René Guénon: CORAÇÃO E CÉREBRO
Uma outra consequência resulta ainda das características fundamentais do intelecto e da razão: um conhecimento intuitivo, por ser imediato, é necessariamente infalível em si mesmo;3 ao contrário, o erro sempre pode introduzir-se em todo conhecimento que é apenas indireto ou mediato, como no caso do conhecimento racional. E por aí também pode-se ver o quanto Descartes se enganava ao querer atribuir infalibilidade à razão. É o que Aristóteles exprime nestes termos: "Dentre os haveres4 da inteligência, em virtude dos quais alcançamos a verdade, existem aqueles que são sempre verdadeiros, e outros que podem levar ao erro. O raciocínio está neste último caso; mas o intelecto está sempre conforme à verdade e nada é mais verdadeiro que o intelecto. Ora, sendo os princípios mais conhecidos do que a demonstração, e estando toda ciência acompanhada de raciocínio, o conhecimento dos princípios não é uma ciência (mas sim um modo de conhecimento superior ao conhecimento científico ou racional, e que propriamente constitui o conhecimento metafísico). Além disso, o intelecto é por si mais verdadeiro que a ciência (ou que a razão que edifica a ciência); logo, os princípios pertencem ao intelecto."5 E, para melhor afirmar o caráter intuitivo do intelecto, Aristóteles também diz: "Os princípios não são demonstráveis, mas percebe-se diretamente a sua verdade."6
Filosofia
Mário Ferreira dos Santos: DO HÁBITO
O termo habitus predica-se da coisa, não enquanto esta tem algo porque isso é o que constitui propriamente o predicamento hábito, mas enquanto a coisa se há (habet) em si mesma; ou seja, como ela se há em si mesma.
A disposição é definida como o acidente facilmente móvel, que dispõe o sujeito a bem ou mal haver-se em si mesmo. Hábito e disposição diferem intrínseca e especificamente, porque uma pode ser fácil e outra difícil, assim como a opinião, por sua natureza, é fácil, enquanto a ciência é difícil, e, no obstinado, a opinião pode ser dificilmente removível, enquanto a ciência, ao contrário. O hábito pode ser entitativo e operativo. Ambos determinam a substância, mas o operativo determina por ordem à atividade o hábito meramente entitativo. O hábito operativo pode ser tomado estritamente ou não. O primeiro consiste, por modo de inclinação, na indeterminação da potência, que impede operar no bem ou no mal. A segunda consiste na ação cognoscitiva e operativa.
A potência é definida como o acidente que dispõe o sujeito a operar ou a resistir. A resistência, contudo, também é uma operação. Divide-se a potência em ativa e passiva. Ativa é a que realiza uma ação transeunte, que transita fora da potência do sujeito para algo. E passiva, a que permanece imanentemente. Assim se diz que a potência ativa é transeunte ou transitiva, e a passiva é imanente.
NOTAS: