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Octavus Dies

Agostinho de Hipona — Sermões para a Páscoa

Excertos da tradução portuguesa da introdução de Suzanne Poque

Octavus Dies (Oitavo Dia)

Domingo, a celebração da Oitava dos Recém-nascidos é de particular esplendor. Desse dia em diante os recém-batizados deixam de ser infantes, deixam as túnicas brancas, deixam o seu lugar reservado e, segundo a fórmula, «misturam-se ao povo». É de algum modo a festa da maioridade deles. Há pouco catechumeni, depois competentes, há oito dias infantes, doravante serão fideles: «Eis aqui terminado o sacramentum da sua oitava.»

O programa litúrgico era carregado: «Temos ainda muito que fazer» (S 260), mas não sabemos por miúdo as cerimônias. A pregação ocupava lugar de importância. Conforme os textos que nos chegaram, concluímos que o bispo «devia» ao seu auditório (para empregar a expressão que lhe era familiar) três instruções durante a reunião da manhã. Esta pregação era expressamente para os «Recém-nascidos», e esse dia suspendiam-se as conferências que, durante a oitava, se destinavam realmente a fiéis menos rudes nas letras sagradas.

Depois da leitura do Sl 115 e de um passo dos Actos dos Apóstolos (provavelmente Act 4, 17-5, 16) pregavam-se sermões do primeiro tipo. O Evangelho ainda se não leu. Faz-se esta primeira reunião na Memória dos Vinte Mártires. Os Vinte Mártires pertencem à igreja de Hipona; foram vítimas da perseguição de Diocleciano; cada ano, no dia da festa, leem-se os seus nomes e as actas do martírio: à frente deles, o bispo Fidêncio; entre os fiéis, Primo e três mulheres: Perpétua, Valeriana e Vitória. Compreende-se que a Memória que lhes guardava os corpos e perpetuava a lembrança fosse particularmente venerada pelos cristãos do lugar. As escavações feitas em Hipona não revelaram o sítio dela. Os textos indicam que estava perto da frente do mar.

No S Guelf. 19 é que temos com probabilidade a imagem mais fiel da pregação ad viginti martyres. O bispo cita primeiro a declaração: Non possumus non loqui (Impossível não falar; Act 4, 20), para animar os recém-batizados a darem também o seu testemunho: «Declarai também vós: Impossível que não falemos do que ouvimos e que não preguemos o Senhor Jesus Cristo. Quem o prega onde pode, também é «mártir»; Ora sucede às vezes que não tem um homem que sofrer perseguição, mas teme a confusão. Acontece-lhe por exemplo ser convidado por pagãos e envergonha-se de se dizer cristão. Se tem medo diante de um conviva, como é que resistiria a um perseguidor? Sim, pregai a Cristo onde puderdes, a quem puderdes, como puderdes. O que se espera de vós não é eloquência, é fé.»

Esta amplificação traz naturalmente a citação do primeiro versículo do Sl 115: «Ouvistes o salmo: acreditei e por isso falei.» Ora, é impossível crer e calar. Quem recebeu e não propaga, é ingrato ... porque nele se abre um manancial que corre e não seca, «nascerá nele uma fonte que jorra para a vida eterna» ...

«Pregai, pois, com toda a confiança. Não é possível que mintais, porque a vossa boca exprime o que bebestes na fonte da verdade.» O pastor convida, pois, os recém-batizados a dar testemunho como os mártires, «porque testemunha se diz em grego mártir», e «quem prega Cristo é também mártir» (S Guelf. 19, 1-2). No dia em que se vai pedir aos infantes que, no povo misturado dos cristãos, escolham os que possam imitar e seguir, primeiro põe-se-lhes diante o testemunho de fidelidade de seus pais na fé.

O Sl 115 parece ter sido escolhido por causa dos versículos 1 «Acreditei e por isso falei» e 14 «é preciosa aos olhos do Senhor a morte dos santos». É de notar que as Catequeses de João Crisóstomo, pregadas durante a Oitava da Páscoa, também apelam para o testemunho dos Mártires. O trecho dos Actos vinha com singular adaptação: testemunho dado pela primeira comunidade cristã em palavras (Act 4, 20 e 29) e em obras (4, 32), com a ilustração do contra-testemunho de Ananias e Safira (5, 1 s).

Efésios 4 é comentado no S 166; os versículos 18, 22, 24, 25 ou se citam ou afloram, em relação com o simbolismo das vestimentas brancas. Tema: exue Adam, indue Christum (despe-te de Adão, veste-te de Cristo; S Guelf. 19, 2; S Mai 92; S Dinis 8, 3). São estes os textos comentados na época dos Ordines III e IV; adiante veremos o que se fazia dantes. Os S 148; 166; S Guelf. 19; S 254; 257 foram pronunciados por ocasião desta primeira reunião da manhã.

A segundo pregação «devida» aos Recém-nascidos é um sermão De monitis batizatorum (avisos dos batizados), para retomar o título de um deles. Alocução solene para os animar a bem viver, vem a seguir à primeira instrução e precede a instrução sobre a leitura evangélica. Mais uma vez, eles estão reunidos na presença do seu pastor, e o grande negócio do dia é a passagem que fazem da infância espiritual à idade adulta. Com solicitude um tanto ansiosa, o bispo exorta-os a que doravante vivam em conformidade com a fé, a que não sigam os exemplos dos maus cristãos, a que imitem os verdadeiros fiéis.

«Quando ao sair destas grades, que punham à parte a vossa infância espiritual, vos misturardes com o povo, uni-vos aos bons» (S Mai 94, 7). O simbolismo da eira, onde palha « grão estão misturados, vem aqui muito a propósito (S Guelf. 18, 2; S Mai 94, 8; S 259, 2; 376, 3; 254, 2; 146, 2). A indicação dos maus fiéis dá azo a alguns bosquejos um tanto pitorescos (S Guelf. 18, 2; S 376, 4; 224, 3; 223, 2).

Parece, pois, que o fim primário da pregação era dar conselhos de moral: Sermo quo vita praecipitur et commendatur bona (Sermão em que se dão recomendações e preceitos de vida boa; S Mai 89, 1). E é então o precatar e acautelar contra a embriaguez (S 224, 1; S Guelf. 18, 2), contra a mentira e os perjúrios (S 260; S Guelf. 18, 2); contra a linguarice e o luxo (S 260), contra as rixas (S 224, 1), contra as fraudes nos negócios (S 260), os roubos (S 224, 1), a usura (S 260; S Guelf. 18, 2), o adultério (S 224, 3; S Guelf, 18, 2), a superstição (consulta de Mathematici astrólogos, S 260 — ou da pythonissa, S Guelf. 18, 2); é a exortação ao perdão das injúrias (S 259; 376), à esmola (S 259, 376), à fidelidade conjugal ou à continência (5 260), à guarda do voto de castidade (S 260).

Contudo a moral não é tratada por si só; alimentado de S. Paulo, Agostinho sabe apresentá-la como consequência da fé em Jesus Cristo. No cristão os bons costumes são confissão e louvor: Laudemus sed non solis vocibus, laudemus et moribus (Louvemos, mas não só com palavras, louvemos também com bons costumes; S 254, 8).

Às vezes o orador contenta-se com dizer: Bene vivite (Vivei bem; S Mai 92). O sacramentum da Oitava deve inspirar comportamento novo, porque ele é circuncisão do coração e promessa da vida eterna. O S Mai 94 detêm-se particularmente a explicar o simbolismo do Oitavo Dia. O oitavo dia é o primeiro dia, o que vem depois do sábado, o dia da ressurreição, o dia que inova uma vida nova, o dia sem declínio da vida bem-aventurada. O número oito prefigura o século futuro onde o tempo abolido dará lugar à felicidade sem falha.

O sermão 260 lembra que os infantes devem celebrar a oitava para testemunho da circuncisão do coração. Porque, se na lei antiga a circuncisão se fazia no oitavo dia, é porque Cristo, ressuscitado domingo oitavo dia, nos associa à sua vida. Ora, os infantes têm este nome porque nascem de novo, são «renascidos» (S 224, 4) para a vida eterna. O S Denis 8 mostra que o batismo é o nascimento deles e que a oitava é o sinal da sua circuncisão espiritual, mas também que o batismo é a circuncisão deles e a oitava o memorial do seu batismo.

Os S 353; S Mai 89; S Dinis 8; 5 Mai 94; S Mai 92; 5 260, 223, 224; 5 Guelf. 18 dão testemunho do tipo desta segunda pregação.

Terceira pregação: depois da leitura do Evangelho, o bispo tomava a palavra para uma brevíssima alocução (S 146, 376, 259, 258, Bibl. Casin. III 136) à qual às vezes acrescentava um comentário do Sl 117 já cantado na manhã de Páscoa e que neste dia era retomado pela liturgia (S 259, 258).

Os dezanove sermões da Oitava que compreendem, como acabámos de ver, homílias de três tipos diferentes, distribuem-se ao longo de uns trinta anos de pregação e isto basta para explicar as notáveis diferenças que entre eles se verificam. A exortação aos batizados toma por vezes forma lírica, ao passo que noutras partes até a apóstrofe é muito mais sóbria, diferença de estilo que já de Sl regista uma data.

Os comentários são diferentes segundo os ordines vigentes. Ao princípio a leitura evangélica, como vimos, era Jo 21, 15-25 (Simão-Pedro), cf. S 146. O passo dos Actos era provavelmente o capítulo 8 (cf. S Dinis 8). O comentário dos outros dois textos faz supor a leitura do Ex 15, 22-27 (S 353, S Mai 89 e da I Pe 2 e 4 (S 353, 1 e 2). A expressão modo nati infantes (meninos recém-nascidos) é citação da I Pe 2, 1 na versão empregada por Agostinho. (S Dinis 8, 1; S 353, 1).

Mais tarde aparecem comentários a outros textos: a partir do Ordo II a leitura do Evangelho será doravante Jo 20, 25-31 (S. Tomé), o Sl 115, Act 4 e 5. A pregação funda-se com frequência no capítulo 4 da Epístola aos Efésios, como já dissemos. A retomada do Sl 117, já cantado na manhã de Páscoa, é atestada em todas as épocas.

A luta contra a doutrina de Pelágio dá importância singular ao versículo 11 do Sl 115: omnis homo mendax (todo o homem é mentiroso; S 166; S Guelf. 19; S 254, 257). A passagem de Adão a Cristo toma então o caráter de passagem da mentira para a verdade: «Veste-te de Cristo e serás verdadeiro» (S 166), passagem para a qual é indispensável a graça. Pedro, ora mentiroso ora verdadeiro (mendax e verax), é exemplo (S 254, 257).

Falta ainda um ponto, o último. Sabemos que a primeira reunião se fazia nos Vinte Mártires. Onde se faziam as outras?

O S 260 (De monitis batizatorum) é proferido, como vimos, in ecclesia leoníiana (na igreja leon-ciana) e o S 258 (sobre o Evangelho do dia) ad basilicam majorem (na basílica-maior).

O problema levantado pelas basílicas de Hipona não recebeu até hoje solução satisfatória e mal poderá dar um passo enquanto as escavações não nos revelarem descobertas novas.

No pormenor preciso que nos ocupa, três hipóteses se devem, em rigor, apresentar ao espírito:

— Primeira hipótese. — Se a Basílica Leonciana, Basílica Maior e Basílica da Paz são três denominações do mesmo edifício, a primeira instrução foi na Memória dos Vinte-Mártires (chamada também Memória Sanctorum), as outras duas na Basílica Maior.

— Segunda hipótese. — A Basílica Maior (chamada também Basílica da Paz) e a Basílica Leonciana são dois edifícios diversos. Depois de uma «estação» nos Vinte-Mártires, o povo reunia-se normalmente na Basílica Maior, onde ouvia as outras duas instruções. Mas alguns anos, por motivo de circunstâncias que não sabemos, sucedeu que a reunião se teve na Basílica fundada por S. Leôncio, e lá se fizeram as duas últimas instruções. Os S 379 e 259, pregados depois da leitura do Evangelho (instrução do terceiro tipo) contêm também uma exortação aos novos fiéis, prova de que podia acontecer que as duas pregações se fundissem num único sermão.

— Terceira hipótese. — Cada uma das instruções era feita em edifício diferente: recordação do testemunho dos primeiros cristãos de Hipona, na Memória dos Vinte-Mártires (S 148 e 257); exortação aos novos fiéis, na Basílica Leonciana (S 260); terceira reunião, seguida da sinaxe eucarística, na Basílica Maior (S 258). Esta procissão de estação em estação recordava o tipo de cerimônias usado na mesma época em Jerusalém. É sabido que as igrejas da África mantinham com esta igreja relações constantes1 .

No estado actual das investigações, a segunda hipótese parece mais provável.