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id da página: 2891 Jean Richer – Aspectos Esotéricos da Obra Literária – Armas Espirituais Jean Richer

Richer Armas Espirituais


VIDE: AS ARMAS SIMBÓLICAS


AS ARMAS ESPIRITUAIS E AS ASSINATURAS PLANETÁRIAS DAS VIRTUDES E DOS VÍCIOS

  • O exame atento de um notável trecho da Epístola aos Efésios (VI, 10-17) de São Paulo, lido no vigésimo primeiro domingo após o Pentecostes antes da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, revela que o Apóstolo, de formação iudaica, possuía um vasto conhecimento tradicional que confere peso e ressonância ao seu ensinamento, exigindo a análise detalhada dos termos.
    • O texto diz em latim e em tradução para o português brasileiro: "Revistam-se de todas as armas de Deus, para poderem resistir às astúcias do diabo. Porque a nossa luta não é contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as autoridades, contra os príncipes deste mundo de trevas, contra os espíritos maus nas regiões celestes. Por isso, tomem todas as armas de Deus, a fim de poderem resistir no dia mau e permanecer firmes depois de terem vencido tudo. Permaneçam, pois, firmes, cingindo os vossos rins com a verdade; revistam a couraça da justiça; calçando os pés com o zelo que dá o Evangelho da paz; peguem, sobretudo, no escudo da fé, com o qual poderão apagar todos os dardos inflamados do maligno; tomem também o capacete da salvação, e a espada do espírito, que é a palavra de Deus."
    • A interpretação comum desse texto geralmente se limita ao seu aspecto mais evidente, e a iconografia inspirada por ele não vai muito além.
    • O texto exige um sentido profundo, que é simultaneamente astrológico e cabalístico.
  • São Paulo nomeia os inimigos a serem combatidos como "poderes nefastos," exigindo uma luta "corpo a corpo" contra "Principados e Potestades," com "seres espirituais maus que residem nos céus."
    • Estes inimigos só podem ser anjos decaídos, que representam o lado maléfico ou a sombra projetada dos planetas, ou dos "Retores planetários" (as "sete causas segundas" de Tritêmio).
    • São Paulo provavelmente considera os planetas como "maus" na medida em que podem perturbar o livre-arbítrio, e não apenas "inclinar" em um mau sentido, mas, por vezes, verdadeiramente "determinar".
  • Imediatamente após indicar o perigo, São Paulo enumera as armas detalhadas de que dispõe o homem que busca realizar em si mesmo o Cristo, identificado com o Homem universal.
    • O homem-microcosmo, sendo uma redução dos céus, possui um equipamento completo de centurião no zodíaco de seu corpo, espírito e alma.
    • Assim equipado, ele poderá "resistir no dia mau e permanecer de pé depois de ter suportado tudo."
    • A panóplia compreende seis elementos: o cinto, a couraça, as sandálias ou sapatos, o escudo, o capacete e a espada.
    • Na Epístola aos Romanos (13, 12), essas mesmas armas são denominadas "as armas da luz", e na Primeira Epístola aos Tessalonicenses (5, 8) são mencionadas "a couraça da fé e da caridade" e "o capacete da esperança da salvação."
    • Há uma certa hesitação quanto à couraça, que representa ora a fé, ora a justiça.
  • A análise do texto da Epístola aos Efésios baseia-se nas hipóteses de que cada arma corresponde a uma parte do corpo humano e, esta, ao signo do zodíaco correspondente, e de que se trata da série planetária, remetendo à planeta que rege o signo zodiacal considerado.
    • É preciso considerar o Adam Kadmon da Cabala e examinar as concordâncias textuais com o Antigo Testamento quando estas se apresentarem.
  • I. O cinto (ou cinturão) da verdade na cintura:
    • Em Isaias (11, 5) se lê: "A justiça será o cinto dos seus flancos e a fidelidade o cinto dos seus rins."
    • Os rins remetem ao signo de Libra, domicílio de Vênus e, portanto, à sétima sephirah Netsach (O Triunfo), que corresponde também à perna direita (ver as figuras 1 e 2).
  • II. A couraça da justiça:
    • Em Isaias (59, 17), encontra-se: "Ele se veste de justiça como de uma couraça / E põe na sua cabeça o capacete da salvação."
    • A couraça, em sua parte superior, remete ao Coração e ao signo de Leão, em relação com o Sol, que corresponde à sexta sephirah Tiphereth (Beleza).
    • A couraça também protege o ventre, o que remete ao signo de Câncer, à Lua e à nona sephirah, Yesod (o Fundamento).
  • III. As sandálias da paz:
    • Em Isaias (52, 7), lê-se: "Quão formosos sobre os montes / São os pés do que anuncia as boas-novas / Que publica a paz!"
    • As sandálias correspondem aos pés e ao signo de Peixes, regido por Iupiter, em relação com a quarta sephirah Ghedoula (a Clemência) e também, ao se referir ao Adam Kadmon, com a décima Malchouth (O Reino).
  • IV. O escudo da fé:
    • São Paulo relaciona o escudo com o signo de Gêmeos, que governa os braços e o peito, logo com Mercúrio e a oitava sephirah, Hod (a Glória).
    • No entanto, no Adam Kadmon, o braço esquerdo corresponde a Marte, cujo próprio símbolo representa o escudo e a lança.
  • V. O capacete da salvação:
    • São Paulo segue Isaias (59, 17), que fala do capacete da salvação.
    • Isso remete à cabeça, ao signo de Áries e à planeta Marte, que corresponde à quinta sephirah Gheboura (a Rigor), mas também à segunda Hochma (a Sabedoria) no Adam Kadmon.
  • VI. A espada do espírito, que é a palavra de Deus:
    • Em um trecho da Epístola aos Hebreus (4, 2), São Paulo diz também: "Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, mais penetrante que uma espada de dois gumes, penetrante até partilhar alma e espírito, articulações e medulas; ela julga os sentimentos e os pensamentos do coração."
    • Albrecht Dürer ilustrou admiravelmente a imagem da "espada de dois gumes" em sua série do Apocalipse.
    • Contrariamente à crença de I.-R. Legrand, o autor pensa que a espada-logos designa a via saturnina e deve, portanto, ser relacionada à terceira sephirah, Bina (a Inteligência).
    • Isso remete à região zodiacal Capricórnio-Aquário, de onde provêm os adeptos da via metafísica, que visa a alcançar a primeira sephirah, Kether (a Coroa).
  • São Paulo se inspirou principalmente em Isaias, e parece ter sistematizado indicações dispersas no Salmo 18 de David, que também se encontra em 2 Samuel, 22.
    • O Salmo 18 diz, em particular:
        1. "Meu Deus, minha rocha em que me refugio! Meu escudo, a força que me salva, meu alto retiro!"
        1. "Ele é um escudo para todos os que nele confiam."
        1. "É ele quem me cinge de força."
        1. "Tu me dás o escudo da tua salvação. / Tua destra me sustém."
        1. "Alargas o caminho sob meus passos / E meus pés não vacilam."
        1. "Tu me cinges de força para o combate."
    • No Salmo, o escudo é sucessivamente relacionado à força divina, à palavra e à salvação, o que denota muita imprecisão ou hesitação quanto às correspondências simbólicas.
  • Na Segunda Epístola aos Coríntios (6), São Paulo fala também das "armas da justiça, que se tem da mão direita e da mão esquerda," traduzidas por L. Segond como "ofensivas ou defensivas."
    • Mais adiante (10), ele esclarece: "Porque as armas com que combatemos não são carnais; mas são poderosas, pela virtude de Deus, para derrubar fortalezas."
  • No Comentário sobre o Sonho de Cipião de Macróbio (I, VI, 77-82), há a enumeração de diversas séries septenárias relativas às partes do corpo humano.
    • Macróbio distingue sete "órgãos obscuros" (língua, coração, pulmão, fígado, baço, rins), sete órgãos da respiração e da digestão (faringe, esôfago, estômago, bexiga, três intestinos), e sete tecidos do corpo (medula, osso, tendão, veia, artéria, músculo ou carne, pele).
    • Há sete partes visíveis no corpo humano (cabeça, tronco, braços, pernas, órgão da geração), e cada membro articulado tem sete divisões; a "cidadela do corpo" (a cabeça) tem sete aberturas (boca, olhos, narinas, orelhas).
    • Existem sete movimentos do corpo: para frente, para trás, à direita, à esquerda, para cima, para baixo, e girando sobre o próprio eixo.
    • Essa importância dada ao número sete está provavelmente relacionada a uma cosmologia lunar, visto que 7 é o número do quarto da Lua.
  • São Paulo reitera repetidamente, em suas Epístolas, suas relações com Cefas (São Pedro).
    • A Segunda Epístola de Pedro apresenta uma lista de oito virtudes cardeais no início: fé, virtude, ciência, temperança, paciência, piedade, amor fraternal, caridade.
    • Essa lista sugere uma contraposição à lista tradicional dos pecados capitais, e alguns pares se assemelham (cólera-paciência e glutonaria-temperança ou luxúria-temperança).
    • Na Primeira Epístola de Pedro (I, 13), a noção de correspondência entre virtudes e partes do corpo é pelo menos esboçada, quando o apóstolo diz: "Cingi os rins do vosso entendimento."
    • Em São Paulo, a verdade está em relação com os rins.
  • A ideia de agrupar as virtudes e os vícios por sete (círculos planetários), dez (número perfeito) ou doze (regiões do zodíaco) encontra-se em diversos tratados do Corpus Hermeticum.
    • Um trecho do primeiro tratado (23) lista sete vícios: "Quanto aos insensatos, aos maus, aos viciosos, aos invejosos, aos cobiçosos, aos assassinos, aos ímpios, eu me afasto deles, cedendo o lugar ao demônio vingador...".
    • Outro trecho (25) descreve a ascensão do homem "através da armadura das esferas," onde ele se despoja de vícios a cada uma das sete zonas:
      • 1ª Zona: o poder de crescer e decrescer.
      • 2ª Zona: as indústrias da malícia, falsidade doravante ineficaz.
      • 3ª Zona: a ilusão do desejo doravante ineficaz.
      • 4ª Zona: a ostentação do comando desprovida de suas ambições.
      • 5ª Zona: a audácia ímpia e a temeridade presunçosa.
      • 6ª Zona: os apetites ilícitos que a riqueza concede, doravante ineficazes.
      • 7ª Zona: a mentira que estende suas armadilhas.
    • Uma nota da edição de A. D. Nock e A. I. Festugière esclarece que, seguindo a "ordem caldeia" na ascensão planetária, os vícios dos quais a alma se despoja correspondem sucessivamente aos "temperamentos" da Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Iupiter e Saturno.
  • A iconografia do Soldado de Cristo é complexa devido a uma série de referências escriturísticas.
    • Em um trecho da Epístola aos Hebreus (IV, 12), São Paulo declara: "Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, mais penetrante que qualquer espada de dois gumes, penetrante até partilhar alma e espírito, articulações e medulas, etc."
    • O Apocalipse de São Ieão (1, 16) diz: "Tinha na sua mão direita sete estrelas. De sua boca saía uma espada afiada, de dois gumes; e o seu rosto era como o sol quando brilha na sua força."
    • Esse trecho foi ilustrado de maneira admirável por A. Dürer e L. Cranach.


Pode-se resumir tudo em um quadro:


SEGUE: VIRTUDES E VÍCIOS EM PEDRO