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Ontologia

FILOSOFIASER — ONTOLOGIA


VIDE: Ontologia Integral; Libera Ontologia Medieval; Metafísica; Ser; Ente

Se fizermos um salto histórico e lermos algum filósofo contemporâneo, veremos que todo pensar filosófico é essencialmente grego. Isto quer dizer que os gregos colheram a experiência do ser que se constituiu em vida do Ocidente, em explicação última da própria história ocidental.

O pensamento filosófico de hoje parte em geral do homem como sendo um Da-sein, isto é, um ser que toma consciência de estar-no-mundo, na imanência dos entes. Analisando esse ser-que-está-no-mundo, o filósofo o vê como «decaído», «distraído» por afãs que vão desde as conversas de mero passatempo até os mais arrojados empreendimentos de guerra e de paz. Vive no arroubo de uma representação, que poderíamos chamar de «sociedade da afluência», «civilização tecnocrática», «mito do desenvolvimento». Tudo isso «encobre» ao homem o ser.

O filósofo procede então a uma «demolição» ou «reconstrução» da ontologia: mostra que o mundo que construímos, embora repousando no ser, é apenas uma representação ou interpretação do ser. Vivemos mais na casa dos entes (objetos, coisas) que no habitáculo do ser. Os entes não são em si o ser, embora todo ente esteja no habitáculo do ser.

A filosofia de hoje é então um pensar, que é caminho em busca do ser. O homem vive no mundo esquecido do ser. Revelar o ser, torná-lo transparente qual horizonte luminoso onde as coisas múltiplas e contraditórias estão em sua verdade e unidade, é a filosofia. A filosofia é a História da caminhada do pensamento que busca incessantemente lembrar e comemorar o desvelamento-e-velamento do ser. Dentro dessa perspectiva, o filósofo é «o pastor do ser», a sentinela do habitáculo do ser.

Em resumo, o discurso filosófico nos mostra que a percepção do ser nos põe frente a um enigma ambíguo: há na experiência humana a revelação da evanescência, da transitoriedade do ser e simultaneamente na própria evanescência e transiência surge tênue, mas vigorosa consistência. O filósofo persegue a consistência do ser no aparecer evanescente. Busca revelá-la, dizê-la. Platão, ao situá-la no mundo da idealidade, quis por certo dizer que o ser consistente está para além das modalidades em que o vivemos no tempo presente. A vida e a morte, o tempo e o espaço, a matéria e o espírito, o bem e o mal, o bonito e o feio, o autêntico e o inautêntico, o verdadeiro e o falso, são interpretações possíveis, arranjos de nossa competência, onde o ser se prodigaliza. Radicalizar a possibilidade de um arranjo, viver intensamente uma interpretação, decidir-se a percorrer uma via na paisagem humana, é perceber a inconsistência e ao mesmo tempo a consistência do ser, o extraordinário que se oculta no ordinário do arranjo, da interpretação, da via. [Arcângelo Buzzi]


MINNE COMO ATO PURO1 : O ONTOLOGICUM2

DO MUNDO MEDIEVAL

A grande dificuldade de entender o próprio de Deus em Eckhart como Abgeschiedenheit, e isto como Minne, é ater-se limpidamente à evidência de que Minne não é isto ou aquilo, não é nem atividade de uma faculdade chamada vontade, intelecto ou sentimento, mas ser, tout court, como tal, simplesmente ato puro, cuja vigência dá, mantém e consuma o sentido do ser de todo e qualquer ente, possível e atual. Com outras palavras, Minne é a presença de pura e límpida atuação da livre doação de si, como condição da possibilidade de o ente ser. Minne é, pois, o ontologicum do ente na sua totalidade. O que significa, porém, mais em detalhes: Minne é como ato puro, como a plenitude de ser, o ontologicum do ente na sua totalidade? A presença da pura e límpida doação total da Minne no todo, na totalidade do ente, do que é e pode ser, atua como imensidão, como profundidade, e como originariedade. Como imensidão Minne abraça e assume todos os entes, desde os supremos até os ínfimos, não deixando de fora nenhum ente, nem sequer o próprio nada. E a largueza da generosidade. Como profundidade, atravessa e impregna de cima a baixo todas as dimensões e ordenações do ente, de tal sorte que desce do céu até o inferno, subsume, suporta, faz seus todos os altos e todos os abismos, todas as positividades e todas as negatividades do ente, penetra nos seus mais obscuros e ocultos recantos da maldade, para ali buscar, por mínimos que sejam, vestígios de igualdade com o seu ser-Minne, nos fundos de mais variegados níveis da intensidade de ser. Como originariedade, Minne é como que o in-stante do ponto de salto de todo o ente, isto é, de cada ente, cada vez na novidade da primeira e última chance da possibilidade da acolhida do ser, oferecendo-se sempre nova e de novo, como fonte, livre e solta na gratuidade da geração do ente, fazendo-o sua cria, seu filho, como a refundação de si, sem mais nem menos, na igualdade de condição.

Um tal sentido do ser, vivo e livre, não pode mais ser percebido a partir e dentro do sentido do ser atuante no uso corrente de palavras como ser (ocorrência), energia, impulso, força, vigor, vida, vitalidade, ânimo, espírito; ou melhor, não pode ser dito, nem pensado, nem percebido por nada que de algum modo atribuímos ao ente. Mas precisamente para dizer que não pode ser dito, pensado e percebido pelo sentido do ser no qual estamos em uso, Eckhart emprega palavras como Minne, deitas, Abgeschiedenheit. Daí, ele ser considerado como representante típico da assim chamada teologia negativa. ['Excertos do glossário do tradutor, Enio Paulo Giachini, da ótima versão portuguesa dos "Sermões Alemães" de Mestre Eckhart'']

NOTAS:
1 Actus purus, ato puro, é a pura e plena dinâmica de ser (verbo) na absoluta plenitude da liberdade no seu límpido desprendimento.
2 Todo e qualquer ente, ao ser cada vez interrogado no seu ser, nos traz à fala um aceno do sentido do ser ali operante. Sentido do ser que assim, de modo oblíquo, indiretamente, se nos manifesta como a tonância e fundo de um mundo constituído do ente, se chama ontologicum. Como em Eckhart o ontologicum aparece na tonância teológica, poderíamos chamar esse ontologicum de teo-ontológico.


Que é o ser? A pergunta quid dos escolásticos é a pergunta fundamental da Ontologia. A metafísica cabe a pergunta: "Por que os seres que existem existem?" É a pergunta cur dos escolásticos.

Modernamente, Heidegger considera que a pergunta fundamental da Ontologia é: Por que, em suma, há o existente em vez do Nada?

Nasce a Ontologia da meditação do homem sobre a mutabilidade, a variabilidade, a finitude, o devir mutável e transformador das coisas. Tudo muda, mas o que muda é algo que muda. Mas esse algo que conhece mutações, enquanto sustentáculo, não muda, é imutável . O mundo do devir é ao mesmo tempo a afirmação dá mundo do ser. Em face dessa meditação estrutura-se a Ontologia, ou Metafísica Geral, porque aborda ela a generalidade dos temas metafísicos que são os temas ontológicos.

Se claro ficar ao leitor o conceito de Metafísica, que expusemos como abertura da "Teoria do Conhecimento" (Gnoseologia), não haverá mais dificuldade em compreender o alcance e a justificação desta importante disciplina, na qual hoje penetramos. [''Santos Conceito Ontologia]


PÁGINAS:
Martin Heidegger: SER E TEMPO
Borella Lutero: Ontologia e Cosmologia
Heraldo Barbuy: Barbuy Problema do Ser


Citações: