que desacreditaram. Eles ensinam aos homens as artes mágicas e aquilo que foi revelado aos dois anjos de Babel, Harut e Marut. Mas eles a ninguém ensinaram sem antes dizerem: Na verdade, somos apenas uma tentação, portanto, não descreias. E destes dois eles aprendem aquilo com que causam divisão entre o homem e sua esposa, mas com isso a ninguém prejudicam, senão com a permissão de Alláh. E aprendem aquilo que lhes prejudica e não lhes beneficia. E certamente sabem que quem nisso negocia não terá quinhão na Vida Derradeira. E é mau o preço pelo qual venderam suas almas, se o soubessem.

Alcorão, II. 102

Quando ocorre alguma errância na técnica teúrgica, as Imagens que deveriam estar na Autopsia não estão, mas sim outras de um tipo diferente. Estas, as inferiores, assumem o disfarce das ordens mais veneráveis, e fingem ser precisamente aquelas que estão a contrafazer, e haverá uma grande massa de falsidade a fluir da perversão... Não sabemos nós que todas as coisas que são postas em vista por tal modo... são realmente fantasmas daquilo que é genuíno, e que parecem boas ao vidente, mas jamais o são em realidade?

Iamblichus

Agradou ao Anti-Cristo
Descobrir toda a sabedoria
Que Enoque tinha aprendido de Deus,
Para que o Anti-Cristo pudesse abertamente declará-la
Junto com seu próprio falso ensino;
Pois se apenas pudesse atrair Enoque a si
Todo o mundo e grande honra seriam seus.

Mechthild de Magdeburg

Quando Behmen primeiro surgiu em Inglês, muitas pessoas desta nação, de maior inteligência e capacidade, tornaram-se seus leitores; que, em vez de penetrarem em seu único desígnio, que era a sua própria regeneração de uma vida terrena para uma celestial, se tornaram químicos e montaram fornalhas para regenerar metais, em busca da pedra filosofal.

William Law

Mas é espanto que os Tecelões tratem de tais obras,
Maçons Livres e Curtidores com pobres Clérigos Paroquiais;
Alfaiates e Vidraceiros não cessarão disso.
E até mesmo humildes Latoeiros se meterão na disputa
Com grande presunção; mas contudo alguma aparência havia,
Para todos aqueles Homens que dão Tinctura ao Vidro:
Mas muitos Artífices foram demasiado velozes
Com crédulo apressado a dissipar a sua prosperidade.

Thomas Norton

Não é menos absurdo, então, que estranho, ver como alguns Homens (que gostariam que o Mundo os considerasse instruídos...) não deixarão de classificar os Verdadeiros Magos com os Conjuradores, Necromantes e Bruxos (aqueles grandes Impostores) que violentamente se intrometem na Magia, como se Porcos devessem entrar em um formoso e delicado Jardim, e (estando em pacto com o Diabo) usam de Sua Assistência em seus trabalhos, para contrafazer e corromper a admirável sabedoria dos Magos, entre os quais há tão grande diferença quanto entre Anjos e Demônios.

Elias Ashmole

Não confies em Geomancia, essa Arte supersticiosa,
Pois Deus fez a Razão que aí é posta à parte.
Não confies em todos os Astrólogos, digo por quê,
Pois essa Arte é tão secreta quanto Alquimia.
A outra é reprovada e claramente proibida,
Por santos da Igreja de Deus.
Não confies, nem ames a Negromancia,
Pois é propriedade do Diabo mentir.
Confia nesta Doutrina, ponde nela vossos desejos,
E agora aprendei o Regime de vossos Fogos.

Thomas Norton

Origens da Subversão

E vi uma estrela que caía do céu na terra: e foi-lhe dada a chave do poço do abismo.

Apocalipse, IX. 1

E aconteceu que quando os filhos dos homens se multiplicaram, naqueles dias nasceram-lhes filhas belas e formosas. E os anjos, os filhos do céu, viram-nas e as desejaram, e disseram uns aos outros: ‘Vinde, escolhamos para nós esposas dentre os filhos dos homens e geremos para nós filhos.’ E Semjazá, que era o seu chefe, disse-lhes: ‘Eu temo que não concordareis em fazer esta ação, e que eu sozinho terei de pagar a pena de um grande pecado.’ E todos lhe responderam e disseram: ‘Juremos todos um juramento, e liguemo-nos todos por mútuas imprecações para não abandonarmos este plano, mas para fazermos esta coisa.’ Então juraram todos juntos e se ligaram por mútuas imprecações sobre isso. E eram ao todo duzentos; que desceram nos dias de Jarede sobre o cume do Monte Hermon...

(Eles) tomaram para si esposas, e cada um escolheu para si uma, e começaram a achegar-se a elas e a contaminarem-se com elas, e ensinaram-lhes encantamentos e feitiços, e o cortar de raízes (de árvores), e as familiarizaram com as plantas. E conceberam, e geraram gigantes enormes, cuja altura era de três mil côvados: Que consumiram todas as aquisições dos homens. E quando os homens não puderam mais sustentá-los, os gigantes se voltaram contra eles e devoraram a humanidade. E começaram a pecar contra as aves, e os animais, e os répteis, e os peixes, e a devorar a carne uns dos outros, e a beber o sangue. Então a terra depôs acusação contra os iníquos.

Livro de Enoque, VI. VII

Havia na terra gigantes naqueles dias; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens, e delas geraram filhos; estes foram os varões poderosos que houve na antiguidade, os homens de renome.

E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente.

Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre a terra, e isso lhe pesou no seu coração.

E disse o Senhor: Destruirei o homem que criei de sobre a face da terra, desde o homem até ao animal, e até ao réptil e às aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito.

Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor.

Gênesis, VI. 4–8

E sucedeu um dia em que vieram os filhos de Deus apresentar-se perante o Senhor, e veio também Satã entre eles.
Então o Senhor disse a Satã: Donde vens? E Satã respondeu ao Senhor, e disse: De rodear a terra, e de passear por ela.

Jó, I. 6, 7

Se a história não é uma antiga Fábula,
Os Maçons Livres vieram da Torre de Babel.

Os Maçons Livres; um Poema Hudibrástico

Porque se introduziram sorrateiramente certos homens, que já antes estavam escritos para esta condenação, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de nosso Deus, e negam o único Soberano Deus...

E aos anjos que não guardaram o seu estado original, mas deixaram a sua própria habitação, ele os tem reservado em cadeias eternas sob a escuridão para o juízo do grande dia.

Assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, havendo-se entregado à fornicação e ido após carne estranha, são postas por exemplo, sofrendo a vingança do fogo eterno.

Semelhantemente, também estes sonhadores imundos contaminam a carne, desprezam o domínio, e blasfemam das dignidades...

Ai deles! porque entraram no caminho de Caim...

Estes são manchas em vossas festas de caridade, banqueteando-se convosco, alimentando-se a si mesmos sem temor: são nuvens sem água, levadas pelos ventos; árvores murchas, infrutíferas, duas vezes mortas, desarraigadas;

Ondas impetuosas do mar, espumando as suas próprias vergonhas; estrelas errantes, para quem está reservada a negrura das trevas para sempre.

Judas, passim

Árvore e Serpente

Um motivo recorrente na arte tradicional é a árvore do mundo, o axis mundi, envolto por uma serpente, cujas espirais representam a força cósmica ou poder animador do universo; simbolizam os ciclos da existência e o fluxo das formas, sendo ao mesmo tempo generosas e perigosas, como a dança extática de Kālī sobre a forma inerte de Shiva. As voltas da serpente sugerem um movimento dinâmico, ascendente ou descendente, conferindo-lhe um sentido benéfico ou maléfico; por vezes, o eixo vertical aparece entrelaçado por duas serpentes, como no conhecido caduceu, que tem seu equivalente indiano no bastão brâmane (Brahma-danda) e no motivo da kuṇḍalinī, com a coluna suṣumnā ladeada pelos dois "canais" ou nāḍīs, piṅgalā e iḍā. O caminho "celestial" (deva-yāna, Janua Coeli) é assim representado pelo eixo central ou "canal coronal", que conduz para cima, através do "portal solar", à libertação dos estados saṃsáricos ou do ciclo serpentino da existência, culminando na identidade suprema com o Princípio Universal. Mas o mesmo eixo pode ser percorrido no sentido inverso, tornando-se então o caminho "infernal" (pitṛ-yāna, Janua Inferni), oposto ao celestial, levando a estados inferiores e até à desintegração total do ser consciente em seu limite extremo, pois o único "antípoda" da possibilidade da Identidade Suprema é, logicamente, a aniquilação completa. (Whitall Perry)

A Queda dos Anjos

"Esta descida direta do ser ao longo do eixo vertical é representada notavelmente pela 'queda dos anjos'; obviamente, tratando-se de seres humanos, isso só pode corresponder a um caso excepcional" (Guénon: Le Symbolisme de la Croix, p. 186). Mas há outra implicação nos "anjos caídos", relacionada ao que a terminologia cabalística chama de "cortar as raízes das plantas", referindo-se ao politeísmo em seu sentido verdadeiro — a invocação de qualidades divinas independentemente do Princípio, o que só ocorre por um desvio na tradição (contrariando o pensamento evolucionista, que supõe um "monoteísmo puro" surgindo de um politeísmo mais "primitivo"). Um "anjo" visto sob essa ótica retém pouco mais que a sombra invertida de seu verdadeiro ser, e "nessas condições, aquele que crê estar invocando um anjo corre grande risco de ver um demônio aparecer diante dele" (Guénon: Études Trad., 1946, p. 346). (Whitall Perry)

Adentramos um domínio de calor, não de luz

Adentramos um domínio de calor, não de luz — mais especificamente, um calor cujos vapores penetram o mundo através de rupturas no "muro" que separa o cosmos das "trevas exteriores", infiltrando-se cada vez mais à medida que o ciclo atual da humanidade, a Idade do Ferro ou Kali Yuga, se aproxima de seus estágios finais de deterioração. "O diabo não é apenas terrível; muitas vezes, é grotesco"; e nos encontramos em um mundo animado implícita ou explicitamente, secretamente ou abertamente, por espíritos, elementais, materializações, estados etéricos, ovos áuricos, corpos astrais, ids, ods e egos, aparições ectoplasmáticas, fantasmas e visões, consciência subliminar e inconsciente coletivo, desdobramentos, dissociações e desintegrações funcionais, comunicações, obsessões e possessões, psicastenia, magnetismo animal, terapêutica hipnoidal, vibrações, forças mentais, ondas e radiações, clarividências, audiências e levitações, sonhos telepáticos, premonições, luzes da morte, escritas em transe, batidas de Rochester, corpos búdicos e uma infinidade de outras emergências e extravagâncias de nomenclatura horrenda que seria tedioso e inútil enumerar. Basta saber que esses elementos, por mais díspares que pareçam, e independentemente do que realmente se esconda por trás desses títulos, emanam todos de uma mesma substância obscura e prosperam por um mesmo princípio ígneo, nos antípodas do sol verdadeiro e luminoso. "O subconsciente é um depósito de resíduos psíquicos, uma espécie de lixeira ou monturo, adequado apenas para as raízes das 'plantas', e muito distante da luz que as ergue" (Coomaraswamy, em PMLA, junho de 1946).

O mundo cristão em particular sempre pareceu um alvo privilegiado, sendo o próprio Renascimento resultado do que Schuon chama de "vingança póstuma" da antiguidade clássica; hoje, a contaminação é praticamente global. A participação no mal pode ser mais ou menos consciente. Segundo Santo Agostinho, "magi faciunt miracula par privatos contractus" (De div., LXXIX. 4), enquanto João XXII, na bula Super illius specula (1326), fala daqueles que "fazem aliança com a morte e pacto com o inferno, que sacrificam aos demônios... que interrogam os demônios, obtêm respostas deles e a eles recorrem para satisfazer seus desejos depravados"; e no século XVI, Jean Bodin escreve: "Um feiticeiro é aquele que, por meios diabólicos, tenciona conscientemente realizar algo" (De la Démonomanie des sorciers, Paris, 1580, p. 1).

Por outro lado, "às vezes acontece, infelizmente, que aqueles que julgam estar combatendo o diabo — seja qual for sua ideia dele — são, sem o menor suspeita, transformados em seus melhores servidores!" (Guénon: Le Règne de la Quantité, p. 202). (Whitall Perry)

Diabolismo

No Catholic Encyclopedia Dictionary (N.Y., 1941), o Diabolismo é definido como: "todos os tipos de intercâmbio ou tentativas de lidar com o espírito maligno por meio de feitiçaria, encantamentos, magia, espiritismo e outras práticas ocultas. A possibilidade de consultar e obter a ajuda do demônio é suficientemente atestada pela Escritura: Deus proíbe consultar adivinhos (Deut., 18); 'seguir após feiticeiros' é ilícito (Lev., 19). A feitiçaria, real ou suposta, trouxe infortúnio e crueldade ao mundo; muitos fenômenos do espiritismo exibem características inconfundíveis de agências espirituais maléficas. Tanto a Igreja quanto a Bíblia corroboram a crença em espíritos malignos, ou demônios, e em seu poder — na medida em que Deus permitir — de causar dano, mas proíbem qualquer trato com eles, pois, devido à perversão de suas vontades, buscam desviar os homens de Deus." (Whitall Perry)

A Feitiçaria

Se a feitiçaria permaneceu relativamente inócua (ou pelo menos circunscrita) entre a maioria dos orientais e povos "primitivos", é provavelmente devido à presença do que se poderia chamar de uma "intelectualidade racial" como estrutura dentro da qual magos e feiticeiros operam: suas sociedades sabem, em geral, identificar e avaliar os poderes em jogo. Tudo é mantido em sua hierarquia adequada: a teurgia está acima da taumaturgia, e a superioridade do sacerdócio é incontestável. Acima de tudo, uma consciência quase genérica da unicidade de um Princípio Supremo impede a perspectiva de um dualismo insolúvel. (Whitall Perry)

A mentalidade passional do Ocidente

Foi necessária toda a ignorância da mentalidade passional do Ocidente para tentar substituir o reino dos Céus pelo reino deste mundo, colocar Pã no lugar do Pantocrator e opor o Adversário a Deus como um rival de força equivalente em uma disputa pela soberania. Escrevendo sobre a Inquisição, M. Verrill afirma: "Assusta pensar no que poderia ter acontecido se a Igreja Católica não tivesse persistido na luta, se a Inquisição não tivesse sido estabelecida e mantida, quando de todos os lados surgiam incontáveis religiões fantásticas, extravagantes, repulsivas e até horríveis, reunindo adeptos aos milhares. Esse culto ao diabo, ou à feitiçaria, magia, orgias, luxúria e todas as formas de vício e depravação teria infestado todo o mundo civilizado da época."

Hoje, a alternativa mal vale a pena ser colocada. A caça às bruxas passou insidiosamente para as mãos dos caçados, até que a Inquisição foi desacreditada e o "discernimento dos espíritos" tornou-se motivo de escárnio. (Whitall Perry)

Pobreza intelectual

"A pobreza intelectual dos movimentos neo-ióguicos fornece a prova irrefutável de que não há espiritualidade sem ortodoxia. Certamente não é por acaso que todos esses movimentos estão, na prática, aliados contra a inteligência; essa qualidade é substituída por um pensamento fraco e vago em vez de lógico, e 'dinâmico' em vez de contemplativo. Todos esses movimentos se caracterizam pelo desapego que afetam em relação à pura doutrina, cuja incorruptibilidade odeiam; para eles, essa pureza é 'dogmatismo'; não compreendem que a Verdade não nega as formas de fora, mas as transcende de dentro.

A ortodoxia contém e garante valores infinitamente preciosos que o homem jamais poderia extrair de si mesmo" (Schuon: Perspectives spirituelles, p. 151).

A Grande Profanação

Várias tradições apontam para um período próximo ao encontro de dois ciclos cósmicos, quando os poderes das trevas emergem abertamente e momentaneamente assumem ascendência. É a Grande Profanação, a "Noite Flamejante" ou Reinado do Anticristo, durante a qual os valores normais são invertidos e falsificados, e vastas porções da humanidade são seduzidas por um carnaval grotesco que parodia, de modo sinistro e ridículo, um reino espiritual na Terra. Guénon descreve esse fenômeno como o produto de uma massa de "resíduos" ou "cadáveres psíquicos" "galvanizados por uma vontade 'infernal'" (Le Règne, p. 267), correspondendo ao caput mortuum já mencionado na introdução ao capítulo sobre o Juízo. A restauração da ordem que se segue imediatamente a essa inversão marca também o início de um novo ciclo, segundo a doutrina tradicional, pois o mundo atual, tal como existe, é literalmente substituído por "um novo céu e uma nova terra". (Whitall Perry)