Excertos da tradução portuguesa da introdução de Suzanne Poque
Feria Sexta (Sexta-Feira)
A leitura para a Sexta-feira de Páscoa só a conhecemos para o período que principia por 410 aproximadamente. De então para cá, parece que foi sempre a narração da pesca milagrosa, Jo 21, 1-14.
Os nossos textos são, na época do Ordo III: S 248; S Wilm. 13; na época do Ordo IV: S 240; 250; 251; S Guelf. 15.
Vimos atrás que o S 252, que se deve datar dos primeiros anos do ministério e que foi pronunciado «durante os dias sagrados», trata do mesmo assunto. Nele dá Agostinho uma interpretação mística do número 153 que mais tarde abandonará.
Não parece que a narrativa da pesca miraculosa se tenha lido na época do Ordo II. O pregador opta em seguida por outra interpretação do número 153 e, feita a demonstração de que «a letra mata, e o espírito vivifica», a perícope permitia-lhe apresentar a Lei numa perspectiva não moralizante: comentava-a cada ano.
«Vamos explicar, com o auxílio de Deus, o que ouvis tradicionalmente cada ano. Mas, se a leitura vos deve refrescar a memória, embora o Evangelho se possa ler noutras ocasiões, quanto mais verdade isto não é da prática que se tem por ano uma vez só?» (5 Guelf. 15, 1). Em cada um dos sermões o comentário da segunda pesca é iluminado pelo da primeira: «Porque em cada uma das pescas se simboliza a Igreja inteira, tal qual ela existe agora e tal qual há-de ser na ressurreição dos mortos» (S 248, 1). Nesta dupla narrativa está escrita a história inteira da nossa salvação:
«A primeira pesca é símbolo da Igreja tal qual ela existe agora» (S 251, 1). Foram necessárias duas barcas para trazer o peixe, porque a Igreja saiu de dois povos, dos judeus e dos gentios, unidos pela pedra angular. A ordem de lançar as redes não determina lançá-las à direita ou à esquerda. À direita só seriam pescados os bons, à esquerda só seriam caçados os maus, como se prova com Mt 25, 31-41. O que se toma é uma mistura de bons e de maus, como na rede da parábola (Mt 13, 47-50), com este duplo resultado que os bons sofrem do contacto dos maus e, dos maus, os que se creem bons, rasgam a rede. Tria ergo in Ma piscatione significata sunt: mixtura bonorum et malorum, pressura turbarum, separado haereticorum (Três coisas se significaram naquela pesca: a mistura dos bons e dos maus, a compressão das multidões, a separação dos hereges).
Atulham a barca da Igreja uma multidão sem conta de cristãos. «Agora são incalculáveis, chegam, entram, enchem as igrejas. Os mesmos que enchem os teatros é que enchem as igrejas» (S 250, 3). Risco de naufrágio para os bons, que se hão-de exortar ao mesmo tempo à fidelidade e à paciência. Rotura da rede pelos maus que fazem cisma. A rede lembra a eira onde ainda estão misturados a palha e o grão (S 252, 4-5; 251, 2).
«Pelo contrário, a pesca feita depois da ressurreição do Senhor simboliza a Igreja como ela há-de ser no fim dos tempos» (S 251, 1). O litus, finis maris (litoral, praia, limite do mar) é precisamente a imagem do finis saeculi (fim do século; ibid. 3). A ordem do lanço foi para a direita: «Então, na verdade, depois da nossa ressurreição, só hão-de formar a Igreja bem-aventurada os bons.» (S Wilm. 13, 2). Nada de número a mais, o montante da colheita é determinado: «Há cento e cinquenta e três, mas grandes» (S 250, 3). Estes magni pisces (peixes grandes) são explicados no S 251, 4: «No reino dos céus é efetivamente 'grande' aquele que guarda a Lei» (Mi 5, 17-19).
Por grandes que sejam os peixes, o número deles é pequeno. Tal seria então o número dos eleitos? «Não, não! Longe de mim o pensamento de que, mesmo neste povo que aqui está diante de mim, houvesse tão poucos» (S Guelf. 15, 2). «Não, mesmo esta só reunião onde estamos agora falando, é impossível que tivesse tão poucos» (S Wilm. 13, 5). Seria uma contradição com as inumeráveis multidões do Apocalipse 7 e 14 (S 248, 3; 250, 3; S Guelf. 15, 2).
Estes 153 peixes «simbolizam a Igreja bem-aventurada, mística, grande» (S 252, 7). O número 153 tem que se explicar misticamente. Agostinho formulou duas interpretações sucessivas, No S 252, 8, o número 153 explica-se assim: o número 3 indica que se há-de dividir 150 por 3 (por semelhante forma, como ele explica, 152 indicaria (75 x 2)+2; 156= (25 x 6)+6). Ora o número 50 oculta um mysterium (mistério).
Brevemente (porque as considerações do S 252 são muitas e compridas), os 40 dias da sagrada quaresma, os 40 anos do povo judeu no deserto simbolizam a nossa vida mortal. Ajunta-se-lhe o denário (10 asses) prometido aos operários da vinha, e isso faz 50, símbolo da Igreja do século futuro, cujos membros foram chamados em nome da Santíssima Trindade. É preciso, pois, multiplicar 50 por 3, o que dá 150. «Acrescentai-lhe o próprio mistério da Santíssima Trindade e temos cento e cinquenta e três.» (cf. também Epist. 55, 31).
Em todos os outros sermões, 153 explica-se por 17, porque se ajuntarmos conjuntamente todos os números de 1 a 17, isto dá 153. 17 porquê? 10, por causa da Lei; 7 por causa do Espírito (Is 11, 2 e Gn 2, 3). Não poderíamos cumprir a Lei, se à Lei se não ajuntasse o Espírito. Isto faz dizer a Agostinho: 10+7 = 10. «Que é que eu digo? Uma coisa absurda: 10+7 = 10. Dir-se-á que já não sei fazer contas. Devia ter dito: 10+7 = 17; toda a gente sabe isto. Quando eu disse: 10+7 = 10, não se puseram a rir de mim todos os meninos que estão aqui? E, contudo, digo-o e repito e não tenho vergonha disso» (S 249, 3).
«O número 153 sai de 17. Quem quiser contar de 1 até 17 e ajuntar depois todos os números, encontrara 153. Um e dois são três, e três são seis. e quatro são dez... e assim se chega a 17 e se encontra 153» (S Wilm. 13, 6).
Estas considerações agostinianas sobre os números, que parecem tão fúteis aos espíritos sérios do nosso tempo, não serão um inocente e seguro estratagema para fixar no espírito um esquema de meditação? A vida cristã é austera, mas o salário há-de vir, porque o Deus Trino chama e recompensa. Isto resume-se na igualdade numérica: (40 + 10) x 3 + 3 = 153. Ou antes: a lei foi dada para a cumprirmos; esta lei do decálogo encerra-se nos dois preceitos do amor; mas caridade só a podemos esperar do dom do Espírito que vivifica e santifica:
((3+7)+7)((17 + 1)/2) = 153
«Não tenhamos medo, nós que somos 17, porque se somos 17 chegaremos a 153 e, se chegarmos a 153, iremos para a direita d'Ele e, se formos para a direita d'Ele, receberemos o reino» (S Wilm. 13, 6). «Lá estarão realmente todos os que correm a 17, os que com o auxílio do Espírito Santo cumprem a lei de Deus» (S Guelf. 15, 3).