Excertos da tradução portuguesa da introdução de Suzanne Poque
Die Sabbati (Dia de Sábado)
Para o Sábado de Páscoa é que relevamos as maiores diferenças entre os primeiros e os últimos ordines.
Inclinar-me-ia a crer que a leitura de Jo 21, 1-14 (pesca milagrosa) precedia imediatamente a de Jo 21, 15-25 (Simão-Pedro) segundo o Ordo I. Se isto fosse exacto devia pôr-se num sábado de Páscoa o S 252. Reforçaria esta hipótese a leitura dos Act VII, feita este dia. Para as leituras segundo o Ordo II, temos notícias melhores: Ex 15, 22-27; Sl 31, Act. 9, Mt 5 e 6. O S 278 e os Tract. in Jo. 7 e 8 foram pregados em sábado.
Segundo os ordines III e IV, as leituras eram: Act 9, Jo 21, 15-25 (declaração de Simão-Pedro): S 147; 253; S Guelf. 16 e 17; S Lambot 3.
A tríplice confissão de Pedro é uma reparação das três negações; é ocasião de lembrar os dois defeitos do Apóstolo: presunção e cobardia; porque o mistério pascal projecta viva luz na renovação deste santo, devida à graça do Senhor. Só num dos nossos sermões (S 253) Agostinho tenta, além disto, resolver o problema suscitado pelos versículos 22-23.
«Tríplice negação, traição da verdade; tríplice confissão, testemunho de amor» (S 147, 3). A presunção precedeu a negação. Este presunçoso teve medo, mas o mistério da Páscoa transforma-lhe o ser pela graça do Ressuscitado: Negator infirmitate humana, amator gratia divina (Renegado por fraqueza humana, amigo por graça divina; S Lambot 3). Morre nele o homem velho, para que batizado nas lágrimas nasça um homem novo: «Ressuscitando, Cristo tirou-lhe o medo da morte» (S 147, 3). «Cristo ressuscitado na sua carne e Pedro na sua alma, porque Pedro pela renegação estava morto» (S Guelf. 16, 1). «Quando tiveste medo de morrer, então é que morreste. Morreu com a negação, ressuscitou com as lágrimas (S 253, 3). «Quando o Senhor morria, teve medo e renegou-o, mas o Senhor ressuscitando inseriu nele o amor e pôs em fuga o pavor» (S Dinis, 12, 1). «Com as lágrimas lavou o pecado, correu-lhe a água dos olhos para lhe batizar a consciência» (S Lambot). Parabéns ao Apóstolo: «estava morto e reviveu; estava perdido e ressuscitou» (S Guelf. 17, 1).
A volta à vida traz à cena Chrisíus medicus (Cristo médico). O Senhor «como hábil médico» (S Guelf. 17, 1) procedeu à auscultação do coração do Apóstolo (S 253, 3). O diagnóstico, a primeira vez reservado, é agora animador.
Estas forças de valentia e de amor têm que se pôr ao serviço do Senhor com humildade. «Que podia aproveitar a Cristo que Pedro o amasse? Se Cristo te ama, é teu o proveito e não de Cristo; se tu amas a Cristo, o proveito ainda é teu e não de Cristo» (S Guelf. 16, 1).
A pergunta, porém, não fica sem resposta. Agnos commendabat Agnus ille (Recomendava-lhe os cordeiros Aquele Cordeiro; S Lambot 3). A missão de apascentar as ovelhas dá azo a um desenvolvimento de ordem moral. Apascentar as ovelhas exige dedicação e fidelidade: «Dizer apascenta as minhas ovelhas, é ensinar a dar a vida pelas suas ovelhas ... Que podia dar Pedro em compensação àquele a quem amava? Ouve-o: Apascenta as minhas ovelhas, isto é, faz por teus irmãos o que eu fiz por ti» (Tract. in Jo. Ep. 5, 5). «O Senhor dos pastores instituiu-o pastor para que apascentasse as ovelhas, não as suas, mas as de Cristo ... Entrego-te as minhas ovelhas, apascenta-as, mas não te esqueças que são as minhas» (S Guelf. 17, 3).
Enfim, o S 253 (o que nós editamos aqui) tenta interpretar os versículos Jo 21, 22-23: Sic eum volo manere donec veniam. Encontra-se, mais minucioso, o mesmo gênero de considerações no Tract. in Jo. Ev. 124. Pedro realçou a humanidade de Cristo, João a divindade d'Ele, tal qual se há-de manifestar no fim dos tempos, à volta de Cristo (cf. donec veniam). Devemos confessar que a demonstração não prima pela clareza. Agostinho tinha consciência disso, pois concluía: «Expliquei-vos isto da maneira que pude ...»
Não esqueçamos que o mesmo texto Jo 21, 15-25, se lia no domingo do Oitava segundo Ordo I: S 146, 353: S Dinis 12 e na quinta-feira segundo o Ordo II: Tract in Jo. Ep. 5. Mas nesta época a missão de apascentar as ovelhas dava ensejo a uma polêmica com o donatismo: «Pedro só por Sl era o símbolo da unidade de todos os pastores, mas dos bons, dos que sabem apascentar as ovelhas de Cristo para Cristo e não para si» (S 147, 1).
Oves meas: este possessivo teve função de relevo na polêmica. «Os hereges e os cismáticos arranjam um pecúlio com os roubos que fazem no rebanho do Senhor. Não quiseram apascentar as ovelhas de Cristo, mas as suas, como adversáros de Cristo. Sobre os furtos estamparam a sua marca (titulum) para colocarem o roubado sob a marca de um poderoso ... Não terão eles ouvido o que o Senhor disse a Pedro: Apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas? Acaso lhe disse: Apascenta os teus cordeiros ou apascenta as tuas ovelhas?» (S 146, 2).
O tema do rebanho era aliás igualmente explorado pelos dois campos; os donatistas citavam com ares de vitória o versículo do Cântico dos Cânticos 1, 7: Annuntia mihi quem dilexit anima mea, ubi pascis, ubi cubas? — In meridie (Diz-me, portanto, tu a quem o meu coração ama: onde apascentares o rebanho, onde o farás repousar? — À hora do meio-dia). O Sul é a África, determinavam com orgulho os donatistas. Agostinho tornava a pôr em bons termos e não sem vivacidade (S Dinis 12, 3), a interpretação do texto. Tomou por costume contrapor oves meas do Evangelho de S. João a haedos tuos do Cântico (cf. S Guelf. 17, 3; S 146, 2). Porque Cristo fala à sua Igreja como esposo a esposa e diz-lhe: «Se não te reconheceste, oh! bela entre as mulheres ... Que significa bela entre as mulheres? — A Igreja Católica entre as heresias» (S Guelf. 17, 3).