Excertos da tradução portuguesa da introdução de Suzanne Poque
A oitava dos recém-nascidos
Com o domingo de Páscoa começa uma semana de celebração solene: Octavae infantum, os Oito Dias dos Recém-nascidos. Octavae: a palavra está sempre no plural, é Octavae dies, a Oitava.
Os recém-batizados, com suas túnicas brancas, estão em grupo pelo lado de dentro das grades. Vai prosseguir a catequese deles e tem que acabar com a semana porque muitos deles vão tornar às suas aldeias ou às propriedades disseminadas pelo campo; não voltarão a ouvir o bispo salvo por ocasião de alguma festa grande.
Agostinho, cuja atenção se não prende diretamente aos ritos, vai direito ao essencial: a fé em Jesus ressuscitado é o centro do mistério cristão. É tradição unânime da Igreja mandar ler estes dias as narrações das testemunhas que viram Cristo ressuscitado (Evangelhos e Atos dos Apóstolos); destas leituras extrai o bispo ensino teológico sobre a pessoa de Jesus, sobre a catolicidade da Igreja, sobre a necessidade da graça41. Quem conhece, pelos manuscritos dos homiliários de tipo antigo, a sucessão dos sermões da mesma oitava, pode julgar melhor da progressão pedagógica deste ensino.
Se a escolha das leituras da semana da Páscoa não se muda, não se dá o mesmo com a sucessão delas. Sabe-se que em Hipona essa ordem variou. Fala-se habitualmente de dois tipos de ordines; ter-se-ia feito a mudança à roda de 400. Mas a verdade é que no tempo de Agostinho houve quatro ordines diferentes.
O primeiro ordo é o que S.to Agostinho encontrou em uso no princípio do seu ministério. Neste, a perícope Jo 20, 24-31 (aparição a S. Tomé), lia-se quinta-feira (S Mai 95) e Jo 21, 15-25 (Jesus entrega as suas ovelhas a Simão Pedro), no domingo da Oitava (S 252, sobre a perícope Jo 21, 1-14 (pesca milagrosa) foi pregado nesta época, talvez sábado.
Nos primeiros anos de episcopado, Agostinho alterou a ordem de sucessão das leituras, como consta dos S 259 e 149, que se devem colocar muito cedo perto de 400. Este segundo tipo de ordo ficou em uso uma dezena de anos; é o que encontramos nos Tratados sobre a Epístola de S. João, e que um estudo recente permite fixar em 407-408 M. A alteração principal parece ter sido a transferência para o domingo da Oitava da perícope de quinta-feira, Jo 20, 24-31 (aparição a Tome), sem dúvida para comemorar os acontecimentos na sua sucessão aniversária: et post dies octo iterum (oito dias depois outra vez; Jo 20, 26); tomava-se assim o costume de outras igrejas, designadamente da de Jerusalém. A perícope Jo 21, 15-25 (Simão-Pedro), tomou en tão o lugar da leitura de quinta-feira. Sabemos as leituras evangélicas deste segundo ordo para cada dia da semana, excepto sexta-feira.
Manhã de Páscoa → Jo 1. Segunda-feira → Lc 24. Terça-feira → Jo 20, 1-18 (apar. a Maria Madalena). Quarta-feira → Mc 16. Quinta-feira → Jo 21, 15-25 (ovelhas entregues a Pedro). Sexta-feira → ? Sábado → Mt 5-6. Domingo da Oitava → Jo 20, 24-31 (aparição a Tomé).
Por 410 encontramos terceiro ordo atestado pela série do Homiliário do Pseudo-Fulgêncio; dá-se lugar mais largo às leituras tiradas de S. João:
A série para na sexta-feira; mas o penúltimo sermão (5 247, 1) anuncia que ficam ainda para ler outros textos de S. João: «Como João e Lucas escreveram muito da Ressurreição e dos acontecimentos que a seguiram, isto não se pode ler de uma só vez. De modo que ouvimos ontem uma narração de S. João, hoje igualmente, e outras leituras ficam ainda por fazer.» É, pois, lícito supor que à leitura de sexta-feira sucediam: Jo 21, 15-25 (Simão-Pedro) para o sábado e para o domingo da Oitava: Jo 20, 24-31 (aparição a Tome), como no ordo precedente.
Por 412, segundo parece, Agostinho estabeleceu nova sucessão de leituras evangélicas, talvez por empenho de respeitar a ordem canônica: Mateus, Marcos, Lucas, João.
Não temos tão boas informações dos outros textos litúrgicos. A leitura dos Actos começava dia de Páscoa, mas a distribuição dos capítulos parece que mudou com os diferentes ordines. No Ordo 1, parece que se leram os Actos pela ordem dos capítulos. Com a permuta de Jo 20, 24-31, e 21, 15-25, no Ordo 11, o capítulo 5 (Ananias e Safira) deve ter ficado unido à perícope evangélica que ele acompanhava, porque o encontramos mencionado no domingo da Oitava. A leitura do capítulo 9 (Conversão de S. Paulo) fazia-se sábado no Ordo II (Tract. in Jo. Ep. 7, 1, e 8, 2; S 278) como no Ordo IV (S Guelf. 16).
Todos estes textos da Escritura eram comentados na pregação da manhã, e faziam seu eco na pregação da tarde. Parece efetivamente que o bispo terá aproveitado os lazeres facultados pelos dias feriati (dias feriados) para dar, a mais da catequese da manhã, uma série de conferências espirituais sobre assunto previamente escolhido. Foi este o ensejo com que em 407-408 se decidiu a comentar a Epístola de S. João, e alguns anos mais tarde, para satisfazer os desejos dos seus fiéis, os entreteve com várias palestras seguidas sobre a ressurreição dos mortos, e outro ano falou dos Sete dias da Criação.
Nestes dias de festa, o pastor punha-se infatigavelmente à disposição de todos. Indica-o o princípio do De divinatione daemonum: durante a Oitava, depois da reunião litúrgica da manhã, o bispo ia para uma das dependências da igreja, onde iam muitos leigos e catecúmenos tomar lugar junto dele. Faziam-lhe perguntas e a conversa redundava em ensino.
Como se vê, a Oitava da Páscoa era em Hipona uma semana privilegiada para a catequese e os fiéis não tinham menos empenho de se instruir que os recém-batizados.
Para apresentar a pregação que se inspira nas leituras litúrgicas de cada dia, seguimos a ordem de sucessão mais recente, a dos sermões que editamos aqui (Ordo IV). Os textos que foram pregados no mesmo dia, assinalá-los-emos, segundo os Ordines anteriores, lembrando as leituras que eles comentam.