Excertos da tradução portuguesa da introdução de Suzanne Poque
Tertia Feria (Terça-feira)
Sete dos sermões chegados até nós foram pregados numa Terça-feira de Páscoa:
Ordo II: Tract. in Jo. Ep. 3;
Ordo III: S 239;
Ordo IV: S 232; 234; 241; S Guelf. 12; S 322;
A leitura evangélica do dia era:
no Ordo II: Jo 20, 1-18 (Maria Madalena);
no Ordo III: Mc 16, 1-16;
no Ordo IV: Le 24, 1-35 (aparição do Senhor às santas mulheres e aos discípulos de Emaús).
A pregação assenta particularmente nos versículos 11, Et visa sunt ante illos sicut deliramentum verba ista et non crediderunt Mis (Tiveram tais palavras por delírios e não lhes deram crédito), 21; Nos autem sperabamus ... (Ora nós estávamos à espera ...), 25, tardi cor de ad credendum (tardos de coração para crer) e 31, Et cognoverunt eum (E reconheceram-no).
A leitura dos Actos era presumivelmente o capítulo III (fala de Pedro depois da cura do paralítico à porta do templo de Jerusalém). Não se faz nenhuma alusão explícita, mas alguns versículos parece que inspiraram desenvolvimentos ou expressões; são os versículos 15, Auctorem vero vitae (O autor da vida), 19, Paenitemini igitur et convertemini ut deleantur peccata vestra (Arrependei-vos e convertei-vos para vos serem perdoados os vossos pecados) e 26, ut convertat se unusquisque a nequitia sua (que se converta cada um da sua maldade).
Os sermões de segunda-feira comentavam a afirmação: a ressurreição de Cristo é a nossa vida. Os de terça têm por assunto a fé na ressurreição. Tomando por fundamento a incredulidade dos Apóstolos: et non crediderunt (e não acreditaram) e a dos discípulos de Emaús: tardi corde ad credendum (duros de coração para crer), apresentam como tese: «O próprio da fé cristã é crer na ressurreição dos mortos» (S 241, 1). De modo que, por outro rodeio, o tema da morte e da vida é ainda o dos sermões deste dia.
Crer em Cristo é crer na ressurreição d'Ele: «Acreditemos em Cristo crucificado, creamos sobretudo n'Aquele que ressuscitou ao terceiro dia. Tal é a fé que nos distingue dos incrédulos, que nos distingue dos pagãos, e dos judeus, a fé com que cremos que Cristo ressuscitou dos mortos» (S 234, 3).
«A ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo é o elemento essencial (forma) da nossa fé cristã ... Que Ele tenha nascido, que tenha aceitado ser pequeno em tudo, que tenha passado a idade da infância, que tenha chegado à de homem, que tenha levado a idade de homem até à morte, tudo isso se encaminhava para a ressurreição» (5 Guelf. 12, 1).
Os Apóstolos desconfiados, os discípulos de Emaús desalentados param na cruz, como qualquer pagão ou judeu. Por isso é que desesperam: Nos sperabamus. E Agostinho regala-se a ironizar esta queixa: «Caístes então das alturas da vossa esperança!» (S 232, 3). «Esperáveis e agora já não esperais? O que aprendestes foi só isso?» (S 234, 2). Pedro é outro exemplo de falta de fé. Porventura o seu discurso nos Actos (3, 12-26) é que terá trazido para aqui, com a narrativa da confissão dele (Mi 16, 13-23) também a da defecção (S 232, 3-4; 234, 3).
Pelo contrário, o ladrão é um exemplo do crente que, por meio da cruz, chega à ressurreição: «Recordemos o fim do ladrão. Acreditava não só que Cristo ia ressuscitar, mas também que ia reinar» (S 232, 6).
Crer na ressurreição de Cristo é também crer na nossa ressurreição. «O próprio da fé cristã é crer na ressurreição dos mortos. Esta, quero dizer, a ressurreição dos mortos, Cristo nossa cabeça, mostrou-a primeiro em si, para dar à nossa fé um exemplo, a fim de que os membros esperem para Sl o que primeiro se realizou no que é sua cabeça» (S 241, 1). Todo o S 241 se refere à ressurreição dos corpos; pregado no dia seguinte ao do 240 e na véspera do 242 (colecção Alleluid), atira-se contra as concepções filosóficas, contra o platonismo e contra Porfírio em particular, desacreditando os magna magnorum deliramenta doctorum (os delírios grandes dos grandes doutores; S 241, 6).
Ante as doutrinas filosóficas o cristianismo é optimista, sereno e sorridente; é-o ainda mais diante da trágica experiência humana: no mundo dos homens o que se conhece é nascer e morrer; a ressurreição é a «novidade» (hoc novum) que Cristo nos trouxe: «Pois, ressuscitar e viver para sempre, quem é que tal conhecia? Tal é a novidade que traz à nossa terra o que vem da região de Deus (S Guelf. 12, 1). Traz-nos a vida porque a vida é Ele: «Negar a Cristo, que é senão negar a vida? Que loucura, quem ama a vida negar a vida!» (S Guelf. 12, 3). Acode-nos aqui instintivamente o versículo dos Actos: Auctorem vero vitae ...
Finalmente, crer na ressurreição exige a nossa conversão. Era a conclusão do discurso de S. Pedro no capítulo 3 dos Actos: Paenitemini igitur et convertimini (Arrependei-vos e convertei-vos). Para os penitentes vai um parágrafo inteiro do S 232, 8: Abundant hic paenitentes ... Mutemini, mutemini (Aqui abundam os penitentes ... Mudai-vos ... mudai-vos), que tem boa explicação se provier da pero-ração do discurso de S. Pedro.
Mas a necessidade da conversão é de todos e de cada um dos fiéis; é uma exigência da dialéctica da morte e da vida: «Porque a ressurreição de Cristo está em nós se vivermos bem, se a nossa antiga má vida morrer e a nova cada dia progredir» (S 232, 8). Bona erit in opere, beata erit in mercede (Se for boa nas obras, será feliz na recompensa; S Guelf. 12, 3). «Vivereis se viveis, quero dizer, vivereis para a eternidade se viverdes bem» (S Guelf. 12, 3).
Os pagãos, os judeus sabem que Jesus nasceu e morreu; crer na ressurreição d'Ele é o que distingue o pensamento dos cristãos do dos pagãos, do dos judeus. Os demônios sabem que Jesus ressuscitou; traduzir esta fé em obras é o que distingue a fé dos fiéis da dos demônios (cf. S 234, 3): «Distinga-se a nossa fé pelos nossos costumes, distinga-se pelas nossas obras, pois temos em nós o fogo da caridade que os demônios não podem ter.» De modo que o amor é medida e sinal da fé, cujo facho ardente é o símbolo. Nonne cor nostrum ordens? (Não ardia em fogo o nosso coração?; cf. S 234, 3).