Skip to main content
id da página: 6874 NATUREZA PERFEITA — HOMEM DE LUZ

Homem de Luz

luz
NATUREZA PERFEITA — HOMEM DE LUZ



Henry Corbin: Corbin Homem Luz

Podemos seguir o rastro desta ideia do "homem de luz" até o sufismo de Najm Kobrâ, onde as expressões árabes shakhs min nûr, shakhs nûrânî fornecem o equivalente da expressão grega photeinos anthropos que figura nos documentos herméticos que nos foram transmitidos graças a Zósimo de Panópolis (século III), célebre alquimista cuja doutrina medita as operações metalúrgicas reais como tipos ou símbolos de processos invisíveis, isto é, de transmutações espirituais. Esta doutrina se refere ao mesmo tempo a um gnosticismo cristão representado para ela pelos "Livros dos Hebreus", e a um platonismo hermetizante representado pelos "Livros santos de Hermes". É comum a uns e outros uma antropologia que apresenta a ideia do homem de luz da maneira seguinte: está o Adão terreno, o homem exterior carnal submetido aos elementos, às influências planetárias e ao destino; as quatro letras que compõem seu nome "cifram" os quatro pontos cardeais do horizonte terreno. Está, por outra parte, o homem de luz, o homem espiritual oculto, polo oposto ao homem corporal: Phôs. Há uma homonímia que atestava assim, na própria língua, a existência do homem de luz: o indivíduo por excelência (o herói espiritual, que corresponde neste sentido ao persa javânmard). Adão é o arquétipo dos homens de carne; Phôs (cujo nome próprio pessoal não foi conhecido senão pelo misterioso Nicotheos) é o arquétipo não dos humanos em geral, mas dos homens de luz.

Phôs preexistia, inocente e apazível, no Paraíso; os arcontes o persuadiram, mediante astúcia, para que se revestisse com o Adão corporal. Ora, este último, explica Zósimo, é aquele a quem os helenos chamam Epimeteu, e a quem Prometeu-Phôs, seu irmão, aconselhou não aceitar os dons de Zeus, isto é, o laço que submeteu ao Destino as Potências deste mundo. Prometeu é o homem de luz orientado e que orienta para a luz, pois segue a seu próprio guia de luz. Não podem ouvi-lo aqueles que só têm um ouvido corporal, pois estes estão submetidos à potência do destino, às potências coletivas; só ouvem sua demanda e seu conselho aqueles que têm um ouvido espiritual, isto é, sentidos e órgãos de luz. E já aqui se pode perceber a indicação de uma fisiologia do homem e seus órgãos sutis.

Quanto às precisões relativas ao guia de luz, elas são colhidas ao mesmo tempo de Zósimo e dos gnósticos aos quais este se referia. É, com efeito, este homem de luz que fala pela boca de Maria Madalena, quando assume, no curso das conversações iniciáticas do Ressuscitado com seus discípulos, o papel preponderante que lhe confere o livro da Pistis Sophia, Novo Testamento da religião do homem de luz: "A potência que saiu do Salvador e que é agora o homem de luz em nosso interior... Meu Senhor!, não só o homem de luz em mim tem ouvidos, mas minha alma ouviu e compreendeu todas as palavras que tu disseste... O homem de luz em mim me guiou; se regozijou e borbulhou em meu interior como se desejasse sair de mim e passar a ti". Assim como Zósimo opõe, por um lado, Prometeu-Phôs e seu guia de luz que é o "filho de Deus", e por outro o Adão terreno e seu guia, o Antimimos, o "falsificador", assim também se diz no livro de Pistis Sophia: "Sou eu, afirma o Ressuscitado, aquele que nos outorgou a potência que se encontra em vós e aquele que procede dos doze salvadores do Tesouro de Luz".

Pela mesma inversão e a mesma reciprocidade que, no sufismo, fará da "testemunha celestial" simultaneamente o contemplado e o contemplador, o homem de luz aparece ao mesmo tempo como guia e guiado; esta communicatio idiomatum já adverte que a biunidade, a unidade dialógica, não pode ser a associação de Phôs e o Adão carnal, que segue a outro guia. A luz não se mistura com a treva demoníaca; esta é a prisão de Phôs, da qual luta para se separar e que voltará à sua negatividade primeira. A sizígia de luz é Prometeu-Phôs e seu guia, o "filho de Deus". Assim se precisa uma estrutura que se viu exposta no entanto a toda classe de erros. Depreende-se de "a potência que se encontra em vós", em cada um de vós, que não pode tratar-se de um guia coletivo, de uma manifestação e uma relação coletivamente idênticas para todas e cada uma das almas de luz. Tampouco pode referir-se nem ao macrocosmo nem ao Homem universal (Insân kollî), que assumem o papel de complemento celestial de cada microcosmo. O preço infinito acordado à individualidade espiritual faz inconcebível que sua salvação consista na absorção em uma totalidade, por muito mística que seja. O importante é ver que se trata de uma analogia de relações que supõe quatro termos, e isto é no fundo o que expressou admiravelmente a angelologia da gnose valentiniana: os anjos de Cristo são Cristo mesmo, porque cada anjo é Cristo referido à existência individual. O que Cristo é para o conjunto das almas de luz, o é cada anjo para cada alma. Cada vez que aparecem estas díades, se reproduz a relação constitutiva do pleroma de luz. Esta relação tão fundamental se encontra no maniqueísmo, e é ela também a que na "teosofia oriental" de Sohravardi permitirá conceber a relação entre a Natureza Perfeita do místico e o Anjo arquétipo da humanidade (identificado com o Espírito Santo, o anjo Gabriel da revelação corânica, a Inteligência ativa dos filósofos avicenianos). O que esta figura é para o conjunto das almas de luz emanadas dela mesma, cada Natureza Perfeita o é respectivamente para cada alma. À concepção desta relação conduzem os textos herméticos em língua árabe relativos à Natureza Perfeita.

CITAÇÕES: