Carregando...
 
Skip to main content
id da página: 5946 Secunda Feria

Secunda Feria

Agostinho de Hipona — Sermões para a Páscoa

Excertos da tradução portuguesa da introdução de Suzanne Poque

Secunda Feria (Segunda-feira)


De segunda-feira de Páscoa, conservaram-se doze sermões:

Ordo II: S 238; 5 Mai 86; Append. Guelf. 7; Tract. in Jo. Ep. 2;
Ordo III: S 235 e 236;
Ordo IV: S 231, 233 e 240; S Guelf. 9 e 10; 321.


Os textos litúrgicos do dia são, de uma parte, a proclamação de Jesus ressuscitado, por Pedro na manhã de Pentecostes (Act 2), texto utilizado em todas as épocas; de outra parte, a narração da Ressurreição de Jesus, no Evangelho de S. Lucas 24 segundo os ordines II e III, em S. Marcos 16 a contar de 412 mais ou menos.

Estas leituras servem de prelúdio ou de motivo central à afirmação: a Ressurreição de Cristo é a nossa vida.

Duas referências ao Sl 35 (S 231, 1; 233, 2, 3) levam a crer que, ao menos segundo o Ordo IV, se lia ou cantava este salmo. O comentário, em S Guelf. 10, está isolado e mal se explica.

Da perícope evangélica de Mc 16, Agostinho atém-se principalmente ao versículo 16: Qui crediderit et batizatus fuerit salvus erit (quem crer e se batizar, será salvo). Para se compreender bem o efeito destas palavras nos ouvintes, não se há-de esquecer o conteúdo das leituras do dia, as quais já tinham orientados os ânimos para o tema da salvação, salvação operada no batismo, pela ressurreição de Cristo.

Conquanto Agostinho os não cite, hão-de se ter na memória os versículos 21 e 38 dos Actos (capítulo 2): Omnis quicumque invocaverit nomen do-mini salvus erit (quem quer que invocar o nome do Senhor será salvo), e Baptizetur unusquisque vestrum in nomine Jesu Christi in remissionem peccatorum (Cada um vós se batize em nome de Jesus Cristo para remissão dos pecados).

O Sl 35 apresenta a vida como dom de Deus: Homines et jumenta salvos facies (salvareis homens e animais) completado pelo do batismo: Quoniam apud te est fons vitae, pois em ti está a fonte da vida, penhor da vitória definitiva sobre a morte: In tegmine alarum tuarum sperabunt (confiarão na protecção das tuas asas). E isto é o que às vezes é sublinhado numa paráfrase do salmo (cf. S 233, 2, 3). Reparemos que a palavra salus tinha ressonância muito diversa da da nossa palavra salvação; significa primeiramente saúde, o que explica o jogo etimológico salus-salvus e a ligação dela com vita.

Contudo não estamos ainda salvos senão em esperança e, no S Guelf. 10, com um contexto anti-pelagiano, a nossa sorte presente é simbolizada por Jacob-Israel, simultaneamente benedictus e claudus (abençoado mas coxo). Corroboram estas asserções as frequentes citações de S. Paulo (Rm 4, 25; 6, 4; Col 3, 14; I Cor 15, 53). Eis aí a lição que se colhe dos textos lidos, comentados, citados nesta série.

A ressurreição de Cristo é nossa vida, vida nova que triunfa, por Ele, da morte e que há-de ser um dia vida de felicidade eterna: «A ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo é uma vida nova para aqueles que creem em Jesus. É este o sacramentum da sua Paixão e da sua Ressurreição que nós devemos conhecer e viver (S 231, 2).

A antítese entre a Paixão e a Ressurreição de Cristo é sinal de uma oposição fundamental entre Adão e Cristo (S 233, 3), Jacob e o Anjo (S Guelf. 10, 2), pecado e salvação (S Guelf. 9, 3), morte e vida (S 233, 5): «Foi crucificado para mostrar na sua cruz a morte do homem velho em nós e ressuscitou para mostrar na sua vida a novidade da nossa vida» (S 231, 2). Porque esta antítese, Ele como que a viveu dramaticamente, pois não tendo pecado, toma sobre Sl o castigo do pecado (S 231, 2), toma a morte para nos dar a vida (S 233, 5), toma a nossa desgraça para nos dar a sua felicidade (S Guelf. 9; S 233, 4), vem à nossa região para nos introduzir na sua (S Guelf. 9; S 231, 5; 233, 4).

Caçador, abate o leão (S 233, 4); visita na prisão, resgata o cativo (Tract. in Jo. Ep. 2, 10); médico, trata o frenético (S Guelf. 9, 2); mercador, não regateia o preço (S 233, 4): viajante (S 239, 2), hóspede (S 231, 5), convida por seu lado à sua mesa. Esta vida nova é vida eterna, a ressurreição de Cristo é anúncio e penhor da nossa: tal é o assunto do S 240 (completado pelos S 241 e 242), porque «a vida veio à morte» (S 231, 2) e na morte dele radica a nossa vida, no seu esmagamento a nossa vitória, na derrota do Anjo o triunfo de Jacob: O grande mysterium, benedicit victus qui liberat passus (Grande mistério! Abençoa-nos com a sua derrota o que nos liberta com a sua Paixão; S Guelf. 10, 2). É, pois, natural que possam irromper, com alusão ao texto do S. Paulo: verba triumphantium (palavras de quem triunfa) palavras de vencedor: O viía, mors mortis! (Oh! vida, que és morte da morte!; S 233, 5).