ANGELUS SILESIUS. L’errant chérubinique. Tradução: Roger Munier. 2e éd ed. Paris: Arfuyen, 2014
O que podem os dísticos de Angelus Silesius fazer pelo homem de hoje? Eles recordam ao cristão que ele é, já aqui na Terra, concernido pelo reino de Deus, uma felicidade extrema que pode ser atingida somente por uma ascese rude e sem fim. É preciso ser cristão para ler Angelus Silesius? Nós não o pensamos: a leitura dos dísticos acalma o coração, conduz ao recolhimento e ao mesmo tempo desperta o espírito, pois o silêncio interior é o clima favorável ou mesmo necessário para um pensamento que, longe de todo cálculo, se contenta em meditar; em resumo, Angelus Silesius é o amigo de todo filósofo. O maior de nosso tempo, Martin Heidegger, não escreveu a respeito de Angelus Silesius: "Chegaríamos quase a admitir que não há grande e autêntica Mystica sem uma extrema precisão e profundidade de pensamento. E tal é também a verdade" (O Princípio de Razão, tradução André Préau). Sobre o que meditar se não sobre este "Nada puro e nu", que evoca Hadewijch de Antuérpia, sobre este "Nada eterno" (II, 248) de que fala Angelus Silesius na sequência de Mestre Eckhart. Este Nada é somente o lado oposto do Ser, a única forma sob a qual o homem poderia, não falar de Deus, mas indicar O Que o supera? Por obediência exterior ao dogma, por medo da heresia, a via negativa não é, ao contrário, infiel à sua verdade profunda cada vez que se refere a um Superlativo do ser sob o qual se esconde um Ser supremo? Não se poderia aproximar este Nada desta Vacuidade ou deste Vazio de que nos fala o Tao e na sequência o budismo zen, movimentos talvez religiosos, mas ateus ou quase? Uma vida divina sem Deus seria então possível, e seria este o último ensinamento, ainda escondido, da via negativa em geral e de Angelus Silesius em particular? É este Nada que, surpreendente enigma, poderia ser qualificado de "divino"? Nós somente pomos a questão e concluiremos com Angelus Silesius:
Amigo, paro aqui. Se tu queres ler ainda,
Vai, tu mesmo torna-te a escritura e a essência (VI, 236).