VIDE: AS ARMAS SIMBÓLICAS
AS ARMAS ESPIRITUAIS E AS ASSINATURAS PLANETÁRIAS DAS VIRTUDES E DOS VÍCIOS
- O exame atento de um notável trecho da Epístola aos Efésios (VI, 10-17) de São Paulo, lido no vigésimo primeiro domingo após o Pentecostes antes da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, revela que o Apóstolo, de formação iudaica, possuía um vasto conhecimento tradicional que confere peso e ressonância ao seu ensinamento, exigindo a análise detalhada dos termos.
- O texto diz em latim e em tradução para o português brasileiro: "Revistam-se de todas as armas de Deus, para poderem resistir às astúcias do diabo. Porque a nossa luta não é contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as autoridades, contra os príncipes deste mundo de trevas, contra os espíritos maus nas regiões celestes. Por isso, tomem todas as armas de Deus, a fim de poderem resistir no dia mau e permanecer firmes depois de terem vencido tudo. Permaneçam, pois, firmes, cingindo os vossos rins com a verdade; revistam a couraça da justiça; calçando os pés com o zelo que dá o Evangelho da paz; peguem, sobretudo, no escudo da fé, com o qual poderão apagar todos os dardos inflamados do maligno; tomem também o capacete da salvação, e a espada do espírito, que é a palavra de Deus."
- A interpretação comum desse texto geralmente se limita ao seu aspecto mais evidente, e a iconografia inspirada por ele não vai muito além.
- O texto exige um sentido profundo, que é simultaneamente astrológico e cabalístico.
- São Paulo nomeia os inimigos a serem combatidos como "poderes nefastos," exigindo uma luta "corpo a corpo" contra "Principados e Potestades," com "seres espirituais maus que residem nos céus."
- Estes inimigos só podem ser anjos decaídos, que representam o lado maléfico ou a sombra projetada dos planetas, ou dos "Retores planetários" (as "sete causas segundas" de Tritêmio).
- São Paulo provavelmente considera os planetas como "maus" na medida em que podem perturbar o livre-arbítrio, e não apenas "inclinar" em um mau sentido, mas, por vezes, verdadeiramente "determinar".
- Imediatamente após indicar o perigo, São Paulo enumera as armas detalhadas de que dispõe o homem que busca realizar em si mesmo o Cristo, identificado com o Homem universal.
- O homem-microcosmo, sendo uma redução dos céus, possui um equipamento completo de centurião no zodíaco de seu corpo, espírito e alma.
- Assim equipado, ele poderá "resistir no dia mau e permanecer de pé depois de ter suportado tudo."
- A panóplia compreende seis elementos: o cinto, a couraça, as sandálias ou sapatos, o escudo, o capacete e a espada.
- Na Epístola aos Romanos (13, 12), essas mesmas armas são denominadas "as armas da luz", e na Primeira Epístola aos Tessalonicenses (5, 8) são mencionadas "a couraça da fé e da caridade" e "o capacete da esperança da salvação."
- Há uma certa hesitação quanto à couraça, que representa ora a fé, ora a justiça.
- A análise do texto da Epístola aos Efésios baseia-se nas hipóteses de que cada arma corresponde a uma parte do corpo humano e, esta, ao signo do zodíaco correspondente, e de que se trata da série planetária, remetendo à planeta que rege o signo zodiacal considerado.
- É preciso considerar o Adam Kadmon da Cabala e examinar as concordâncias textuais com o Antigo Testamento quando estas se apresentarem.
- I. O cinto (ou cinturão) da verdade na cintura:
- Em Isaias (11, 5) se lê: "A justiça será o cinto dos seus flancos e a fidelidade o cinto dos seus rins."
- Os rins remetem ao signo de Libra, domicílio de Vênus e, portanto, à sétima sephirah Netsach (O Triunfo), que corresponde também à perna direita (ver as figuras 1 e 2).
- II. A couraça da justiça:
- Em Isaias (59, 17), encontra-se: "Ele se veste de justiça como de uma couraça / E põe na sua cabeça o capacete da salvação."
- A couraça, em sua parte superior, remete ao Coração e ao signo de Leão, em relação com o Sol, que corresponde à sexta sephirah Tiphereth (Beleza).
- A couraça também protege o ventre, o que remete ao signo de Câncer, à Lua e à nona sephirah, Yesod (o Fundamento).
- III. As sandálias da paz:
- Em Isaias (52, 7), lê-se: "Quão formosos sobre os montes / São os pés do que anuncia as boas-novas / Que publica a paz!"
- As sandálias correspondem aos pés e ao signo de Peixes, regido por Iupiter, em relação com a quarta sephirah Ghedoula (a Clemência) e também, ao se referir ao Adam Kadmon, com a décima Malchouth (O Reino).
- IV. O escudo da fé:
- São Paulo relaciona o escudo com o signo de Gêmeos, que governa os braços e o peito, logo com Mercúrio e a oitava sephirah, Hod (a Glória).
- No entanto, no Adam Kadmon, o braço esquerdo corresponde a Marte, cujo próprio símbolo representa o escudo e a lança.
- V. O capacete da salvação:
- São Paulo segue Isaias (59, 17), que fala do capacete da salvação.
- Isso remete à cabeça, ao signo de Áries e à planeta Marte, que corresponde à quinta sephirah Gheboura (a Rigor), mas também à segunda Hochma (a Sabedoria) no Adam Kadmon.
- VI. A espada do espírito, que é a palavra de Deus:
- Em um trecho da Epístola aos Hebreus (4, 2), São Paulo diz também: "Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, mais penetrante que uma espada de dois gumes, penetrante até partilhar alma e espírito, articulações e medulas; ela julga os sentimentos e os pensamentos do coração."
- Albrecht Dürer ilustrou admiravelmente a imagem da "espada de dois gumes" em sua série do Apocalipse.
- Contrariamente à crença de I.-R. Legrand, o autor pensa que a espada-logos designa a via saturnina e deve, portanto, ser relacionada à terceira sephirah, Bina (a Inteligência).
- Isso remete à região zodiacal Capricórnio-Aquário, de onde provêm os adeptos da via metafísica, que visa a alcançar a primeira sephirah, Kether (a Coroa).
- São Paulo se inspirou principalmente em Isaias, e parece ter sistematizado indicações dispersas no Salmo 18 de David, que também se encontra em 2 Samuel, 22.
- O Salmo 18 diz, em particular:
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- "Meu Deus, minha rocha em que me refugio! Meu escudo, a força que me salva, meu alto retiro!"
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- "Ele é um escudo para todos os que nele confiam."
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- "É ele quem me cinge de força."
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- "Tu me dás o escudo da tua salvação. / Tua destra me sustém."
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- "Alargas o caminho sob meus passos / E meus pés não vacilam."
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- "Tu me cinges de força para o combate."
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- No Salmo, o escudo é sucessivamente relacionado à força divina, à palavra e à salvação, o que denota muita imprecisão ou hesitação quanto às correspondências simbólicas.
- O Salmo 18 diz, em particular:
- Na Segunda Epístola aos Coríntios (6), São Paulo fala também das "armas da justiça, que se tem da mão direita e da mão esquerda," traduzidas por L. Segond como "ofensivas ou defensivas."
- Mais adiante (10), ele esclarece: "Porque as armas com que combatemos não são carnais; mas são poderosas, pela virtude de Deus, para derrubar fortalezas."
- No Comentário sobre o Sonho de Cipião de Macróbio (I, VI, 77-82), há a enumeração de diversas séries septenárias relativas às partes do corpo humano.
- Macróbio distingue sete "órgãos obscuros" (língua, coração, pulmão, fígado, baço, rins), sete órgãos da respiração e da digestão (faringe, esôfago, estômago, bexiga, três intestinos), e sete tecidos do corpo (medula, osso, tendão, veia, artéria, músculo ou carne, pele).
- Há sete partes visíveis no corpo humano (cabeça, tronco, braços, pernas, órgão da geração), e cada membro articulado tem sete divisões; a "cidadela do corpo" (a cabeça) tem sete aberturas (boca, olhos, narinas, orelhas).
- Existem sete movimentos do corpo: para frente, para trás, à direita, à esquerda, para cima, para baixo, e girando sobre o próprio eixo.
- Essa importância dada ao número sete está provavelmente relacionada a uma cosmologia lunar, visto que 7 é o número do quarto da Lua.
- São Paulo reitera repetidamente, em suas Epístolas, suas relações com Cefas (São Pedro).
- A Segunda Epístola de Pedro apresenta uma lista de oito virtudes cardeais no início: fé, virtude, ciência, temperança, paciência, piedade, amor fraternal, caridade.
- Essa lista sugere uma contraposição à lista tradicional dos pecados capitais, e alguns pares se assemelham (cólera-paciência e glutonaria-temperança ou luxúria-temperança).
- Na Primeira Epístola de Pedro (I, 13), a noção de correspondência entre virtudes e partes do corpo é pelo menos esboçada, quando o apóstolo diz: "Cingi os rins do vosso entendimento."
- Em São Paulo, a verdade está em relação com os rins.
- A ideia de agrupar as virtudes e os vícios por sete (círculos planetários), dez (número perfeito) ou doze (regiões do zodíaco) encontra-se em diversos tratados do Corpus Hermeticum.
- Um trecho do primeiro tratado (23) lista sete vícios: "Quanto aos insensatos, aos maus, aos viciosos, aos invejosos, aos cobiçosos, aos assassinos, aos ímpios, eu me afasto deles, cedendo o lugar ao demônio vingador...".
- Outro trecho (25) descreve a ascensão do homem "através da armadura das esferas," onde ele se despoja de vícios a cada uma das sete zonas:
- 1ª Zona: o poder de crescer e decrescer.
- 2ª Zona: as indústrias da malícia, falsidade doravante ineficaz.
- 3ª Zona: a ilusão do desejo doravante ineficaz.
- 4ª Zona: a ostentação do comando desprovida de suas ambições.
- 5ª Zona: a audácia ímpia e a temeridade presunçosa.
- 6ª Zona: os apetites ilícitos que a riqueza concede, doravante ineficazes.
- 7ª Zona: a mentira que estende suas armadilhas.
- Uma nota da edição de A. D. Nock e A. I. Festugière esclarece que, seguindo a "ordem caldeia" na ascensão planetária, os vícios dos quais a alma se despoja correspondem sucessivamente aos "temperamentos" da Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Iupiter e Saturno.
- A iconografia do Soldado de Cristo é complexa devido a uma série de referências escriturísticas.
- Em um trecho da Epístola aos Hebreus (IV, 12), São Paulo declara: "Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, mais penetrante que qualquer espada de dois gumes, penetrante até partilhar alma e espírito, articulações e medulas, etc."
- O Apocalipse de São Ieão (1, 16) diz: "Tinha na sua mão direita sete estrelas. De sua boca saía uma espada afiada, de dois gumes; e o seu rosto era como o sol quando brilha na sua força."
- Esse trecho foi ilustrado de maneira admirável por A. Dürer e L. Cranach.
Pode-se resumir tudo em um quadro:
| Equipamento (Vestes e Armas) | Virtude | Signo Zodiacal | Planeta | Sephira |
| Cinturão | Verdade | Libra | Vênus | Netsah — o Triunfo |
| couraça | Justiça | Leão, Câncer | Sol, Lua | Tipheret — Beleza; Yesod — Fundamento |
| Sandálias | Paz | Peixes | Júpiter | Gedullah — Clemência; (Malkut — Reino) |
| escudo | Fé | Gêmeos | Mercúrio | Hod — Glória |
| capacete | Salvação | Áries | Marte | Geburah — Rigor; Hokhmah — Sabedoria |
| Espada | Logos | Aquário | Saturno | Binah — Inteligência; (Kether — Corôa) |
SEGUE: VIRTUDES E VÍCIOS EM PEDRO