Francisco García Bazán: JESÚS EL NAZARENO Y LOS PRIMEROS CRISTIANOS
Se o verdadeiro nome de Jesus para a história é o de "Jesus o Nazareno", o personagem real que se projeta até o futuro é mais que o Jesus histórico, o Cristo histórico. Não há justificativa para separar ao Jesus espaciotemporal aludido do chamado Cristo da fé que experimentaram o círculo estreito dos primeiros cristãos. O Cristo da fé é uma crença válida para os cristãos posteriores — a imensa maioria — que experimentam e vivem os acontecimentos pascais mediatamente, mas não para os testemunhos da Ressurreição que os experimentaram imediatamente. Porque o Jesus da história e o Cristo da Ressurreição são inseparáveis na experiência unitária e única de Jesus o Nazareno, o que encerra em si tanto os momentos anteriores à morte e ressurreição como as instâncias pascais e pós-pascais. Ambas coordenadas temporais vão unidas, somente que antropologicamente modificadas.
Talvez subjazendo ao clima polêmico imediato entre o valor da fé e da gnosis haja menção a este fato extraordinário, mas de exceção e para poucos, o sentido profundo com projeção de futuro da expressão de João 20,29: «Crestes porque me vistes. Ditosos o que ainda não vendo creram».
Frente a todo o dito sobre o Jesus histórico, se soube sustentar que algo diferente é o Cristo da fé, já que aos dados anteriores, que sim podem ter um caráter histórico, se devem agregar outros que têm que ver com as crenças, com a forma como estes seguidores de Jesus admirarão e interpretarão essa figura. E aí sim que se intervem outros elementos. Primeiro, as características que atribuem a sua morte. Segundo, todavia mais extraordinário, o fato de que se trate de um Cristo ressuscitado. Terceiro, o que se foi elaborando em pouco tempo em relação com estes acontecimentos extraordinários, se trata de um homem varão ao qual divinizaram, e o divinizaram como o Cristo, quer dizer, como o Messias (o Chrestos ou Christos em língua grega que é o Masiah ou Messias original do idioma hebreu-aramaico). Tudo isto pertenceria à esfera do Cristo da fé.
Interessa-nos falar, no entanto, do Cristo histórico. Se uniu ao Jesus da história com o Cristo da fé na etapa dos primeiríssimos tempos cristãos. Neste particular porque o fenômeno da ressurreição, o fenômeno das aparições de Jesus depois da morte física, oferece umas características de manifestações espontâneas e de experiências coletivas e individuais que vão muito além da simples distinção entre o histórico e o digno de fé. É um fenômeno diferente, e quando se aprofunda fenomenologicamente nele, se averte que é um tipo de conhecimento que excede estas distinções, e este tipo de experiências ocupam a etapa temporal que chega até o acontecimento da Ascensão aos céus e sobre ele estão de acordo — sob diferentes pontos de vista — protocatólicos, judeocristãos e gnósticos, homens e mulheres.
Filosofia
Michel Henry: Excertos de EU SOU A VERDADE
A vinda do Cristo no mundo realmente se produziu, é verdadeira? Verdadeiros igualmente os textos que a anunciam — as Escrituras? O que significa "ser verdadeiro" não é então a duplicação supérflua de um estado de coisas prévio e autossuficiente. Ao contrário, o estado de coisas só é verdadeiro se ele se manifesta ou se manifestou anteriormente — mais radicalmente se esta manifestação ela mesma se manifestou, nela mesma e enquanto tal. A vinda do Cristo no mundo está subordinada à vinda do mundo ele mesmo, a sua aparição como mundo. Pois se o mundo não tivesse aberto então seu espaço de luz, se não tivesse se mostrado a nós como este horizonte de visibilidade lançado além das coisas, como esta tela sobre a qual elas se destacam, jamais o Cristo teria podido vir nele nem se mostrar a nós, àqueles pelo menos a quem foi dado o privilégio de o ver.
O Cristo realmente veio no mundo? Homens tiveram este favor de ser testemunhas de seus atos extraordinários, ouviram suas palavras contundentes? Os escritos onde estão consignados estas palavras e estes atos foram redigidos por testemunhas, pelo menos dos contemporâneos? Ou bem se trata de coleções feitas de peças e fragmentos de proveniência diversa e de uma redação tardia? Estas questões pelas quais começa, parece, toda abordagem do cristianismo perdem seu caráter liminar para não ser mais que secundárias se elas são subordinadas à questão prévia da aparição do mundo e assim de uma Verdade muito mais original que aquela do cristianismo ele mesmo — trata-se somente com este último de saber se o Cristo verdadeiramente veio no mudo, se sua existência histórica é um fato estabelecido ou não.
Por conseguinte, quando de nossa primeira abordagem do cristianismo (O QUE CHAMAREMOS CRISTIANISMO?) estas questões da verdade histórica dos eventos relatados nos Evangelhos ou, estes eventos tendo desaparecido, da autenticidade dos textos que os relatam, foram evocadas de maneira sucinta, não apareceu senão a verdade de umas e de outras, dos eventos e dos textos, remetendo imediatamente a esta essência mais original da verdade do mundo e à natureza desta verdade? É porque no tempo do mundo toda realidade particular se apaga e desaparece, é porque a linguagem por sua vez deixa fora de si esta realidade e, assim como o tempo, não se edifica senão sobre sua negação, que a Verdade do Cristianismo aparecia tão precária e como evanescente. No final das contas não são os fatos, as coisas que são precárias, fugitivas como os anos, é seu modo de aparição. É a verdade fenomenológica pura que, enquanto verdade do mundo, determina toda forma particular de verdade para nós, aquela da história por exemplo ou aquela da linguagem, como uma espécie de aparição evanescente, ameaçada pelo nada.